sábado, 15 de maio de 2010

Alergias sociais

Eu sou socialmente alérgico a militantes, ativistas e missionários. Eis as principais razões:

1) São inconvenientes: adoto um princípio de etiqueta de que você deve oferecer algo uma vez e insistir somente mais uma, para evitar o risco de uma recusa por educação quando de fato a pessoa queria aceitar. Depois disso, a oferta constrange a aceitar mesmo que não se queira ou a recusar de maneira veemente, criando mal estar. Uma vez eu fui num barzinho com um amigo, que estava disposto a seduzir uma moça e me incumbiu de tirar a amiga dela das proximidades pelo tempo necessário. Mal comecei a conversa e ela tentou me apresentar Jesus (que eu conheço desde criança e é meu amigo, inclusive já me confidenciou que acha os fanáticos um pé no saco). Tudo bem, se ela queria deixar claro que não iria rolar nada, Jesus é um ótimo guarda-costas. Porém, tudo tem limite! Eu não vou pro templo tentar seduzir as crentes, elas que não venham pro boteco me encher a paciência.

2) São arrogantes: eles se acreditam detentores da Verdade e quem não aceita sua perspectiva é taxado de alienado, pecador ou qualquer outra palavra desaforada que una burrice, crueldade e outros predicados indesejáveis. Já tentou argumentar com líder estudantil em assembléia, Companheiro? Nem tente! Afinal de contas, o preço do bandejão do Restaurante Universitário não pode subir além da fortuna de três reais e cinquenta centavos, pois isso é uma afronta ao ensino público, gratuito e de qualidade para todos aqueles estudantes pobres e famélicos que passam no vestibular de uma universidade federal.

3) São desonestos: entre a Causa (no sentido de missão, não de causalidade) e a veracidade factual, optam sempre pela primeira, distorcendo os fatos para que caibam em suas explicações de mundo. Passado o 13 de maio, alguém viu destaque para o aspecto histórico de que, em sua maioria, os negros trazidos como escravos para o Brasil já eram escravos de negros de outras tribos na África, sendo por eles vendidos? Isso não torna a escravidão mais aceitável, porém evita a afirmação maniqueísta de que o mal no mundo tem o sexo masculino, a cor branca e os olhos azuis. A escrotice humana desconhece fronteiras de credo, cor e gênero.

7 comentários:

Tati Pastorello disse...

Eu incluiria nos chatos e indesejáveis os vendedores. Amigos que fazem vendas por catálogo então... Vontade de fugir! Detesto me sentir "a indelicada" quando na verdade estou sofrendo a indelicadeza.
Beijos.

FlaM disse...

Paulinho, sou socialmente adita dos militantes! Respeito admiro e gosto (a chatice é um detalhe)! me gustan los estudiantes, feministas e trotskistas, judeus, bichas, lésbicas, negros e deficientes físicos organizados.
Sou militante, cada vez mais acadêmica, é certo, mas cada vez mais adepta da política miúda e cada vez mais cootidiana ("militante") das relações interpessoais. Xingo e deixo recado no carro do motorista que estaciona em frente à rampa para deficientes, faço BO na delegacia da mulher contra o vizinho engraçadinho, acho que uma transformação mais profunda nas desigualdades se dá em grandes fóruns e nas instituições e legislações, mas não se dá sem os embates e os constrangimentos que se impõem aos racistas, machistas, misóginos, homofóbicos etc etc etc. Ponho a boca no trombone. E claro isso é chato, perco simpatizantes e crepes pelo caminho. Há os que ouvem e pensam, no meu entender pq estão dispostos a se rever e mudar. Minha militância é antes de tudo interna: aprender para mudar! Transformar-me para transformar! Estou acostumada a ser "xingada" de "politicamente correta". Fico triste, mas tb fico feliz. Sabe por que? Porque me sinto... sabe como? CORRETA!
Tua generalização sobre a desonestidade da militancia é falaciosa e não menos desonesta! E tua interpertação sobre o 13 de maio, equivocada - e é uma pena se realmente achares que minha convição a respeito é arrogância ou desonestidade...
Na verdade fiquei muito desapontada com o que li aqui hj, (se quiseres podemos conversar a respeito durante aquele café, ou crepe, quem sabe?), só que pelo que li aqui vais achar só chato! Acontece que é o que penso! Conheces bem meu senso de humor, mas eduquei meus filhos "proibindo" em casa piadas de negro e de loiras... isso é militância!
bj

Paulo César Nascimento disse...

Tati: dos vendedores eu já falei num post mais antigo, sobre telemarketing. Bjs

Flávia: existem diferenças entre fé e fanatismo, posicionamento político e militância, educação e patrulhamento ideológico. Uma coisa é defender direitos humanos, outra é adotar a política do correto. Não vejo como sinônimos. Eu gosto dos desorganizados, justamente porque eles são pessoas e não uma "entidade que personifica o bem e a justiça"; dos organizados eu já disse o que penso: são extremamente autoritários em sua aura de redentores do mundo, sob o pretexto justamente de combaterem o autoritarismo. Bjs

Alline disse...

Fanatismo é um saco. Me cansa. E não vou discutir. ;)

Beijinho

alinealvesantos disse...

"A escrotice humana desconhece fronteiras de credo, cor e gênero."

João Brandão disse...

Li num livro que alguém pode ter um direito, mas se não souber defendê-lo, não vai conseguir fazer valer este direito. Muitas vezes só se tem uma chance para defender o direito ou uma causa. Uma defesa aborrecida põe o direito ou a causa por terra. Creio que o PCN está certo, pois persuasão não é admoestação. A militância, para ser eficiente, requer respeito do militante com o "militado".

milu leite disse...

paulinho, eu achei o teu texto muito bom! prefiro os desorganizados também e, acima de tudo, sou a favor da liberdade de opinião, desde que não seja preconceituosa. não vejo preconceito nenhum no que vc disse. vejo, isto sim, uma pessoa disposta a protestar contra qualquer tipo de patrulha ideológica, posicionamento, aliás, que compartilho contigo.
como sempre, li teu post com um sorriso nos lábios e olhos de admiração pela tua habilidade de fazer humor e passar teu recado de maneira inteligente.

bjo

 
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