domingo, 8 de agosto de 2010

Invocando textos


Ando meio frustrado nas últimas semanas por não conseguir tempo e/ou disposição para desenvolver as idéias para postagens. Na verdade, não foram estas idéias que escassearam, mas calhou de só me ocorrerem temas que exigem algum fôlego para dar o tratamento adequado. Às vezes faço uma listagem para desenvolvê-los em momentos de ócio, outras simplesmente os perco entre manobras no trânsito, entrevistas, testes e laudos. Sequer os cadernos de viagem relatando a ida a Portugal e Espanha têm se mostrado objeto de escrita fluente... Já que escrever não tem sido fácil, pelo menos a leitura tem compensado. Voltei a ler um texto do Caio Fernando Abreu - na verdade a transcrição de um depoimento em uma mesa-redonda no seminário "Sobre o Manuscrito", organizado pelo setor de Filologia da fundação Casa de Rui Barbosa, em 1990, publicado na revista Ficções, ano I, nº 2 - sobre seu processo de criação. Inicialmente ele fez um desabafo quanto ao modo estúpido como a crítica no Brasil tratava o artista brasileiro pela sua ousadia de, frente às maiores dificuldades e falta de apoio, tentar criar alguma coisa. Em seguida, falou sobre seus rituais para criar. Sempre achei muito peculiar essa coisa de precisar de um ritual complexo para escrever, do tipo escrever apenas em dias ímpares, com papel importado, pena de ganso e tinta nanquim, ouvindo Aracy de Almeida em setenta e oito rotações, ou ainda conjurar espíritos, beber cachaça e fumar charuto. Seja em um notebook ou em papel de embrulho com caneta esferográfica, para mim sempre foi suficiente ser deixado em paz, ter tempo livre e não estar mentalmente cansado. As idéias boas, é claro, aparecem quando querem, por isso convém ter sempre um bloquinho, um celular ou um gravador para registrá-las. Porém, como diz o povo, "cada um é cada um" e o resultado dos rituais do Caio Fernando Abreu compensava. Dele, recomendo Pequenas Epifanias, publicado em 1996 pela Editora Sulina, após o falecimento prematuro do escritor.

2 comentários:

jefhcardoso disse...

A verdade é que as idéias simplesmente surgem, o pensamento é ativo, até quando dormimos sonhamos.
Jefhcardoso do
http://jefhcardoso.blogspot.com

milu leite disse...

acho envolvente conhecer como os autores chegam às suas histórias e sinto enorme prazer quando encontro semelhanças entre o processo de um autor que admiro e o meu. nossa, como fico feliz quando isto acontece!
bjos, paulinho.

 
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