domingo, 18 de dezembro de 2011

Venceu o futebol

Como brasileiro, torci pelo Santos, mas no fundo a vitória do Barcelona é melhor para o futebol. Fica provado que, com o devido investimento nas categorias de base, o planejamento de estratégias de marketing que permitam a manutenção do elenco e de uma filosofia de jogo baseada em aliar a boa técnica com a disciplina tática, pode-se criar uma equipe no verdadeiro sentido do termo: talentos individuais a serviço do coletivo. Vejo semelhanças entre o Barcelona de 2011 e outros conjuntos que conseguiram unir qualidade técnica e jogo coletivo: Ajax de 1972, Flamengo de 1981, Brasil de 1982 e, evidentemente, Espanha de 2010 (que é um Barcelona sem o Messi). Todos estes times tinham bom toque de bola, muita movimentação no meio e na frente, marcação por zona (diminuindo espaços). A Espanha e o Barcelona me cansam um pouco pelo modo de fazer “bobinho” até o adversário cansar e só então verticalizar o jogo, enquanto os demais conjuntos citados tinham um estilo mais verticalizado, visando a meta adversaria o tempo todo, deixando o bobinho pro momento de dar olé. Aqui no Brasil (ou talvez na América do Sul) é impossível criar equipes assim consistentes em função do modo como o futebol e administrado. Os dirigentes aqui são tacanhos e corruptos, em sua maioria, pensando assim: bons jogadores + titulo = vendas para a Europa (com algum dinheiro por fora) e desmonte do time. Assim as dívidas são cobertas e se parte para formar talentos individuais, comprar veteranos desvalorizados no mercado internacional, ganhar mais um título e vender os moleques para fazer caixa. Em grandes equipes europeias, como Barcelona, Real Madrid e Milan, o retorno do investimento está no marketing, na venda de produtos (camisetas, vídeos, etc), com a lógica: bons jogadores + título = boas vendas de produtos e mais dinheiro para investir em bons jogadores (formar e comprar). Se no Brasil a Nike e a Adidas não cobrassem um preço absurdo pelos seus produtos, os torcedores comprariam as camisetas oficiais em vez de ficarem nos produtos piratas, que costumam ser muito vagabundos. Porem, não é essa a mentalidade e, no fim das contas, será difícil um selecionado sul americano vencer novamente uma copa do mundo enquanto perdurar essa mentalidade de só investir no que dê resultados em curto prazo.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Futebolistas e navegadores


Vasco da Gama foi um grande navegador português, comandante dos primeiros navios que foram da Europa para a Índia. No fim da vida, foi governador da Índia portuguesa com o título de vice-rei. Em outras palavras, o Vasco da Gama é vice desde o início do século XVI, tradição mantida até os dias atuais.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

o melhor do pior e vice-versa


A diferença entre um otimista e um pessimista é simples:
- O otimista acha que tudo dá errado até que dê certo;
- O pessimista acha que tudo dá certo até que dê errado.
Os dois estão corretos.

domingo, 6 de novembro de 2011

Respostas tardias para buscas perdidas - VII

A vida é assim mesmo, as respostas chegam quando as perguntas já não interessam mais. Muita gente chega ao Soco no Figo na esperança de encontrar aquilo que o professor mandou, receitas de birita para estudantes pobres, o bafão que veio do bas-fond ou formas de aumentar a... auto-estima. É por isso que eu digo: voltem, leitores, porque aqui se responde tudo.
A maconha ataca os figos
Não, a maconha fica contemplando, rindo de tudo e comendo doces. Quem é bravo é o figo.
putas a deriva
Ou os ventos - de tão frescos - fugiram das putas, ou faltou um GPS.
big mac engrossar o penis
Olha, acho que você entendeu mal a proposta do "supersize me"...
boates conceição anal e oral
É, pelo visto lá na Conceição o pessoal não faz questão de que sejam mulheres a atender.
chifres malignos
Ocorrem quando o Príncipe das Trevas trai sua esposa Lilith.
formigueiros de formigas
São os melhores formigueiros; eu não procuraria um de cupins ou de abelhas, mesmo que tivesse desconto ou parcelassem no cartão.
te odeio no sentido conotativo
Ainda bem, porque se fosse no denotativo, não haveria margem a dúvidas.
Uso indevido do instrutor dirigir bêbado
Faz parte do regulamento da auto-escola: não embebede seu instrutor antes de dirigir, nem dirija bêbado ao usar o instrutor. Aliás, se você se embebedar e usar o instrutor, sua família, a auto-escola e a esposa dele provavelmente não aprovarão o ocorrido.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Personagens Inesquecíveis: Jason Bourne

