segunda-feira, 26 de julho de 2010

Tele-marketeiros que não irão para o inferno

Ainda há esperança! Recebi um telefonema me oferecendo um serviço de internet e a vendedora não ficou repetindo "Senhor Paulo", não usou gerundismo, nem insistiu. Perguntou se poderia deixar o número dela caso eu tivesse interesse após examinar as propostas na página da empresa, ou ainda se poderia me enviar uma proposta específica por e-mail. Ouviu atentamente as condições que me interessavam, tirou minhas dúvidas, tudo isso conversando como uma pessoa normal, depois se despediu com um "Obrigado" e não com "A empresa X agradece, blá-blá-blá". Nada de técnicas de vendas (psicologia do mal), nem de chatice. Não sei se a supervisora irá descartá-la, mas essa menina Cassiana ganhou o meu respeito. 

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Trava-línguas nipônico

Repita rapidamente por três vezes a frase: "Cheiro de sushi sem shoyu"

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Cadernos de viagem: traçando o roteiro

Adoro conhecer lugares novos, comidas típicas, outros idiomas e costumes. Porém, detesto passar horas a fio espremido em uma poltrona de avião ou ônibus, ou a sacolejar estradas afora. Meu ideal de viagem é aquela maquininha da Enterprise, de Jornada nas Estrelas, em que você se desmaterializa e volta a se materializar no destino. Porém, depois que assisti ao filme "A mosca" a idéia não me pareceu assim tão boa. Este paradoxo cria uma tensão todas as vezes que uma proposta de viagem é feita e costumo recusar parte delas. Porém, depois que estou no destino, tudo muda de figura. Enquanto vivia a rotina de Professor Universitário, imaginava que não atravessaria o Atlântico, salvo se um Congresso Internacional me garantisse um patrocínio. Felizmente o prêmio literário em Portugal serviu para quebrar esta barreira e pude fazer a minha viagem do Descobrimento. É meio clichê, mas muito verdadeiro dizer que ao descobrir o "Outro" findamos por descobrir mais ainda sobre nós mesmos. Quando se tem uma viagem datada, em com um compromisso assumido em local distante dos pontos turísticos habituais, é difícil encontrar algum tipo de roteiro ou excursão prontos que atendam aos nossos interesses. Assim sendo, ao saber que teria uma cerimônia no Nordeste de Portugal, na simpática Vila de Mogadouro, precisei guardar os medos no bolso e recorrer a todo tipo de orientação, pois não teria guia ou sequer acompanhante, uma vez que é difícil alguém ter tempo e dinheiro para lhe acompanhar numa viagem dessas exatamente no período da premiação. Na dúvida sobre a possibilidade de visitar novamente o Velho Mundo, a afobação e a inexperiência me levaram a um roteiro inicial inviável para o pouco tempo disponível. Em virtude de ser em pleno semestre letivo, precisei contar com a boa vontade de alunos e Coordenador, que de fato foram muito generosos e permitiram um plano de antecipação/reposição das aulas. Mesmo assim, foram apenas cerca de dez dias (saí do Brasil em uma sexta à tarde, para retornar em uma segunda-feira) e só no avião, entre ida e volta, foram vinte e sete horas. Pensei inicialmente em conhecer Lisboa, Porto, Mogadouro, Salamanca, Madrid, Toledo, Sevilha, Granada e Córdoba. Lá pelas tantas, caiu a ficha de que seria humanamente impossível circular tanto em tão pouco tempo e acabei optando pelas seis primeiras. De todas, Lisboa foi a que menos aproveitei, pois tive um dia de Mr. Bean que narrarei em outra postagem. Lá pelas tantas, fuçando rotas de trem e ônibus em Portugal e Espanha, percebi que seria impossível me deslocar diretamente de Mogadouro para Salamanca por estes meios -  o que criava um terrível contratempo. Felizmente foi possível agendar com antecedência um táxi que cobrou um preço bastante honesto para esta viagem, tornando viável o roteiro estabelecido: chegada a Lisboa no Sábado ao meio-dia, viagem de trem de Lisboa à cidade do Porto no domingo após o almoço, pernoite no Porto no domingo, viagem a Mogadouro na terça à tarde, pernoite em Mogadouro, viagem de táxi até Salamanca apos a cerimônia de premiação na quarta-feira, pernoite em Salamanca, viagem a Madrid na quinta-feira à tarde, pernoite em Madrid, excursão a Toledo no sábado, passeio pelos museus e pelo Parque del Retiro no domingo, volta para o Brasil na segunda de manhã. Deu tudo certo, graças às dicas de amigos e parentes que me ajudaram a planejar e providenciar meios para que assim fosse. Porém, é o inesperado que fortalece o enredo e, paradoxalmente, sempre se pode contar com ele.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Mudanças de paradigma

