domingo, 28 de novembro de 2010

Personagens inesquecíveis: Odorico Paraguaçu

A teledramaturgia brasileira ficou menor sem Dias Gomes e Paulo Gracindo, responsáveis por uma das melhores novelas/ minisséries que assisti: "O bem amado". Em uma cidade chamada Sucupira, espelhava-se o Brasil de então, qual um microcosmo no qual Nezinho do jegue representava a volubilidade do povo, Neco Pedreira e Tuca Medrado o poder de resistência da imprensa ao governo corrupto, as irmãs Cajazeiras o falso moralismo dos setores conservadores, entre outras personagens divertidíssimas, como Zeca Diabo e Dirceu Borboleta. Com ótimos roteiros e um elenco de primeira, O bem amado fazia rir e pensar. O destaque da novela era Odorico Paraguaçu, político corrupto, demagogo e falsamente erudito, a desfilar citações apócrifas de Ruy Barbosa - "Se ele não disse, deveria ter dito" -, criar neologismos, como "prafrentemente" e "sem-vergonhista", e a tentar obsessivamente inaugurar o cemitério da cidade para poder se promover, sem que algum defunto involuntariamente colabore com suas ambições políticas. Não vi ainda o Odorico de Marco Nanini, mas, mesmo para um grande ator como ele, será difícil empatar com o de Gracindo. Coronéis corruptos ainda encontramos aos montes no Senado Federal, mas nenhum deles me dá a menor vontade de rir.

domingo, 21 de novembro de 2010

Cadernos de viagem: de Florianópolis a Lisboa


Felizmente eu não tenho medo de pegar avião. Digo felizmente porque esses medos a gente não escolhe ter, mas sim enfrentar. A falta desse medo não vem das estatísticas, mas de uma confiança infantil no comandante, mesmo com seu ingês "Joelsantanesco", falando Lesangens (ladies and gentlemen). De Floripa ao Rio de Janeiro, tudo correu bem; tomei cuidado para não comer nada suspeito, pois sabia que do Galeão até Lisboa o vôo poderia enfrentar turbulências, mas meus intestinos não. Comi um cheeseburger no McDonalds, que, embora forneça uma comidinha mais ou menos, nunca me deu imprevistos, sem maionese, pra garantir. Passei um tempão no check-in da TAP, depois fui devidamente enlatado no avião, junto às demais sardinhas da classe econômica. O vôo foi bom, dentro do que pode ser considerado bom ficar doze horas sentado em uma cadeirinha estreita. Parte da viagem eu fui conversando com um estudante lá do Cabo Verde que veio ao meu lado, outra parte foi assistindo aos filmes disponíveis. Tentei ler um pouco, e nada do tempo passar. Lá pelo final, eu olhava de cinco em cinco minutos o deslocamento do avião no mapa, até que chegamos a Lisboa. Pulei a descrição das refeições, que não foram nem suficientemente boas, nem ruins para merecerem comentários. Veio a parte de pegar o visto no passaporte e aí eu dei uma de malandro: deixei o papelzinho da vacinação em outra parte da bolsa, tirando apenas a pastinha com os vouchers e declarações. O funcionário era muito sério e começou a examinar tudo, até perguntar o motivo da viagem. Quando viu a carta do Presidente do Concelho de Mogadouro, imediatamente deu o visto sem mais nada perguntar, inclusive puxou assunto sobre literatura, falando que o Paulo Coelho também tinha um texto que falava em demônio, como meu conto. Bem feito para mim, que também me chamo Paulo e me meto a escrever... Mas respondi com um sorriso amarelo que devia ser algum costume dos escritores brasileiros. Ele voltou a ficar sério e eu iniciei minha jornada européia. No táxi, o motorista foi muito simpático e conversamos bastante sobre futebol. Estavam em pleno campeonato europeu de seleções, muito confiantes no time e em Cristiano Ronaldo. Foi bonito ver as varandas enfeitadas, as bandeiras e cartazes. O primeiro susto veio quando o motorista disse que meu "hotel" (Residencial Monumental, com a entrada aí na foto) era na verdade uma pensão - o que de fato era, mas limpinha e com bom atendimento. Ali começaria um dia de Mr. Bean, com mil trapalhadas, mas com uma noite bastante agradável. Isso fica para uma próxima postagem.