É difícil falar quem é Jason Bourne, até porque nem ele próprio sabe direito em função de uma amnésia. Mais difícil ainda porque há mais de três Jason Bourne: o da trilogia escrita por Robert Ludlum, o da trilogia filmada para cinema, o do filme para TV e as diversas sequências escritas por Eric Van Lustbader. Até agora eu li os três livros do Robert Ludlum, a primeira sequência do Lustbader e assisti aos três filmes. O Bourne original era um agente da CIA, recrutado para uma missão secreta: passar-se por assassino para ajudar na captura de Carlos, o Chacal. Porém, um acidente acontece e ele perde a memória, acaba sacando um dinheirão da CIA sem saber e a rapazeada pensa que ele virou a casaca. Ninguém gosta de ser roubado e ele passa o primeiro livro tentando descobrir quem é,  desfazer o mal entendido com a CIA e em um jogo de gato e rato com Carlos. É pena que tanto o Ludlum quanto os demais escritores e roteiristas não tenham feito uma pesquisa séria sobre amnésia, pois a forma como ele esquece / recupera as lembranças não bate muito com o problema que ele teve (dano neurológico em função do acidente). Está certo que nem todos os leitores entendem de neurociências, mas não custa pesquisar antes de escrever. Nos livros de Ludlum a esposa de Bourne – Marie St. Jacques – é crucial para que ele saia das enrascadas. O tempo inteiro ocorrem traições, imprevistos e fracassos de todos na perseguição e Bourne, embora habilidoso, não é infalível ou um super-herói. No último livro da trilogia ele já é cinquentão, sofre com a perda da vitalidade, dos reflexos e fica meio inseguro de sua capacidade de enfrentamento. Soma-se a isso uma dualidade entre Jason Bourne (assassino frio) e David Webb (professor, marido e paizão) em uma espécie de transtorno dissociativo de identidade. Novamente a pesquisa psicológica foi capenga, pois neste transtorno as coisas não se dão como no livro. Parte da trama envolve o psiquiatra Mo Panov tentando dar estabilidade para David Webb para o caboclo Bourne não baixar. Em toda a trama, Bourne fica entre as sacanagens do governo e as dos inimigos externos (terroristas, governos inimigos, etc), e o forte de Ludlum é criar tensões com soluções parciais até o final do livro, o que, diga-se de passagem, é uma grande qualidade no gênero suspense / aventura. Porém, depois que Ludlum bateu as botas e Lustbader assumiu a ”franquia” Bourne, em lugar de continuar com o estilo original, o novo autor enquadrou Jason como um de seus heróis típicos (Nicholas Linnear, da sequência de livros sobre ninjas, Jake Maroc, de Coração Negro, etc., todos seguindo a mesma fórmula). Marie sai de cena para não atrapalhar e as dores e dúvidas de Jason desaparecem. Li o primeiro da sequência, chamado The Bourne Legacy, porém não pretendo ler os seguintes. Gosto do Lustbader, mas depois de ter lido outros textos dele as coisas ficam meio repetitivas e previsíveis. O Bourne do cinema teve que ser mais ação e menos drama de consciência. A Marie fica como coadjuvante e, com a retirada do Chacal, foi preciso condensar os perseguidores de Jason na ala corrupta da CIA, transformar o mentor e o psiquiatra de Jason em inimigos e fazer de conta que um grupo de agentes assassinos não era atividade padrão, com o aval do governo, mas um desvio de percurso. Nestes tempos, há que se elogiar terem mantido a trama assim, sem árabes perversos. Seria muito desagradável ver Bourne atrás de Sadam Hussein ou Osama Bin Laden. Não gosto muito quando misturam 4 de julho com 11 de setembro, fica muito Rambo pro meu gosto. Ainda assim, bateu a vontade de ver o Matt Damon interpretar um Jason Bourne mais próximo do de Ludlum, entre as décadas de 70 e 80. Pena que não vai rolar.

sábado, 15 de outubro de 2011

O fim do humor 2


Na foto acima, temos Idi Amin Dada e Mussum. O primeiro foi um ditador genocida em Uganda, responsável pela morte de muita gente, enquanto o segundo foi um humorista que alegrou a criançada no programa "Os Trapalhões". Existe alguma semelhança física, mas tudo para por aí, como você deve ter concluído. Pois é, hoje em dia é difícil o pessoal entender que um humorista, por mais escrotas que sejam suas piadas e por mais que lhe falte gosto ou noção, continua sendo apenas um humorista... Já falei aqui no blog a respeito do fim do humor e da lástima que está sendo o patrulhamento ideológico nos dias de hoje. O Gentilli fez uma piada engraçada sobre um grupo de judeus endinheirados e teve que pedir penico diante da histeria punitiva e do politicamente correto. O Rafinha Bastos fez um comentário sem graça sobre a formosura da Wanessa Camargo e vai levar um tranco feio porque não pediu arrego. Tristes tempos, estes em que o humor é vilanizado pela correção política. Vou aproveitar enquanto ainda é possível e fazer uma piadinha gráfica em uma montagem tosca.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Promoção de aniversário

Caríssimos leitores, quarta-feira foi meu aniversário, mas o presente é de vocês! Os primeiros cinco leitores que comentarem esta postagem receberão inteiramente grátis um exemplar autografado do meu livro "Enganos, meias-verdades e um final quase feliz". Os demais terão um desconto especial no exemplar autografado. Os comentários aqui no blog são moderados, portanto seu e-mail não será publicado e será utilizado exclusivamente para o contato referente à promoção.

