domingo, 29 de agosto de 2010

Cadernos de viagem: os preparativos

Para quem está habituado a correr o mundo, ir à Europa é como tomar um cafezinho no bar da esquina. Porém, para marinheiros de primeira viagem, como no meu caso, a coisa muda de figura. Quando você fecha um pacote de excursão ou vai com alguém que conheça os destinos, tudo fica mais estruturado e é questão simplesmente de seguir o programa. Porém, quando uma premiação está agendada em uma cidadezinha simpática, mas fora das rotas habituais das agências de turismo brasileiras, não há excursão que encaixe. Assim sendo, busquei uma agência de confiança do meu amigo Hildebrando, que vive circulando pelo mundo, para traçar uma rota personalizada. A agência fica em Balneário Camboriú, a uma hora e meia de viagem de Florianópolis. O que eu não contava é que eu teria uma crise de dor de dente na véspera, não encontraria um plantão odontológico que me atendesse, passaria a noite em claro e faria a viagem quase dormindo ao volante, mantido acordado apenas pela dor. Hotéis reservados, passagens compradas do Brasil a Portugal e da Espanha ao Brasil, tratamento de canal feito, era questão de descobrir como comprar as passagens entre as cidades (Lisboa, Porto, Mogadouro, Salamanca, Madrid e Toledo). Reservei pela internet o quarto no Hotel Trindade Coelho, em Mogadouro, em parte porque lá quase tudo leva o nome do escritor, em parte por homenagem a ele. Descobri que as passagens de trem (comboio) e de ônibus (autocarro) poderiam ser compradas sem reservas, pois os horários entre as grandes cidades eram freqüentes. Porém, de Porto a Mogadouro a coisa mudava de figura e eu fiquei meio apavorado com a possibilidade de perder a viagem. Outro problema surgiu: não encontrava na internet Ônibus que ligassem diretamente o nordeste português ao oeste espanhol. Ter que retornar a Lisboa e ir diretamente a Madrid implicaria em reorganizar todo o itinerário, modificar o pagamento, enfim, uma chateação. A solução foi encontrar o telefone de um motorista de táxi em Mogadouro e fechar um preço para a corrida entre aquela cidade e Salamanca, que me saiu cem euros, o que não achei nenhum absurdo para uma corrida de cerca de 130 km (duas horas de viagem). Na agência, apesar de todo o bom tratamento e a eficácia nos serviços, não souberam me alertar sobre uma vacina que precisaria ser tomada em tempo hábil e isso me deixou preocupado. Tomei a vacina fora do prazo e só me restou cruzar os dedos. De resto, peguei declaração do meu chefe de que eu tinha emprego no Brasil e volta agendada, a carta do Presidente do Concelho (com c mesmo) de Mogadouro, os vouchers todos e montei uma pastinha para não me barrarem no aeroporto, já que na ocasião havia muitos brasileiros voltando de Madrid logo depois da chegada. Por esta razão, escolhi chegar por Lisboa e partir de Madrid, o que se mostrou acertado. O passaporte já estava pronto há meses, porque não dava para saber se haveria ou não greve na Polícia Federal e eu não quis arriscar. Aí pesquisei os passeios em guias de viagem, conversei com meu tio João, que é especialista em assuntos ibéricos, mas fica melhor contar em uma próxima postagem sobre a viagem propriamente dita.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Respostas tardias para buscas perdidas - IV

Nem todo mundo vem ao "Soco no Figo" aprender a preparar bebida ice caseira, ou a ser canalha, a usar leite de figo para aumentar/engrossar o pênis, encontrar imagens do Marlon Brando passando manteiga na Maria Schneider, ou para fazer trabalhos sobre Marilene Shaolin (que é o jeito que a molecada pensa que a filósofa Marilena Chauí se chama). Claro que estes são maioria, mas há também gente com preocupações mais singulares e é a essa gente que respondo agora em uma nova rodada de "Respostas tardias para buscas perdidas".

- Se eu fosse um figo
... e soubesse nadar, eu tirava mais ácido do fundo do mar.

- Bicho do mato novela quien mato romario
Creo que el carácter no se llama Romario, pero Ramalho. Quién "mató" a Romario en 2002 fue Felipão Scolari.

- Bill Clinton biografia nas artes marciais
Diz a lenda que ele praticou tae-kwon-do, mas levo mais fé no judô do Putin.

- Como fazer o refrigerante ficar embaixo da vodka
Coloque a vodka na gaveta de cima da geladeira e o refrigerante na de baixo.

- figo gravo - para chá foto
Tente procurar "figo-bravo" no google imagens.

- Ir no ginecologista com a pele bem bronzeada é considerado assédio?
Se esta hipótese passou pela sua mente, corre o risco de ser.

- Jogo de estrumento de soco
Consiste no seguinte: um dos participantes rola no estrume e tenta se abraçar nos outros, que o repelem a socos.

- quero o desenho do soco em inglês
Tente procurar um "desenho de soco-inglês", a menos que você queira ver o Lennox Lewis apanhando.

