segunda-feira, 22 de março de 2010

A tragédia de Sarriá

Vem chegando a Copa do Mundo e uma coisa é certa: a maioria dos times jogará para não perder. Isso parece óbvio, mas há uma sutileza embutida nesta frase. Não jogarão para vencer, mas para não perder. Isto sempre existiu e a seleção italiana, atual campeã, costuma ser um grande expoente em se defender e esperar para contra-atacar. Quem tinha menos de dez anos em 1982 não deve entender muito bem o que significava o jeito brasileiro de jogar futebol. Isso porque o nosso futebol morreu em 5 de julho de 1982, no estádio Sarriá, em Barcelona, naquela derrota sofrida para a Itália de Paolo Rossi. Podíamos empatar, jogamos para vencer e perdemos. Quem acha que a velhice e saudosismo dos comentaristas dão mais brilho ao futebol daquela seleção, deve clicar aqui e ver se aprende o que significa futebol arte. Já perdemos outras copas, mas o maior prejuízo para o ofensivo e técnico futebol brasileiro veio desta derrota. Telê Santana, nosso treinador, representava a antítese da mecanização à moda européia proposta pelo seu antecessor, Cláudio Coutinho. Era outra época, havia maior identificação dos jogadores com seus clubes e os únicos que jogavam na Europa eram Falcão e Dirceu. O futebol era alegre, de toque de bola rápido e com qualidade no passe, jogadas de efeito e gols, muitos gols. Em uma tarde infeliz, com o time em um clima de "já ganhou", jogando o primeiro tempo meio de salto alto, o Brasil foi sufocado pela marcação italiana, embora os dois gols marcados sugiram outra coisa. A defesa foi displicente e Paolo Rossi estava inspirado. Até o último minuto, o Brasil pressionou. Não deu.

Em 1986, com o retorno de Telê a pedidos, após a insatisfação provocada por alguns de seus substitutos,  a seleção já estava sem aquele fôlego e brilho.  Em 1990, na copa de pior futebol que o mundo já viu, vivemos uma entressafra de talentos com a medíocre seleção de Lazaroni, inaugurando a chamada "era Dunga", de futebol aguerrido, porém pouco inspirado. Em 1994, Parreira montou uma equipe para não perder. Do meio para trás era uma fortaleza e a única lei era "bico para frente, que o Romário e o Bebeto resolvem". Faltava criatividade no meio de campo e foi preciso torcer muito para que a bola sobrasse milagrosamente para nossa dupla de ataque. Novamente encontramos os italianos pelo caminho, porém dessa vez nosso futebol era mais italiano do que o deles. Quando dois times jogam para não perder, o mais provável é que saiam no zero a zero, que foi o que de fato ocorreu. Vencemos nos pênaltis, como bem poderíamos ter perdido, já que o futebol - como a vida - é cheio de caprichos. Com o aumento do dinheiro que está em jogo, a filosofia de não perder se firmou no futebol. Não raro, vemos times com três zagueiros e dois volantes, com um jogador sozinho lá na frente, ao qual só resta cavar  faltas para sair um a zero de bola parada. Menos mal que existe a seleção espanhola, de Fábregas, Torres e Villa, que joga para frente. Tomara nos estejam devolvendo o futebol que esquecemos por lá.

1 comentários:

FlaM disse...

Tava pensando em ti!!!!
... mas respondi lá! bj

 
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