domingo, 11 de setembro de 2011

Da tela para o papel

Tenho pensado em escrever roteiros. Há vários caminhos para isso e um deles vem de prestar atenção nos que são adaptados de livros. É muito complicado pegar um romance de quatrocentas páginas, com direito a tramas paralelas e momentos de acesso direto ao pensamento das personagens, e jogar em imagens e diálogos, restritos a menos de duas horas. Às vezes o resultado é feliz, como em "O nome da Rosa", outras nem tanto, como "O último portal", que estraga "O Clube Dumas" por não ter como sustentar a trama paralela entre os nove portais do reino das sombras e o clube dos manuscritos de Dumas. Não que o Johnny Depp tenha feito um mau Nicholas Corso, mas o final fica confuso. O melhor para não haver frustração, como sabem os leitores ávidos, é assistir ao filme antes da leitura. Li o primeiro livro da trilogia Bourne, escrito pelo Robert Ludlum. A história é bem diferente, mas nem teria como ser de outra forma: o Bourne original age na década de 70, em plena guerra fria, passando-se por assassino / terrorista para preparar uma armadilha para Carlos, O Chacal. O contexto histórico e a tecnologia são bastante distintos dos atuais. Por outro lado, o Bourne do livro não é tão auto-suficiente como o do filme, precisando da ajuda da Marie (sua namorada) e de outros, a fim de não morrer. A própria relação com a CIA é diferente, porque o eixo da perseguição não é a queima de arquivo, mas um jogo de gato e rato com o terrorista venezuelano. Terminei "Identidade Bourne" hoje e já estou passando para o próximo livro. Quando terminar, teremos uma nova postagem de "Personagens Inesquecíveis". Vai de brinde pra vocês a comparação entre o verdadeiro Ilich Ramirez Sanchez (Carlos, O Chacal) e seu correspondente cinematográfico. Como podem ver, na vida real não dá tempo para ser malvado e bonito.

domingo, 4 de setembro de 2011

Quem é vivo nem sempre aparece

Caros leitores: a vida anda meio corrida por aqui, mas o blog continua. Agosto foi um mês para promover mudanças, fazer consertos e passar trabalho. As ideias fervilharam, mas o tempo foi escasso. Agora as postagens serão retomadas. Abraços 