- relação entre o mito da mulher gato e a ideologia da sociedade capitalista
Batman representa os aspectos ideológicos do capitalismo, uma vez que combate a criminalidade gerada pela desigualdade social que ele próprio produz na condição do milionário Bruce Wayne. A mulher gato... a mulher gato... bem, eu diria que fica muito sexy naquela roupinha.

domingo, 22 de agosto de 2010

Projetos literários

Fechei contrato para edição do segundo livro de contos. Ainda não há previsão para seu lançamento, mas manterei meus leitores informados. Tenho alguns projetos em andamento e conto com o apoio de vocês para um deles. Quero ambientar parte de um romance no Rio de Janeiro, entre as décadas de 30 e 90. Já reuni material sobre a cidade, principalmente sua vida cultural, mas gostaria de trocar idéias com pessoas que lá vivem ou viveram, a fim de captar o jeitão da cidade, das pessoas e do cotidiano na Cidade Maravilhosa. Quem quiser contribuir para este trabalho de pesquisa, favor enviar o e-mail como comentário. Como aqui no blog há moderação de comentários, seu e-mail não será publicado. Não há remuneração prevista, mas os que efetivamente contribuírem, receberão um exemplar autografado de um dos meus livros (a escolher) e seu nome constará na lista de agradecimentos do romance. Quem se habilita?

sábado, 14 de agosto de 2010

Os sem-tribo


Excluindo-se os grupos que se formam de modo obrigatório, como nas unidades de trabalho ou classes escolares, ou ainda por laços de parentesco, de modo geral as pessoas costumam se agrupar por afinidades e interesses comuns. Isso faz com que freqüentem os mesmos ambientes, tenham hábitos parecidos e acabem gravitando em torno de um estereótipo tribal. Dependendo da cidade onde você mora, há um leque maior ou menor de identidades grupais pré-fabricadas disponíveis e acaba sendo mais cômodo aderir a uma delas do que lutar para afirmar uma individualidade. Já morei em quatro cidades e nunca encontrei uma tribo prèt-a-porter que me servisse. Isso já me levou a momentos análogos ao personagem Tônio Kroeger, de Thomas Mann, que inveja uma normalidade corada e saudável. A vida seria muito mais fácil - ou pelo menos mais prática - se eu gostasse de carro prata, Ivete Sangalo, Big Brother, pagode, carnaval, excursão... ou então se surfasse, gostasse de um cigarrinho do Diabo, de reggae e tigela de açaí... ou tomasse o Daime, comesse comida natural, praticasse yoga e acreditasse em reencarnação. Pra cada um desses conjuntos de interesses há grupos bem definidos em Florianópolis. Porém, eu sempre fui um sem-tribo e, mesmo circulando e tentando socializar com muitas delas, é inevitável o momento em que lhe convidam para uma micareta, ou acendem um baseado, discutem a novela, defendem a revolução socialista ou a pena de morte. Pode ser que cada um e todos ali presentes sintam-se igualmente desterrados, em segredo. Mas não parece...

domingo, 8 de agosto de 2010

Invocando textos


Ando meio frustrado nas últimas semanas por não conseguir tempo e/ou disposição para desenvolver as idéias para postagens. Na verdade, não foram estas idéias que escassearam, mas calhou de só me ocorrerem temas que exigem algum fôlego para dar o tratamento adequado. Às vezes faço uma listagem para desenvolvê-los em momentos de ócio, outras simplesmente os perco entre manobras no trânsito, entrevistas, testes e laudos. Sequer os cadernos de viagem relatando a ida a Portugal e Espanha têm se mostrado objeto de escrita fluente... Já que escrever não tem sido fácil, pelo menos a leitura tem compensado. Voltei a ler um texto do Caio Fernando Abreu - na verdade a transcrição de um depoimento em uma mesa-redonda no seminário "Sobre o Manuscrito", organizado pelo setor de Filologia da fundação Casa de Rui Barbosa, em 1990, publicado na revista Ficções, ano I, nº 2 - sobre seu processo de criação. Inicialmente ele fez um desabafo quanto ao modo estúpido como a crítica no Brasil tratava o artista brasileiro pela sua ousadia de, frente às maiores dificuldades e falta de apoio, tentar criar alguma coisa. Em seguida, falou sobre seus rituais para criar. Sempre achei muito peculiar essa coisa de precisar de um ritual complexo para escrever, do tipo escrever apenas em dias ímpares, com papel importado, pena de ganso e tinta nanquim, ouvindo Aracy de Almeida em setenta e oito rotações, ou ainda conjurar espíritos, beber cachaça e fumar charuto. Seja em um notebook ou em papel de embrulho com caneta esferográfica, para mim sempre foi suficiente ser deixado em paz, ter tempo livre e não estar mentalmente cansado. As idéias boas, é claro, aparecem quando querem, por isso convém ter sempre um bloquinho, um celular ou um gravador para registrá-las. Porém, como diz o povo, "cada um é cada um" e o resultado dos rituais do Caio Fernando Abreu compensava. Dele, recomendo Pequenas Epifanias, publicado em 1996 pela Editora Sulina, após o falecimento prematuro do escritor.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Bisbilhotices

Terminei a leitura de Solo de Clarineta, excelente livro de memórias de Érico Veríssimo. Sempre que leio biografias me ocorre que muitas das pessoas ali expostas poderiam ficar constrangidas, se ainda vivas, uma vez que a opção por expô-las foi do biografado ou de algum jornalista indiscreto. Quando as semi-celebridades tiram fotos praticamente intra-uterinas para revistas, não estão apenas expondo seu púbis e implantes de silicone, mas também seus parentes. Hoje em dia, banalidades como "Estrela de cinema flagrada tirando meleca no semáforo" ganham uma importância extraordinária nos meios de comunicação. Esse impulso misto de voyeurismo com bisbilhotice que nos leva ao interesse pela vida alheia, embora gere empregos e ajude a preencher o tempo ocioso, parece-me um sinal de vidas próprias pouco interessantes. É por isso que eu gosto da ficção: permite que vidas de mentirinha sejam bisbilhotadas sem maiores conseqüências para as personagens. Isso, claro, quando os indiscretos de plantão não ficam tentando achar quem as inspirou. Por estas e outras que eu não clono gente de verdade em meus escritos de ficção.

 
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