sábado, 16 de outubro de 2010

Xuxa e a erotização da infância


Hoje em dia, em parte pela valorização do período de vida adulta jovem, em parte pelo apelo que a sexualidade tem para o consumo, vemos crianças e pré-adolescentes andando por aí vestidas de pequenos adultos, andando na contramão do movimento que Philippe Ariès descreveu em História Social da Criança e da Família. O pessoal fala muito daquela cena de abuso infantil do filme "Amor, estranho amor", no qual Xuxa interpretou uma prostituta que seduziu um menino. O que a turma não percebe é que aquilo pouco ou nada fez pela erotização das crianças, tendo passado batido e sendo até aceitável do ponto de vista artístico, como a Lolita de Nabokov. Por outro lado, o programa infantil da Xuxa, além de incentivar um consumismo desenfreado, passou a gerar nas crianças a identificação com uma adulta e algumas adolescentes vestidas de shortinho e botas, quase descendentes diretas das chacretes. Não é exagero, tinha um bocado de barbados que assistiam ao programa pela exposição da apresentadora e suas ajudantes, que, não casualmente, posaram para revistas masculinas tão logo atingiram a maioridade (uma delas até antes, com autorização dos pais). Embora isso não seja exatamente um estímulo à pedofilia, uma vez que o que atrai o pedófilo (portador da patologia que implica em atração sexual exclusiva e incontrolável por menores impúberes) é justamente o aspecto infantil do(a) parceiro(a), é um estímulo ao abuso sexual, uma vez que transveste crianças e pré-adolescentes em mini-adultos trajados de modo apelativo. Não vou divulgar imagens do concurso Miss Mundo Infantil, que ao meu ver deveria ser proibido, para não estimular essa barbárie, mas uma brasileira de seis anos é bicampeã. Nem todo abuso sexual infantil ocorre por parte de pedófilos, embora hoje em dia a mídia contribua para o estabelecimento dessa confusão. Há abusadores que sentem atração também por adultos e se relacionam ocasionalmente com adolescentes e crianças, o que deixa de caracterizar a patologia, passando a ser um problema moral/legal e não mental. Em outras palavras, a capacidade de escolher e de controlar o impulso está presente, porém a perspectiva de impunidade faz com que ocorra a violação dos direitos do menor impúbere. Essa situação é preocupante, uma vez que a falta de supervisão, tão comum hoje em dia, deixa as crianças à mercê de quem estiver por perto. Por força da profissão, acompanho muitas visitas de pais a seus filhos em praças e parques, encontrando muitas vezes crianças a brincar sem a supervisão de um adulto. Já socorri um menino de cinco anos acidentado no playground do prédio, enquanto os pais não estavam nem na varanda do apartamento. Já vi irmãozinho de oito anos cuidando de outros dois, de seis e quatro, na quadra de esportes. Estas crianças são emocionalmente carentes e se aproximam do primeiro adulto que lhes der atenção. Aí, depois que o pior acontecer, não adianta chorar e protestar, o estrago já estará feito. Está na hora de devolver a infância para as crianças - e vice-versa.

2 comentários:

Ramiro Zinder disse...

"Por força da profissão, acompanho muitas visitas de pais a seus filhos em praças e parques"

Pô, Paulinho, virasse babá de pai e mãe...hehe...dá até pra fazer um filme: Um psicólogo no jardim de infância. :)

Abração!

Paulo César Nascimento disse...

Caro Ramiro, satisfação encontrá-lo no meu blog! Pena que aqui não tenha cerveja, mas isso se resolve em outros ambientes.

Acreditas que essa parte de observação participante tem sido um diferencial pra avaliação?

Abs

 
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