terça-feira, 26 de julho de 2011

Os seres subterrâneos de Floripa - parte 3

 O final dos anos 80 e a década de 90 trouxeram a Florianópolis algumas das mazelas das cidades grandes: aumento dos bolsões de miséria, expansão das favelas e do narcotráfico (mais consumidores e mais vendedores), aumento da violência urbana e a AIDS. O crescimento desorganizado da cidade forçou a busca de maior profissionalização na administração pública, embora sem resultados muito convincentes. Em busca de dividendos políticos e de atender os apelos dos comerciantes, lançaram-se campanhas para convencer os forasteiros de que “Florianópolis vale a pena”, que é a capital com maior qualidade de vida no país, etc. Resultado: mais expansão descontrolada, diminuindo a qualidade de vida e fazendo a cidade valer menos a pena. Nada contra o crescimento, muito pelo contrário, mas planejamento é bom e faz falta - principalmente quando bem feito. O aumento das favelas e a vinda da Rede Record de TV para o estado favoreceram o crescimento das igrejas evangélicas neopentecostais. Nessa década os computadores deixaram de ser coisa de nerd e passaram a integrar o dia-a-dia das pessoas, principiando pelos editores de texto e planilhas eletrônicas e culminando com a popularização da internet. Os jogadores de RPG passaram dos tabuleiros aos computadores, surgiram as salas de bate-papo e as relações começaram a se virtualizar. As grandes universidades particulares do norte e do sul do estado se expandiram e ampliaram a oferta de cursos superiores na Grande Florianópolis, inicialmente investindo nos cursos mais tradicionais, fortalecendo ainda mais o perfil de cidade universitária. Como investimentos voltados ao turismo e aos novos moradores, destacaram-se o Resort Costão do Santinho (91), o Beiramar Shopping (93) e o Centrosul (98). Houve uma grande – e desordenada, para variar - expansão da maricultura no final da década de noventa, levando à necessidade de estudo de um desenvolvimento sustentável desta atividade e da diminuição do impacto ambiental da mesma. Criaram-se para tanto a FUNRUMAR, a FENAOSTRA e a Cooperação técnica com o governo de La Rouchelle (França). O fim da censura, a urbanização e os meios de comunicação trouxeram mudanças nos costumes, principalmente a formação de tribos urbanas ainda incipientes e a maior liberalidade sexual. Não cheguei a pertencer a nenhuma das tribos, em parte por já ter saído da adolescência na época, em parte por não ser muito tribal mesmo, mas olhando de fora era curioso ver como punks, darks, metaleiros e rockabillies conviviam harmoniosamente no calçadão, perto da loja de discos/Cds Roots Records. Talvez as tribos se unissem -fato impensável nas cidades onde estes movimentos se originaram - por falta de quorum, talvez por falta de uma ideologia mais consistente em que apenas a aparência fosse copiada dos meios de comunicação. Como não fiz parte do(s) movimento(s), vou deixar a questão em aberto, pode ser puro preconceito ou equívoco de minha parte. Acompanhei bem menos a vida noturna da década de 90 do que a da precedente, em parte por ter passado três anos morando fora da cidade e a visitando ocasionalmente, em parte por ter passado os anos restantes trabalhando feito um condenado, com breves e raras incursões pela boemia. O que pude perceber a olho nu foi o desenvolvimento do Centrinho da Lagoa, do Kobrasol (é São José, mas é Grande Florianópolis), o deslocamento da prostituição de rua para as casas do ramo e a proliferação de bares para o público GLS, provavelmente devido ao marketing do carnaval da cidade e à saída em massa dos armários florianopolitanos. Ser underground na década de 90 podia significar muitas coisas, principalmente devido à globalização da economia e da informação. Valia quase tudo, de românticos comunistas pós-muro de Berlim a bruxinhas Wiccan pós-modernas.
Nem o bug do milênio, nem as profecias de Nostradamus, impediram-nos de chegar ao século XXI. O novo século trouxe as LAN Houses, os reality shows, as comunidades virtuais e a mega-popularização dos telefones móveis. O ensino superior teve uma oferta maior de cursos, com a criação de Faculdades a partir de escolas, empresas e fundações. O número de cursos superiores de Direito, Administração, Turismo e Hotelaria, multiplicou-se. Pela forte concorrência e retração da demanda, foi necessária a oferta de cursos diferenciados (Cinema, Design, etc.) a fim de assegurar a sobrevivência destes estabelecimentos de ensino. A Maricultura continuou seu crescimento, as empresas ligadas à tecnologia proliferaram, a TV por assinatura e a internet de banda larga chegaram para ficar. O acesso à informação (para os não-pobres) nunca foi tão grande e o problema passou a ser como selecionar, filtrar e criticar as informações disponíveis. O aumento da violência real e da insegurança fabricada pela parceria telecomunicações /empresas de segurança, assim como a invasão da privacidade via câmeras para nossa “segurança” – sorria, você está sendo filmado - ajudou a manter as pessoas em casa. Embora a proliferação de boatos pela internet, os crimes virtuais, e os problemas gerados pelo nosso jeito bisbilhoteiro de navegar em comunidades como o Orkut tenham devolvido alguns para o mundo não-virtual, é a crescente virtualidade das relações interpessoais e transações comerciais que marca o presente. No entanto, a ampliação das possibilidades de obter informações e de conhecer pessoas virtualmente teve o efeito de dificultar o estabelecimento de pontos de encontro reais (bares, lojas, etc.) que aglutinassem as pessoas com gostos e interesses underground. Em outubro de 2004, criei a comunidade “Gente Cult em Floripa”, renomeada depois para “Floripa Cultura” a fim de reunir pessoas voltadas para atividades artístico-culturais, divulgar eventos desta natureza na cidade, trocar idéias e fazer amizades. Apesar de contar hoje em dia com mais de 450 integrantes, as tentativas de reunião fora do ambiente virtual não têm encontrado muita receptividade por parte dos mesmos. Praticamente na mesma época foi criada a comunidade “Under Floripa” por Rafael Rubim, com uma proposta semelhante. Curiosamente, promover arte e cultura em Florianópolis acaba tendo um certo ar underground. Não que os meios de comunicação se recusem a promovê-las – meu livro de contos “Sutis Indecências e outros encantamentos” teve boa divulgação na TV COM, no Diário Catarinense, no jornal A Notícia e na rádio CBN Diário ao ser lançado, em 2003. O que me parece faltar ainda na cidade é o intercâmbio, a troca de experiências e a criação de um volume de produção que leve a um incremento de qualidade. Em uma época que as livrarias se concentram em best-sellers (auto-ajuda, Dan Brown, Paulo Coelho), as salas de cinema exibem principalmente filmes de Hollywood, bate uma saudade da Livraria Lunardelli dos anos oitenta, do Cine Art 7, do som do bar Lugar-comum e outros pontos que as leis do mercado acabaram por estrangular. Não tenho muita clareza sobre o que significa ser underground em Floripa no século XXI , mas espero que permita oferecer uma resistência às tentativas de massificação e imbecilização a que somos diariamente submetidos.  