domingo, 14 de novembro de 2010

Grandes enroladoras da Literatura Universal


O uso da astúcia para sobrepujar a força, embora não seja exercido somente por mulheres, tem nelas um especial desenvolvimento. Em tempos sem armas de fogo ou a lei "Maria da Penha" (com seus usos e abusos), estava ali a única posibilidade de sobrevivência de um sexo fisicamente mais delicado, embora mais resistente à dor e mais longevo. No imaginário popular, já que há dúvidas quanto à existência real de Homero, bem como a respeito da autoria das "Mil e uma Noites", duas grandes personagens se destacam por sua capacidade de enrolação: Penélope e Sherazade. A primeira, na obra "A Odisséia", aguarda seu esposo Ulisses voltar para Ítaca após a guerra de Tróia. Enquanto não tem notícias do esposo - se está vivo ou morto -, Penélope usa de um artifício para driblar seus pretendentes: diz que só escolherá um novo esposo após terminar um bordado, que ela tece durante o dia e desmancha em segredo durante a noite. Nisso se passam vários anos, até seu filho Telêmaco se tornar adulto, Ulisses retornar e acabar com a farra dos nobres que estão dilapidando seu patrimônio em festas e cobiçando sua mulher. Já a segunda resolveu acabar com um problema de extermínio de esposas de um sultão que, após ter sido traído por uma delas, passou a adotar o costume de matar as seguintes após a lua-de-mel. Para que isso parasse de ocorrer, passou a contar historinhas intermináveis, encaixando umas na moldura das outras durante a noite inteira e deixando um gostinho de quero mais para a noite seguinte. Assim, o sultão foi poupando sua vida até abrir mão completamente da idéia de matá-la. Aí me parecem estar os dois modelos básicos de enrolação: Penélope nunca pretendeu consumar a relação com seus pretendentes, amava outro homem e enrolava para manter a distância; Sherazade pretendia consumar a relação, mas entendia que o homem que a desejava ainda não estava pronto para ela, precisando ter a confiança de que ele estava em condições de lhe proporcionar a relação que ela queria, enrolando para permitir que ele se transformasse. Assim sendo, amigo leitor, ao ser mantido em banho-Maria por uma mulher, torça para ela ser do tipo Sherazade. Pelo menos você será poupado ao final da história.

sábado, 6 de novembro de 2010

Está de castigo: vá estudar!

Momento 1: li um e-mail engraçado ironizando o ensino, com uma prova de matemática voltada ao narcotráfico para que as crianças e adolescentes cariocas vejam graça em aprender. Momento 2: li recentemente o livro "O que Einstein disse ao seu cozinheiro- v. 2", que explica a culinária por meio da química. Momento 3. Uma das coisas que mais detesto na vida são engarrafamentos; hoje eu não consegui escapar de um deles devido ao ENEM, que serve pra ver se os estudantes aprenderam algo, devido ao - ou apesar do - nosso ensino. Colocando os três momentos em um liquidificador e peneirando, concluí que o nosso ensino não funciona porque está mal estruturado, uma vez que não satisfaz a curiosidade acerca dos fenômenos no contexto que lhes é próprio, mas parte de fundamentos abstratos e cansativos, como se todos fossem se tornar especialistas em tudo. Exemplificando:


a) o garoto vai aprender Biologia. Em lugar de ensinarem primeiro o que fazer e o que não fazer perto de um cão desconhecido (etologia), como não engravidar ninguém sem ter a intenção (reprodução), como lidar com uma hemorragia nasal, para depois deixar aquela parte de taxonomia, citologia, embriologia para os que decidirem se dedicar à Biologia ou às Ciências da Saúde, não: os educadores partem da idéia de que primeiro é preciso saber que as bactérias e algas cianofíceas pertencem ao reino Monera, que as mitocôndrias fazem a respiração celular e outras coisas que serão inúteis a quem não for do ramo.

