quarta-feira, 17 de março de 2010

Mariachis fusion

Não sou purista, nem devoto das tradições. Não acho heresia colocarem cream-cheese no sushi ou tocarem jazz fusion com ritmos caribenhos. No fundo, toda tradição em algum momento já foi inovação ou mistura. Se você achar que italianos comiam macarrão com molho de tomate ou polenta antes da descoberta do Novo Mundo, estará enganado. Da mesma forma, se achar que o Judô é uma arte marcial milenar, também  estará: nasceu de uma adaptação que o Mestre Jigoro Kano fez do Jiu-jitsu após a segunda guerra mundial. Por sua vez, o Jiu-jitsu foi um aprimoramento da arte marcial chinesa do Shuai Jiao, embora alguns digam que deriva de uma arte marcial indiana praticada por monges budistas. Acho improvável, porque na Índia as castas dos Brâmanes e dos Xátrias são marcadamente separadas, enquanto na China os militares derrotados costumavam se abrigar nos mosteiros para se esconderem de seus inimigos.  Porém, para tudo há limite. Fui no fim de semana a um restaurante mexicano que abriu recentemente e, em certo momento, apareceram três sujeitos vestidos de Mariachi. Durante a noite, além do inevitável "Parabéns a você", tocaram "Macarena" (do grupo espanhol Los del Río), "Baila me" (do grupo espanhol Gypsy Kings), "Volare" (releitura que o Gypsy Kings fez de uma música italiana), "Guantanamera" (música cubana, de José Martí e Josito Fernandez) e por aí foram. Quando tocaram "Pinga ni mim" (do brasileiro Sérgio Reis), exclamei: nossa, o célebre compositor mexicano Sergio de los Reyes! Quando eu já esperava que tocassem Martinho da Vila - a essas alturas convertido em Martín de la Villa, finalmente tocaram "Besame Mucho", da mexicana Consuelo Velázquez. E foi só, nada rancheras, juapangos ou corridos, como as famosas "La Adelita" e "La Cucaracha". Aí fica a pergunta, o que é mais mexicano: Gypsy Kings ou Cafe Tacuba? Sérgio Reis ou Molotov? Tá certo que ninguém lá parecia saber a diferença, mas se aparecesse um acarajé com os burritos, o pessoal iria reclamar. Nada contra tocarem músicas espanholas, argentinas ou colombianas, mas aí não precisava toda aquela encenação de se vestir de Mariachi. Vou sugerir que chamem o grupo de "Las Liebres" e entrem vestidos de gatos.

P.S.: a ilustração é uma homenagem póstuma a Glauco, um dos autores dos maravilhosos "Los 3 amigos".

2 comentários:

Tati Pastorello disse...

kkkkk Do jeito que as coisas andam acho que você saiu no lucro deles não "cantarem" o Rebolation... ninguém merece!!!

Paulo César Nascimento disse...

Tati: você está certa! El Bamboleation, mais provavelmente. rs
Abs

 
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