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Os seres subterrâneos de Floripa - parte 2

 Ao final da década de 70, já havia duas pontes ligando a ilha ao continente. Havia TV pública com apenas duas opções: TV Coligadas, que, com um mínimo de programação local, retransmitia a programação da Rede Globo; TV Eldorado, que retransmitia a programação da TV Bandeirantes. Em 1979, chegou ao estado o grupo RBS, substituindo a TV Coligadas e rapidamente se expandindo pelo estado. O comércio estava concentrado no bairro Centro e – se não me falha a memória - fechava no horário de almoço. Havia dois ou três cinemas na cidade (lembro do Cine São José e do Cine Ritz), o campo do Avaí ficava onde hoje está o Beiramar Shopping. Algumas mudanças haviam ocorrido recentemente, como o aterramento da Baía Norte e da Baía Sul e a inauguração do calçadão da Felipe Schmidt. No futebol, além da divisão entre Avaí e Figueirense, muitos ilhéus torciam também para times de centros maiores, principalmente Vasco e Flamengo, uma vez que os times catarinenses não iam longe no campeonato nacional - descontando-se uma razoável participação do Figueirense de Balduíno em 1975 (21o lugar). Como pré-adolescente, não circulava pela noite da cidade, nem prestava atenção em questões econômicas, políticas ou sociais. Percebia, no entanto, que era necessário torcer por um time local e aprender “Manezês” para não ser discriminado na escola. A relação dos ilhéus com os forasteiros sempre foi ambivalente: amor, devido à admiração que sentiam/sentem pelo lado mais cosmopolita dos que vêm de centros maiores; ódio pela ameaça que representam aos seus empregos e costumes. Apesar disso, tanto a cordialidade típica do povo daqui (excluindo-se a pretensa “elite”), quanto os interesses nas atividades comerciais e no turismo, fazem com que prevaleça o lado amoroso. Isso, claro, desde que não se tratem os ilhéus com desrespeito e desdém, quando estão certíssimos em dizer: “se não gosta, vá embora!” De underground, lembro apenas dos Hippies na Praça XV - dos legítimos, com direito a viver de artesanato, a roupas furadas, pouco banho e amor livre.
A década de 80, marcada pela abertura política e redemocratização do país, abriu novamente espaço para os artistas brasileiros no cenário cultural da nação. Ainda tínhamos (ou temos) uma grande importação de enlatados americanos para TV e as rádios continuavam a tocar música estrangeira em sua programação, mas havia uma revitalização da produção, com surgimento de bandas como Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial, Legião Urbana, entre outras. A MPB também voltou à cena, com o surgimento/ressurgimento de artistas e conjuntos como Guilherme Arantes, Osvaldo Montenegro, Boca Livre, 14 Bis, A Cor do Som, entre outros. A fundação do Centro Integrado de Cultura (CIC), em 1982, possibilitou a criação/ampliação de possibilidades de desenvolvimento artístico-cultural, com oficinas de artes, museu, teatro e uma sala de cinema com programação diferenciada. Ampliava-se o acesso à produção cinematográfica européia e asiática, bem como aos espetáculos musicais e teatrais brasileiros. Embora houvesse a queixa de que muitos espetáculos “sobrevoavam” Floripa, indo direto de Curitiba a Porto Alegre, assisti a muita coisa boa naqueles tempos. A presença da RBS, assim como a criação da Rede Barriga Verde e do Sistema Brasileiro de Telecomunicações (SBT) trouxe mais profissionalismo para as comunicações. A concorrência, assim como uma pequena ampliação da programação local, facilitou o acesso à informação, embora a programação não fosse lá uma maravilha. Embora os aparelhos de videocassete já existissem no exterior, foi na década de 80 que se popularizaram no Brasil, o que implicou no surgimento de locadoras de vídeo e na possibilidade de escolher os filmes a assistir em casa, muitos dos quais não eram exibidos nos cinemas da cidade ou nos canais de televisão. A cidade apresentava um perfil de pólo administrativo e educacional do estado, além de sua natural vocação turística. Também eram dados os primeiros passos para o desenvolvimento de empresas ligadas à tecnologia, com a criação do Centro para Laboração de Tecnologias Avançadas (CELTA), uma incubadora tecnológica mantida peal Fundação CERTI. Chamava-me a atenção a enorme procura dos cursos de Administração e Direito pelos florianopolitanos de classe média e classe média-alta, visando o ingresso no serviço público ou a continuidade dos escritórios dos pais (herdados dos avós). Já a “classe” alta (de seis a doze pessoas, pelas minhas contas) ficava onde sempre esteve, herdando e administrando negócios de família. Na falta de uma classe com poder aquisitivo efetivamente alto, uma parte da classe média-alta tentava mimetizar a classe alta de outros lugares. Isso, claro, a custa de sacrifícios em nome das aparências cultivadas nas colunas sociais. Já a classe média-baixa era constituída basicamente de comerciários simpáticos, afáveis e ainda bastante amadores. A classe de baixo poder aquisitivo era formada principalmente por filhos mal-sucedidos de pescadores e migrantes do oeste do estado, estes últimos vindo ao final da década de 80 em busca de empregos na construção civil. Devido a aspectos cambiais, os turistas argentinos tomaram conta da ilha nos verões do início da década, forçando os comerciários a aprenderem espanhol – ou no mínimo um portunhol. Empresários locais e de fora, percebendo as possibilidades econômicas do turismo, ampliaram os investimentos na cidade, destacando-se Jurerê Internacional e o Shopping Itaguaçu. As mudanças na situação econômica argentina obrigaram os empresários a tentar atrair turistas de outros locais, os quais acabavam se fixando na cidade em busca de qualidade de vida. Da metade da década de 80 em diante, aumentou também a procura por vagas na UFSC por parte de pessoas de outros estados. Destacavam-se os temíveis “CDF japoneses” (vindos de São Paulo e do Paraná), que além de conquistarem as vagas do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, passavam a “atacar” também os cursos de Medicina, Odontologia, Engenharia, Agronomia e Ciências da Computação. O mercado para cursinhos pré-vestibulares se ampliou, levando a cisões nos cursinhos Barddal e Barriga Verde, formando-se então os cursinhos Geração e Energia, os quais se expandiram rapidamente e passaram a disputar o mercado do ensino médio com as escolas mais tradicionais de Florianópolis. Até a metade da década de 80 a vida noturna da cidade tinha como pólo principal a Av. Beira-mar Norte, com grande concentração de bares e casas noturnas (Chaplin, Yellows, Chico’s, Vagão, Shampoo, Baturité, Dizzy, etc.). Progressivamente, este pólo foi se deslocando para os bares da Lagoa da Conceição e arredores (Jungle, Ponto de Vista, Bar do Érico, etc.). Além disso, havia os bailes nos clubes sociais e estabelecimentos mais do povão (Clube Avante, Sociedade Amigos da Lagoa, Bailão do Albino, etc.). Underground nos anos 80 poderia significar ser alternativo e morar na Lagoa, ser um estudante ou professor de esquerda, ser GLS ou, como no meu caso, não pertencer a nenhum destes grupos e estar insatisfeito com as tendências majoritárias da cidade.