Ontem estava vendo uns vídeos do Michael Hedges no Youtube e me dei conta de uma coisa: é difícil para os que vieram depois de uma mudança de paradigma perceber a importância de certos pioneiros. Quando eu ouvia o Caetano Veloso idolatrar João Gilberto, não compreendia bem: achava-o um senhor cheio de frescuras e exigências nos espetáculos, com uma voz fraquinha, porém afinada, e um violão jeitoso. Só fui compreender o que João Gilberto significou como mudança depois de já tocar violão e conhecer mais música. Quem hoje assiste na TV ao videotape das partidas da Holanda de 1974 não vai compreender a dimensão da mudança tática que esta seleção promoveu. Até mesmo quem vê o Royler e o Renzo Gracie, já senhores, apanhando de lutadores não tão expressivos no MMA (vale-tudo), não percebe nitidamente o impacto que o jiu-jitsu brasileiro teve no mundo das artes marciais depois de 1995. A história das culturas tem um aspecto cumulativo, o acesso à informação vem disparando e é difícil imaginar um mundo onde reis eram desdentados, tinham piolhos e defecavam nos cantos dos cômodos dos palácios. Tempos sem internet, telefone, tratamento de canal ou papel higiênico. Não tenho conhecimento histórico suficiente para demarcar as grandes mudanças de paradigma ao longo do processo civilizatório, mas tenho alguns palpites.

a) No campo da comunicação: mímica; linguagem falada; linguagem escrita; rádio; telefone; televisão; internet;

b) No campo da saúde/higiene: banho; herbatologia; cirurgia; aquedutos; esgotos; destilação (álcool); esterilização (assepsia); anestésicos/analgésicos; antibióticos; próteses/órteses; psicoterapia; exames de saúde (bioquímicos e de imagem).

c) No campo da engenharia: máquinas simples (alavanca, roldana, engrenagem, mola, plano inclinado, cunha, rodas e eixo); pontes; barcos; carroças/carruagens; máquinas de guerra (catapultas, etc.); moinhos-de-vento; máquinas a vapor; motores de combustão; eletricidade; eletrônica;automação; informática.

Poderia prosseguir com essas listas, mas o ponto que quero demarcar já está suficientemente ilustrado: todas estas mudanças levam a alterações na subjetividade e é difícil para nós a compreensão do universo simbólico de homens de outras épocas. É por isso que, dadas as rápidas mudanças tecnológicas, é cada vez mais difícil para os filhos entenderem seus pais e vice-versa. Não que em algum momento isso tenha sido fácil. É por essas e outras que tenho apreciado cada vez mais a leitura de biografias (principalmente as autobiografias). No momento, estou lendo a do Érico Veríssimo. Recomendo.  

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Sorpresas te da la vida

O caso Bruno / Eliza está dando tanto o que falar, que achei melhor abordar outro assunto: música!


Uma canção da qual gosto muito é Pedro Navaja, uma salsa composta e cantada por Rubén Blades, inspirada em outra canção fantástica: Mack, the Knife. Pedro Navaja conta a história de um bandido metido a malandro, que resolve se dar bem em cima de uma prostituta. Por uma questão financeira, pouco se importa com a vida dela e mete-lhe a faca. Porém, ele não contava com o fato de que sua vida terminaria ali também. Ao final, quem acaba lucrando em cima é outra pessoa que nada tinha a ver com o assunto:

"Sólo un borracho con los dos cuerpos se tropezo,
Cojio el revolver, el puñal, los pesos y se marchó,
Y tropezando se fue cantando desafinao'
El coro que aqui les traje y da el mensaje de mi cancion.
"La vida te da sorpresas, sorpresas te da la vida" ay Dios...
Pedro Navaja matón de esquina
quien a hierro mata, a hierro termina"

Não que isso não seja bas-fond, mas pelo menos tem poesia e um pouco de justiça acidental, que é mais do que a vida oferece, na maioria das vezes.

