sexta-feira, 16 de julho de 2010

Mudanças de paradigma

Ontem estava vendo uns vídeos do Michael Hedges no Youtube e me dei conta de uma coisa: é difícil para os que vieram depois de uma mudança de paradigma perceber a importância de certos pioneiros. Quando eu ouvia o Caetano Veloso idolatrar João Gilberto, não compreendia bem: achava-o um senhor cheio de frescuras e exigências nos espetáculos, com uma voz fraquinha, porém afinada, e um violão jeitoso. Só fui compreender o que João Gilberto significou como mudança depois de já tocar violão e conhecer mais música. Quem hoje assiste na TV ao videotape das partidas da Holanda de 1974 não vai compreender a dimensão da mudança tática que esta seleção promoveu. Até mesmo quem vê o Royler e o Renzo Gracie, já senhores, apanhando de lutadores não tão expressivos no MMA (vale-tudo), não percebe nitidamente o impacto que o jiu-jitsu brasileiro teve no mundo das artes marciais depois de 1995. A história das culturas tem um aspecto cumulativo, o acesso à informação vem disparando e é difícil imaginar um mundo onde reis eram desdentados, tinham piolhos e defecavam nos cantos dos cômodos dos palácios. Tempos sem internet, telefone, tratamento de canal ou papel higiênico. Não tenho conhecimento histórico suficiente para demarcar as grandes mudanças de paradigma ao longo do processo civilizatório, mas tenho alguns palpites.

a) No campo da comunicação: mímica; linguagem falada; linguagem escrita; rádio; telefone; televisão; internet;

b) No campo da saúde/higiene: banho; herbatologia; cirurgia; aquedutos; esgotos; destilação (álcool); esterilização (assepsia); anestésicos/analgésicos; antibióticos; próteses/órteses; psicoterapia; exames de saúde (bioquímicos e de imagem).

c) No campo da engenharia: máquinas simples (alavanca, roldana, engrenagem, mola, plano inclinado, cunha, rodas e eixo); pontes; barcos; carroças/carruagens; máquinas de guerra (catapultas, etc.); moinhos-de-vento; máquinas a vapor; motores de combustão; eletricidade; eletrônica;automação; informática.

Poderia prosseguir com essas listas, mas o ponto que quero demarcar já está suficientemente ilustrado: todas estas mudanças levam a alterações na subjetividade e é difícil para nós a compreensão do universo simbólico de homens de outras épocas. É por isso que, dadas as rápidas mudanças tecnológicas, é cada vez mais difícil para os filhos entenderem seus pais e vice-versa. Não que em algum momento isso tenha sido fácil. É por essas e outras que tenho apreciado cada vez mais a leitura de biografias (principalmente as autobiografias). No momento, estou lendo a do Érico Veríssimo. Recomendo.  

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