domingo, 24 de julho de 2011

Os seres subterrâneos de Floripa - parte 1

Este texto foi publicado no site Under Floripa no início do século, mas conserva um valor de memória. Por sugestão de amigos, torno a publicá-lo.

 Você sabe o que é ser “under” em Floripa? Eu não sei ao certo, mas tenho uma leve desconfiança de que o sou. Por que isso acontece? É que ser underground em Florianópolis não é o mesmo que em outros lugares do mundo, ou mesmo do nosso país. Este texto parte de um passeio por minhas lembranças e reflexões sobre estar à margem de Florianópolis - a sensação de estar dentro da cidade, mas a recíproca não ser assim tão verdadeira. Está longe de ser um ensaio histórico, sociológico, antropológico ou psicológico, apesar de algumas breves incursões nestas áreas.
O termo underground (subterrâneo) já foi empregado de diferentes formas ao longo dos tempos. Na União Soviética pós-stalinista, a literatura samizdat (auto-publicada) – crítica com relação ao governo – foi um movimento underground. O mesmo se pode dizer das diversas formas de resistência política, sejam a sul-africana ao Apartheid, a polonesa ao Nazismo ou o coreano Movimento 1o de Março. Os grupos terroristas da Irlanda, basco e os islâmicos, haja vista sua ação clandestina, também podem ser considerados movimentos subterrâneos. Da mesma forma, a classificação vale para o crime organizado: Máfia, Yakuza, Tríades chinesas e tantas outras organizações. Além da resistência política, a resistência cultural – seja ela à tradição, à cultura pop, aos padrões estéticos e à moralidade dominante, ou ainda ao consumismo – também se enquadra no conceito de underground. Servem como exemplos o movimento beat, a contracultura, punks, góticos, vegans, emos, todos os herdeiros da contestação e também os rebeldes sem causa. Em síntese, tudo o que foge à ordem estabelecida, à cultura hegemônica, ao que transcorre às claras, pode ser dito subterrâneo.
Para conhecer os subterrâneos de Floripa, no entanto, é preciso estar familiarizado com a superfície. O desenvolvimento de Florianópolis – ao meu ver - deu-se através de saltos associados ao fluxo de correntes migratórias, da tensão entre os costumes vigentes e os hábitos trazidos pelos recém-chegados, assim como dos fenômenos sócio-econômicos envolvidos. Ao contrário do que pensam os entusiastas do movimento “Fora, Haole!”, os únicos nativos de fato em Floripa eram os índios tupi-guaranis. Assim sendo, a menos que você use pinturas corporais, more em uma oca e atire flechas, um ancestral seu veio de São Paulo, do Rio Grande do Sul, do Paraná, da Argentina... E os ancestrais de seus ancestrais vieram da Ilha dos Açores, da Espanha, da Itália, da Alemanha, do Japão ou de qualquer outro ponto do planeta. Vou falar sobre a história da cidade para assinalar alguns marcos na urbanização, pois a tensão entre aspectos provincianos e cosmopolitas me parece fundamental para se entender o que é under em Floripa. A povoação de Nossa Senhora do Desterro – primeiro nome da cidade - iniciou-se com a vinda de Francisco Dias Velho por volta de 1675, seguido de paulistas e vicentistas. A partir de 1739, quando foram erigidas as fortalezas, deu-se a ocupação mais efetiva da ilha, com a vinda de Açorianos e Madeirenses. Em 1823, ao ser declarada capital da Província de Santa Catarina, a cidade recebeu investimentos federais e passou por um período de desenvolvimento e prosperidade. Com a proclamação da República, o Marechal Floriano Peixoto veio esmagar as resistências ao novo governo, torturando e matando muitos na chamada Chacina de Anhatomirim. Após este lamentável acontecimento, o nome da cidade foi modificado para Florianópolis, homenageando o referido militar. Já se tentou modificar o nome da cidade, voltando a “Desterro”, mas os comerciantes não simpatizaram muito com a idéia: a “marca” já estava criada e quem entende de marketing sabe o quanto custa recuperar os clientes – no caso, turistas. No entanto, pelos motivos já apontados, o nome não é muito simpático aos manezinhos. Saltando um pouco no tempo, em 1979, quando resolveu homenagear o Marechal Floriano com uma placa, o presidente Figueiredo enfrentou manifestações de estudantes, que apedrejaram o palácio do governo, arrancaram a placa e a queimaram em praça pública. Homem de temperamento forte, o presidente resolveu enfrentar pessoalmente os estudantes... E apanhou! Teria sido a “Novembrada” um momento underground de Floripa (ou de Desterro)? Retornando no tempo, temos um ponto importante na vida cultural da cidade: a fundação do Teatro Santa Isabel em 1875, que teria seu nome trocado para Teatro Álvaro de Carvalho (TAC) em 1894 em homenagem ao primeiro dramaturgo catarinense. O século XX marcou as transformações mais profundas em Florianópolis associadas à construção civil, com progressos na rede elétrica, no saneamento e outros aspectos da infra-estrutura da cidade. A construção da. Ponte Hercílio Luz, em 1926, facilitou o acesso à ilha, liberando os moradores do precário serviço de balsas. A vocação de cidade universitária deu seus primeiros passos em 1932, com a criação da faculdade de Direito, prosseguindo com a criação da Universidade Federal de Santa Catarina em 1960 e culminando hoje em uma grande quantidade de instituições de ensino superior, entre universidades, centros de ensino superior e faculdades. Este processo trouxe professores de outros estados, principalmente do Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, que aqui se instalaram com suas famílias, contribuindo para a descentralização da cidade e o desenvolvimento de bairros como a Trindade e o Pantanal. Quanto ao serviço público, além de manter a administração pública estadual, em meados da década de 70 a vinda das Centrais Elétricas do Sul do Brasil (ELETROSUL) trouxe outros grupos de migrantes: cariocas, mineiros, gaúchos, cearenses, entre outros, acostumados à vida na antiga sede – Rio de Janeiro. Até aqui me vali de dados históricos obtidos na internet em fontes como IPUF, Wikipedia, Guia Floripa; passo a seguir a me valer principalmente das minhas memórias – falhas, parciais, às vezes preconceituosas, tipicamente de classe média, porém minhas.

