segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Bisbilhotices

Terminei a leitura de Solo de Clarineta, excelente livro de memórias de Érico Veríssimo. Sempre que leio biografias me ocorre que muitas das pessoas ali expostas poderiam ficar constrangidas, se ainda vivas, uma vez que a opção por expô-las foi do biografado ou de algum jornalista indiscreto. Quando as semi-celebridades tiram fotos praticamente intra-uterinas para revistas, não estão apenas expondo seu púbis e implantes de silicone, mas também seus parentes. Hoje em dia, banalidades como "Estrela de cinema flagrada tirando meleca no semáforo" ganham uma importância extraordinária nos meios de comunicação. Esse impulso misto de voyeurismo com bisbilhotice que nos leva ao interesse pela vida alheia, embora gere empregos e ajude a preencher o tempo ocioso, parece-me um sinal de vidas próprias pouco interessantes. É por isso que eu gosto da ficção: permite que vidas de mentirinha sejam bisbilhotadas sem maiores conseqüências para as personagens. Isso, claro, quando os indiscretos de plantão não ficam tentando achar quem as inspirou. Por estas e outras que eu não clono gente de verdade em meus escritos de ficção.

2 comentários:

Alline disse...

Um papo ouvido na rua não te faz ter vontade de inventar história? Não?

Paulo César Nascimento disse...

Alline: posso aproveitar o mote ou algum traço dos bisbilhotados, mas "causo" não é conto. Bjs

 
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