sábado, 3 de julho de 2010

Motivos descosturados e desculpas esfarrapadas

Karl Popper foi um Filósofo da Ciência que defendeu o princípio da falseabilidade como critério de cientificidade para o conhecimento. Traduzindo: tente provar que aquela hipótese é falsa; se a afirmação resistir ao falseamento (tentativa de provar  sua falsidade), deve ser temporariamente considerada verdadeira até que se consiga provar o contrário. Claro que nenhum dos nossos comentaristas esportivos chegou perto de ler Popper alguma vez na vida, então temos um bando de senhores com meras opiniões e senso comum a nos oferecer - coisa que qualquer um tem. Não fazem mais pontos em bolão, ou prognósticos mais acurados, nem mesmo acertam a pronúncia dos nomes eslovacos ou finlandeses mais do que nós. Tirando uma ou outra honrosa exceção de estudiosos, como o excelente Paulo Vinícius Coelho, ou de ex-jogadores inteligentes, como o Caio e o Tostão, os demais são simples cidadãos brasileiros com uma câmera à frente para desferirem chutes e pedradas ao seu bel prazer. Bobagem por bobagem, posso me dar ao luxo de falar as minhas próprias, sofisticadas por um olhar neo-popperiano: vamos ao teste das hipóteses jornalísticas pelo princípio da falseabilidade.

O Brasil perdeu porque:

a) Negou a tradição do futebol-arte, com toque de bola, ginga e habilidade?
Não. Em 1970 teve isso e venceu, em 1982 teve e perdeu. Em 1990 não teve e perdeu, em 1994 não teve e venceu.

b) Não levou jogadores de criação no meio-de-campo?
Não. Em 1958 tinha um meio de campo com ótimos jogadores de criação e venceu, em 1974 também e perdeu. Em 1994 tinha um meio de campo de criatividade limitada e venceu, em 1990 idem e perdeu.

c) O técnico não tinha experiência em Copas do Mundo?
Não. Em 1970 o Zagallo debutou em copas como treinador e venceu, em 1974 e 1998, mais experiente, perdeu. Em 1986, Beckembauer debutou em copas do mundo como treinador e foi vice-campeão; na copa seguinte, mais experiente, venceu.

d) Um jogador perdeu o controle emocional nas quartas de final e foi expulso?
Não. Em 2002, Ronaldinho Gaúcho pisou em um jogador inglês nas quartas de final, foi expulso e vencemos. Em 1994, Leonardo deu uma cotovelada em um jogador americano nas quartas de final, foi expulso e vencemos. Em 2006, não houve expulsões de brasileiros nas quartas de final e perdemos.

e) O jogador brasileiro não consegue recuperar seu equilíbrio emocional quando o placar é adverso?
Não. Em 1958 viramos a final contra a Suécia, em 1962 viramos a final contra a Tchecoslováquia; em 1982 , 1998 e 2006, não conseguimos.

f) O técnico foi cabeça-dura e não seguiu os clamores da torcida?
Não. Em 1994, Parreira cedeu, levou Romário e venceu. Em 2002, Felipão não cedeu, não levou Romário, e venceu.

g) Dunga não soube se relacionar com a imprensa?
Não. Em 1982, Bearzot e a equipe italiana estavam em crise com a imprensa e a Itália venceu, em 2002 a equipe francesa brigou com a imprensa e perdeu.  Em 2006, a seleção brasileira estava em lua-de-mel com a imprensa e perdeu, já em 2002, estava bem relacionada e venceu.

h) Não se preparou adequadamente para a copa?
Não. Em 1970, o Brasil se preparou bem e venceu. Em 1982, preparou-se bem e perdeu. Em 2002, preparou-se mal e venceu, em 2006, preparou-se mal e perdeu.


Então, por que raios o Brasil levou essa laranjada em 2010?
Porque das quartas de final em diante a Copa é muito nivelada, decidida em detalhes: falhas, contusões, substituições, apitos, bandeiradas, propinas, rixas e até na mão de Deus. A vitória é que é a exceção, não a derrota: trinta e uma seleções perderão a Copa e só uma a vencerá. O mais estranho não é termos perdido quatorze copas, mas sim termos vencido cinco delas. As outras seleções também são protagonistas e não apenas coadjuvantes em um sonho ufanista brasileiro de monopolizar as vitórias no futebol. É como a piada do brasileiro que foi à Espanha, parou em um restaurante perto da plaza de toros e degustou um prato típico: cojones (os testículos do touro). Gostou do prato e comeu mais duas vezes nos dias seguintes. Na quarta vez, porém, a porção veio muito menor e ele se queixou ao garçom, que respondeu: Cavalheiro, nem sempre é o touro quem perde.

10 comentários:

Sandro Sell disse...

Absolutamente brilhante! A única análise que eu tomei conhecimento que disse alguma coisa, justamente por dizer que não dá para dizer coisa alguma. Perdemos porque habitualmente se perde. É isso mesmo. O resto é galvanisse e falta do que fazer.
Parabéns, Paulo!

Raphael Rocha Lopes disse...

Concordo, mas que também nosso futebol estava bem mais ou menos, não dá pra negar.
Abraço.

Violene Silva disse...

Paulo!!! Adorei!!! Ok, Ok... dou o braço a torcer... uma pessoa inteligente pode falar "até" sobre futebol. Obrigada por me mostrar o quanto meu preconceito era ridículo!!! Grande beijo.

Paulo César Nascimento disse...

Sandro: obrigado! Também sou fã de suas análises e leituras! Abs

Raphael: estava mais ou menos, no mais estrito sentido da mediocridade. Também não gosto daquele jeito de jogar, desde os tempos do Zagallo, Coutinho, Parreira e similares. Porém, não é isso o que faz vencer ou perder, é apenas uma questão de prazer, estética e cultura nacional. Abs

Violene: muito obrigado e um grande beijo para você também!

Luana disse...

Opaaaa! Tudo bem? Desculpe o sumiço! Estava meio ocupada esses tempos! O Estou com um blog novo... Eu vou parar de postar no Festa na Prisão... Agora estou com o 'Baseado em Ideias'. Está convidado para conhecer! :)

Beeeijos

Daniel Silva disse...

na minha mera opinião baseada no senso comum, o culpado, ou quase isso, foi o felipe melo. e o dunga. na verdade, todo mundo sabia que o cara ia pisar em alguém e ser expulso. o dunga morreu abraçado com ele e voltou pra casa. não que a expulsão dele tenha causado a derrota. longe disso, até pelo que você brilhantemente escreveu. mas desestabilizou o time e, sim, contribuiu para o fracasso da seleção da CBF, que demitiu até o Américo Faria, veja você.

parabéns pelo blog, professor.

abraço

Murilo disse...

Perfeita a análise, professor!
E o "galvanisse" do professor Sandro alí foi boa... hahahaha

Abraço

Alline disse...

Vi sem grandes expectativas. Perdeu, como outros perderam, e ninguém vai morrer por causa disso.
Confesso: não me empolgou.

Beijo, Paulinho!

milu leite disse...

VIVA A ESPANHA!
bj

Ramiro Zinder disse...

Ainda sobre a letra "e", em 2002, estávamos perdendo de 1 a 0 da Inglaterra e viramos...Muito bom o texto! Abração. Ramiro.

 
design by suckmylolly.com