domingo, 17 de julho de 2011

O Maracanazo argentino

A profissão mais livre do mundo é a de comentarista de futebol. Pode-se dizer qualquer besteira, desde que se crucifique a bola da vez. Na verdade, pode-se jogar / dirigir /comentar futebol sem ter a menor visão estratégica em função da máxima de que, em terra de cego, ninguém sabe se o rei tem um olho ou não. Ontem a Argentina jogou uma grande partida contra um Uruguai que fez um jogo ainda melhor. Um honroso empate em 1 X 1, com muita garra de ambas as partes. Porém, copa é mata-mata, alguém tem que perder. O Uruguai foi mais competente nos pênaltis e passou adiante. Sempre que a Argentina perde eu gosto de dar uma passadinha na página do Olé, o periódico desportivo mais conhecido dos hermanos. Dito e feito: estavam achincalhando a seleção e crucificando Tevez pelo pênalti perdido. Os argentinos produzem melhor literatura e cinema do que os nossos, mas a crônica esportiva é do mesmo amadorismo e passionalidade que o tupiniquim. Está certo que faz muito tempo que a Argentina não ganha nada com o time principal e que a única graça de título olímpico é a de ser o único que o Brasil não tem - o que vale nas alfinetadas de lá e de cá -; entendo que perder em casa é sempre mais sofrido; o problema é que o futebol contemporâneo não tem produzido jogadores justamente no setor mais importante para que o time tenha volume de jogo: a armação. Esse jogo covarde para não perder, com dois ou três volantes, faz com que as reais oportunidades de gol se reduzam. Quem for pesquisar no youtube os jogos da seleção de 82 verá no mínimo dez oportunidades reais de gol para o Brasil em cada partida; atualmente surgem umas três ou quatro. Sendo assim, uma bola na trave, um impedimento marcado de forma equivocada ou uma falta nas imediações da área mudam totalmente a perspectiva de uma partida. Não há mais como recuperar resultados nesse jogo truncado no meio de campo por quatro ou cinco cabeças de bagre... perdão, cabeças de área (termo antigo para volante, do tempo que bastava um). A solução? Incentivar as escolinhas a investirem em novos Riquelmes e Veróns. Os próprios Aguero e Tevez não têm altura para jogar no ataque e desde cedo deveriam ter sido incentivados a armar. Porém, o dinheiro está nos gols e a molecada talentosa, tendo perfil ou não, acaba escolhendo os holofotes. Já a molecada sem talento com a bola, vira volante ou comentarista esportivo. 

