sábado, 6 de novembro de 2010

Está de castigo: vá estudar!

Momento 1: li um e-mail engraçado ironizando o ensino, com uma prova de matemática voltada ao narcotráfico para que as crianças e adolescentes cariocas vejam graça em aprender. Momento 2: li recentemente o livro "O que Einstein disse ao seu cozinheiro- v. 2", que explica a culinária por meio da química. Momento 3. Uma das coisas que mais detesto na vida são engarrafamentos; hoje eu não consegui escapar de um deles devido ao ENEM, que serve pra ver se os estudantes aprenderam algo, devido ao - ou apesar do - nosso ensino. Colocando os três momentos em um liquidificador e peneirando, concluí que o nosso ensino não funciona porque está mal estruturado, uma vez que não satisfaz a curiosidade acerca dos fenômenos no contexto que lhes é próprio, mas parte de fundamentos abstratos e cansativos, como se todos fossem se tornar especialistas em tudo. Exemplificando:


a) o garoto vai aprender Biologia. Em lugar de ensinarem primeiro o que fazer e o que não fazer perto de um cão desconhecido (etologia), como não engravidar ninguém sem ter a intenção (reprodução), como lidar com uma hemorragia nasal, para depois deixar aquela parte de taxonomia, citologia, embriologia para os que decidirem se dedicar à Biologia ou às Ciências da Saúde, não: os educadores partem da idéia de que primeiro é preciso saber que as bactérias e algas cianofíceas pertencem ao reino Monera, que as mitocôndrias fazem a respiração celular e outras coisas que serão inúteis a quem não for do ramo.

b) A garota vai aprender Matemática. Certamente ela irá comprar a crédito no futuro, mas em lugar de lhe ensinarem a calcular juros simples e compostos, vão lhe ensinar logaritmos, números complexos, como inverter matrizes, calcular a área de uma elipse, enfim, coisas que só são úteis a engenheiros ou matemáticos.

c) O garoto vai aprender Química. Em vez de saber por que as maçãs apodrecem mais rápido fora da geladeira, por que razão não deve despejar água em óleo fervente, ou o que fazer em caso de incêndio (que é uma reação química, ao fim e ao cabo), não:  precisa decorar a tabela periódica e o número de Avogadro, ou distribuir hidrogênios em cadeias de carbono, como se obrigatoriamente fosse se tornar um especialista em análises químicas.

d) A garota vai aprender Física. Em vez de saber por que colocar o jato de ar quente apontado para baixo e o jato de ar frio apontado para cima, por que não acelerar na curva em uma estrada (força centrífuga) ou não frear de uma vez só quando a pista está molhada (atrito de escorregamento X atrito de rolamento), a pobre coitada terá que aprender fórmulas e interpretar gráficos que nada têm a ver com sua realidade.


O mesmo princípio se aplicaria à História, à Religião comparada, à Filosofia e aos idiomas. Parte-se daquilo que seria fundamental à formação de um especialista, matando os demais de tédio. Tirando aqueles estudantes que têm uma paciência de Jó e/ou uma educação do tipo militar, a maior parte da garotada vai se desligar do assunto, matar aula para namorar na pracinha ou puxar fumo, entrando em guerra com os pais na época dos exames, dando dinheiro a professores particulares e alimentando a indústria da fraude (venda de monografias, roubo de gabaritos, etc.). Penso que o acesso às ciências não deve se dar partindo de seus fundamentos rumo às suas descobertas. Isso é um equívoco do ponto de vista motivacional e pragmático. A maioria das pessoas vai precisar de conhecimentos aplicáveis ao cotidiano, necessitando de um estudo mais disciplinado e fundamentado apenas naquilo a que desejar se dedicar profissionalmente. Um vestibulando recém aprovado em Medicina, que saberá tudo sobre notocorda, tubo neural, número atômico, binômio de Newton, poderá ao mesmo tempo ser incapaz de corrigir o sal de uma feijoada, desatolar um automóvel ou decidir sobre a compra de um apartamento.