b) A garota vai aprender Matemática. Certamente ela irá comprar a crédito no futuro, mas em lugar de lhe ensinarem a calcular juros simples e compostos, vão lhe ensinar logaritmos, números complexos, como inverter matrizes, calcular a área de uma elipse, enfim, coisas que só são úteis a engenheiros ou matemáticos.

c) O garoto vai aprender Química. Em vez de saber por que as maçãs apodrecem mais rápido fora da geladeira, por que razão não deve despejar água em óleo fervente, ou o que fazer em caso de incêndio (que é uma reação química, ao fim e ao cabo), não:  precisa decorar a tabela periódica e o número de Avogadro, ou distribuir hidrogênios em cadeias de carbono, como se obrigatoriamente fosse se tornar um especialista em análises químicas.

d) A garota vai aprender Física. Em vez de saber por que colocar o jato de ar quente apontado para baixo e o jato de ar frio apontado para cima, por que não acelerar na curva em uma estrada (força centrífuga) ou não frear de uma vez só quando a pista está molhada (atrito de escorregamento X atrito de rolamento), a pobre coitada terá que aprender fórmulas e interpretar gráficos que nada têm a ver com sua realidade.


O mesmo princípio se aplicaria à História, à Religião comparada, à Filosofia e aos idiomas. Parte-se daquilo que seria fundamental à formação de um especialista, matando os demais de tédio. Tirando aqueles estudantes que têm uma paciência de Jó e/ou uma educação do tipo militar, a maior parte da garotada vai se desligar do assunto, matar aula para namorar na pracinha ou puxar fumo, entrando em guerra com os pais na época dos exames, dando dinheiro a professores particulares e alimentando a indústria da fraude (venda de monografias, roubo de gabaritos, etc.). Penso que o acesso às ciências não deve se dar partindo de seus fundamentos rumo às suas descobertas. Isso é um equívoco do ponto de vista motivacional e pragmático. A maioria das pessoas vai precisar de conhecimentos aplicáveis ao cotidiano, necessitando de um estudo mais disciplinado e fundamentado apenas naquilo a que desejar se dedicar profissionalmente. Um vestibulando recém aprovado em Medicina, que saberá tudo sobre notocorda, tubo neural, número atômico, binômio de Newton, poderá ao mesmo tempo ser incapaz de corrigir o sal de uma feijoada, desatolar um automóvel ou decidir sobre a compra de um apartamento.

Partindo-se do prático e do concreto, além do esclarecimento precoce acerca da realidade do mundo do trabalho (visitas, palestras, oficinas, estágios), pode-se deixar o ensino vocacionado para o final, dividindo-o em cursos técnicos (profissionalizantes) e cursos preparatórios para quem visa o nível superior, já voltados para a área escolhida. Vou comprar briga com quem acha que adolescentes não estão capacitados a fazer escolhas para seu futuro: quem os deixa assim é o próprio ensino, que não mostra o mundo do trabalho e que os faz lidar com fragmentos de conhecimentos não aplicáveis, tampouco passíveis de síntese. Ou vocês leitores não-químicos já usaram o número de avogadro ou o balanceamento de equações químicas para alguma coisa depois do vestibular? Os não-biólogos, lembram para que serve a notocorda, ou que o tiflossole é uma dobra no intestino da minhoca? Por isso eu acho muita graça em um sketch do finado TV Pirata, em que dois velhinhos são surpreendidos por um assaltante, que lhes pergunta os afluentes do Amazonas pela margem esquerda e direita. Os velhinhos acertam todos e o assaltante vai embora frustrado. Aí o velhinho comenta: "Eu sabia que um dia isso ainda ia ser útil!"

 
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