sábado, 12 de junho de 2010

Para não dizer que não falei de moda

Quando criança eu não entendia o espírito dos desfiles de moda e pensava: quem vai sair na rua desse jeito? Sempre me pareceram algo muito próximo das brincadeiras infantis, quando as meninas se maquiavam de modo desajeitado e vestiam as roupas das mães, desfilando na sala de estar. Depois me ensinaram que os desfiles deveriam exagerar as tendências, como um indicativo. Aí eu passei a torcer para a tendência da estação ser das transparências ou do corpo visível, porque os desfiles ficavam cheios de mulheres bonitas seminuas. Aí a adolescência acabou e esse voyeurismo diminuiu um pouco - só um pouco. Continuei a observar que a variação dos cortes de cabelo, das bocas das calças, do tipo de maquiagem e das cores das roupas eram seguidas com um fervor quase religioso por boa parte da mulherada. Hoje, ao ver uma senhora vestindo uma saia com estampas questionáveis, tive um insight - quase uma epifania: a moda precisa ser passível de ridicularização futura para poder mudar. O que afasta temporariamente a moda do ridículo é justamente a soma da autoridade dos estilistas com a anuência dos consumidores. A moda é, portanto, o deslocamento arbitrário do ridículo a serviço do comércio. Em outras palavras, a moda de hoje precisa ser  o ridículo de amanhã - e vice-versa -, do contrário as roupas serão vendidas apenas quando suas antecessoras se estragarem. Por isso, lançar moda é sempre flertar perigosamente com o bizarro, o extravagante. Não é à toa que as celebridades dão tantos escorregões na estética quando ocorrem premiações e festas: são elas que ajudam os estilistas a arriscar para lançar as tendências. Saias repolhudas, colarinhos gigantes, calças de pirata, gravatas ultra-finas ou ultra-largas, botas alaranjadas, calças boca de sino, costeletas, cabelos black-power, mullets, estampas florais, padrões de zebra ou onça, verde limão, blazer de veludo, unhas bicolores, saltos agulha e plataforma, tudo isso se alterna e a única certeza de não se estar ridículo é estatística: quanto mais gente estiver do mesmo jeito, maior o seu salvo-conduto. Quem se veste de modo clássico terá a garantia de não cair no ridículo, pois estará sempre naquela faixa intermediária de quem não quer a atenção sobre si. O clássico é o zero a zero da moda.

2 comentários:

Mulher de Fases disse...

Paulo,
Procuro me manter no 0 X 0,mas às vezes faço gol contra...
Abços

Marcia Pinho disse...

Paulo, seu blog foi escolhido para receber o Prêmio Dardos, de criatividade e valor cultural. Escolhi seu blog pelo seu texto excelente. Parabéns. Sua indicação está no www.mamaerecomenda.com.br bjão!

 
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