Partindo-se do prático e do concreto, além do esclarecimento precoce acerca da realidade do mundo do trabalho (visitas, palestras, oficinas, estágios), pode-se deixar o ensino vocacionado para o final, dividindo-o em cursos técnicos (profissionalizantes) e cursos preparatórios para quem visa o nível superior, já voltados para a área escolhida. Vou comprar briga com quem acha que adolescentes não estão capacitados a fazer escolhas para seu futuro: quem os deixa assim é o próprio ensino, que não mostra o mundo do trabalho e que os faz lidar com fragmentos de conhecimentos não aplicáveis, tampouco passíveis de síntese. Ou vocês leitores não-químicos já usaram o número de avogadro ou o balanceamento de equações químicas para alguma coisa depois do vestibular? Os não-biólogos, lembram para que serve a notocorda, ou que o tiflossole é uma dobra no intestino da minhoca? Por isso eu acho muita graça em um sketch do finado TV Pirata, em que dois velhinhos são surpreendidos por um assaltante, que lhes pergunta os afluentes do Amazonas pela margem esquerda e direita. Os velhinhos acertam todos e o assaltante vai embora frustrado. Aí o velhinho comenta: "Eu sabia que um dia isso ainda ia ser útil!"

8 comentários:

Mulher de Fases disse...

Paulo,
Mais um dos seus textos na medida...
Abços

Murilo disse...

Muito bom, professor.

Continue escrevendo!

Abraço

Ninguém envolvente disse...

Se tudo fusse assim tão simples e óbvio, eu não estaria no meu terceiro ano de tentantiva frustrada no vestibular... estou ai decorando as fórmulas, fazendo o enem e vendo o maldito numero avogadro que pelo menos decorei o 6,02x10^23..... Que não sei quando vou usar, mas é bom saber o numero de avogadro, porque é super comum né você estar na calçada e alguém te parar e perguntar "escuta, você sabe a constante de avogadro? é urgente, preciso saber e esqueci".........

abraços, ótimo texto!

Paulo César Nascimento disse...

Mulher de fases: obrigado!

Murilo: obrigado!

Ninguém Envolvente: dizem que quando a gente chega no portal do Céu, São Pedro pergunta o número de Avogadro e também o de Pi com quatro casas depois da vírgula. Antes, quem acertasse só um deles ia pro purgatório. Agora que o Papa mandou desativá-lo, quero ver como vão se arranjar.

ToTentandoLer disse...

Caramba!
Show de bola seu post. Aliás, show de bola o seu blog.
Superinteresantes os assustos tratados, fora o fato que você escreve muito bem.
Está de parabéns.

Ganhou um seguidor.
Abraços

denerosobrasil disse...

Mano, vou tentar fazer um link desse seu texto com o portal didático da minha disciplina de Psicologia Educacional para licenciandos de Física. Acho que vão gostar, mas talvez não concordar!A didática e as políticas educacionais recebem influência histórica e social longínquas...É sempre um bom começo se perguntar de onde vem o estado de coisas atuais.
Meu carinhoso abraço.

Paulo César Nascimento disse...

TôTentandoLer: Obrigado! Volte sempre! Abs

Dener: cara, há quanto tempo que não te vejo?! Coloque sim, esse pessoal é meio conservador, mas vale a provocação. Mande notícias! Abs

Anônimo disse...

Poxa, não tinha atentado para isso: no ambiente escolar, o ensino especializado é priorizado e parece uma ENTIDADE apartada da realidade.

É a TEORIA se sobrepondo à PRÁTICA! Ao contrário do que acontece na realidade, onde nos interessamos primeiramente pelas soluções práticas. Poderíamos deixar a TEORIA para os interessados e futuros profissionais.

Muito bom o texto. PARABÉNS !

 
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