sábado, 3 de julho de 2010

Motivos descosturados e desculpas esfarrapadas

Karl Popper foi um Filósofo da Ciência que defendeu o princípio da falseabilidade como critério de cientificidade para o conhecimento. Traduzindo: tente provar que aquela hipótese é falsa; se a afirmação resistir ao falseamento (tentativa de provar  sua falsidade), deve ser temporariamente considerada verdadeira até que se consiga provar o contrário. Claro que nenhum dos nossos comentaristas esportivos chegou perto de ler Popper alguma vez na vida, então temos um bando de senhores com meras opiniões e senso comum a nos oferecer - coisa que qualquer um tem. Não fazem mais pontos em bolão, ou prognósticos mais acurados, nem mesmo acertam a pronúncia dos nomes eslovacos ou finlandeses mais do que nós. Tirando uma ou outra honrosa exceção de estudiosos, como o excelente Paulo Vinícius Coelho, ou de ex-jogadores inteligentes, como o Caio e o Tostão, os demais são simples cidadãos brasileiros com uma câmera à frente para desferirem chutes e pedradas ao seu bel prazer. Bobagem por bobagem, posso me dar ao luxo de falar as minhas próprias, sofisticadas por um olhar neo-popperiano: vamos ao teste das hipóteses jornalísticas pelo princípio da falseabilidade.

O Brasil perdeu porque:

a) Negou a tradição do futebol-arte, com toque de bola, ginga e habilidade?
Não. Em 1970 teve isso e venceu, em 1982 teve e perdeu. Em 1990 não teve e perdeu, em 1994 não teve e venceu.

b) Não levou jogadores de criação no meio-de-campo?
Não. Em 1958 tinha um meio de campo com ótimos jogadores de criação e venceu, em 1974 também e perdeu. Em 1994 tinha um meio de campo de criatividade limitada e venceu, em 1990 idem e perdeu.

c) O técnico não tinha experiência em Copas do Mundo?
Não. Em 1970 o Zagallo debutou em copas como treinador e venceu, em 1974 e 1998, mais experiente, perdeu. Em 1986, Beckembauer debutou em copas do mundo como treinador e foi vice-campeão; na copa seguinte, mais experiente, venceu.

d) Um jogador perdeu o controle emocional nas quartas de final e foi expulso?
Não. Em 2002, Ronaldinho Gaúcho pisou em um jogador inglês nas quartas de final, foi expulso e vencemos. Em 1994, Leonardo deu uma cotovelada em um jogador americano nas quartas de final, foi expulso e vencemos. Em 2006, não houve expulsões de brasileiros nas quartas de final e perdemos.

e) O jogador brasileiro não consegue recuperar seu equilíbrio emocional quando o placar é adverso?
Não. Em 1958 viramos a final contra a Suécia, em 1962 viramos a final contra a Tchecoslováquia; em 1982 , 1998 e 2006, não conseguimos.

f) O técnico foi cabeça-dura e não seguiu os clamores da torcida?
Não. Em 1994, Parreira cedeu, levou Romário e venceu. Em 2002, Felipão não cedeu, não levou Romário, e venceu.

g) Dunga não soube se relacionar com a imprensa?
Não. Em 1982, Bearzot e a equipe italiana estavam em crise com a imprensa e a Itália venceu, em 2002 a equipe francesa brigou com a imprensa e perdeu.  Em 2006, a seleção brasileira estava em lua-de-mel com a imprensa e perdeu, já em 2002, estava bem relacionada e venceu.

h) Não se preparou adequadamente para a copa?
Não. Em 1970, o Brasil se preparou bem e venceu. Em 1982, preparou-se bem e perdeu. Em 2002, preparou-se mal e venceu, em 2006, preparou-se mal e perdeu.


Então, por que raios o Brasil levou essa laranjada em 2010?
Porque das quartas de final em diante a Copa é muito nivelada, decidida em detalhes: falhas, contusões, substituições, apitos, bandeiradas, propinas, rixas e até na mão de Deus. A vitória é que é a exceção, não a derrota: trinta e uma seleções perderão a Copa e só uma a vencerá. O mais estranho não é termos perdido quatorze copas, mas sim termos vencido cinco delas. As outras seleções também são protagonistas e não apenas coadjuvantes em um sonho ufanista brasileiro de monopolizar as vitórias no futebol. É como a piada do brasileiro que foi à Espanha, parou em um restaurante perto da plaza de toros e degustou um prato típico: cojones (os testículos do touro). Gostou do prato e comeu mais duas vezes nos dias seguintes. Na quarta vez, porém, a porção veio muito menor e ele se queixou ao garçom, que respondeu: Cavalheiro, nem sempre é o touro quem perde.

 
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