sábado, 2 de julho de 2011

Respostas tardias para buscas perdidas - VI

Caríssimos, ando meio ocupado, mas acreditem: o texto tarda, mas não falha. A proporção de pessoas que chegam ao meu blog buscando temas já explorados vem aumentando. Mesmo assim, ainda há vários casos de pessoas que dão com os burros n´água. É para estes leitores angustiados e suas buscas inspiradas que retomo a coluna "respostas tardias para buscas perdidas".

- garrafa cheio de agora e bom para da murro
Se você está descontente com o presente, não tente engarrafá-lo para descarregar sua raiva. É preferível reunir forças e recursos para buscar um futuro melhor.

- molheris pacotao
Seu latim precisa melhorar. Bolsa de mulher é "mulieris sacculus"

- anal ve oral pornolar
Ah, o saudoso jingle da pornolar: "Quer ver anal não machucar, quer ver oral sem engasgar? Móveis eróticos da pornolar!" Infelizmente a loja fechou ano passado.

- beber 1 litro de vodka faz mal
Depende do tempo que você levar. Se for um ano, não chega a fazer mal. No mesmo dia já fica complicado.

- mamada no genro do jebão porno gratis
É, decididamente há sogras e sogras... e sogros também.

- parei na via rápida liguei o pisca alerta para entrar na minha casa bateram no meu carro
Não é só o carro que você para abruptamente... e o final da história? Quem pagou o conserto?

- técnica oriental para aumentar o penes
Amigo, com tantas técnicas disponíveis no mercado você vai escolher logo uma oriental? Se os estereótipos estiverem corretos, melhor escolher uma técnica africana.

- Xuxa abusa de criança de 41 anos
Caro amigo de 41 anos, acho que você está meio velho para esta fantasia...

domingo, 19 de junho de 2011

Desaforismo nº1

Como era doce a lembrança 
Do que nunca se passou 
O sarcasmo é a esperança 
Que o tempo avinagrou

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Divagação nº 2

O poeta é cafetão
De mil versos prostitutos
Que vendem o coração

sábado, 28 de maio de 2011

Comentários tardios para notícias ultrapassadas - II

Dominique Strauss-Kahn (DSK) seria provavelmente o novo manda-chuva da França, segundo as pesquisas eleitorais. Era sabidamente mulherengo, tendo fama de sedutor. Houve tempos, quando professor, em que a mulherada o assediava. Porém, todo mundo fica velho um dia  e, consequentemente, menos atraente como parceiro sexual. O Olacyr de Moraes já declarou que sabe que a mulherada gosta mesmo é do dinheiro dele e não de sua performance sexual. DSK não parece ser menos inteligente que o Olacyr, embora igualmente namorador. Só que, segundo dizem, já perdeu a noção da hora de parar de tentar seduzir, tornando-se inconveniente com jornalistas jovens e/ou belas. Isso, caso seja verdadeiro, torna-o apenas babão e chato, a menos que ele ameace tirar seu emprego, jogar ácido no seu rosto, matá-la, enfim, fazer-lhe mal em caso de recusa. Porém, ele é um homem branco europeu e poderoso, um ícone, representando o poder político e econômico, o bicho-papão que assombra os pesadelos das minorias oprimidas. Exceto pelo DSK e pela camareira, ninguém tem certeza do que houve no quarto do hotel onde alegadamente ocorreu um estupro. Todos nós podemos no máximo especular a partir das versões fornecidas pela imprensa. Aí vão as minhas especulações e minha teoria conspiratória:

- Se você fosse um estuprador, escolheria a boca como alvo preferencial? Ela tem dentes e força de mordedura de 55 kg. Mesmo com uma arma na garganta ou na têmpora, o risco da estuprada arrancar um pedaço do bilau do tarado não é nada desprezível.

- Se você fosse um dos sujeitos mais poderosos do mundo, escolheria ficar hospedado em um andar de hotel sem câmeras de segurança? Só se pretendesse receber em seu quarto alguém que sua mulher, seus compatriotas ou o mundo inteiro não pudessem saber, concorda? Se o DSK, em suas viagens, costumasse receber a companhia daquelas mocinhas cuja profissão é "acompanhar", não ficaria bem que fossem filmadas entrando no quarto dele. Se isso era costume do DSK, certamente era do conhecimento dos serviços de inteligência de vários países. Você, leitor, pode pular a cerca sem que muita gente saiba. O presidente do FMI e possível futuro presidente da França, não.

- Você já foi surpreendido nu ou de toalha pela camareira de um hotel em que esteve hospedado? Eu nunca fui, mesmo ficando em hotéis mais modestos. Geralmente elas se comunicam com a portaria e/ou batem na porta antes de entrar. A diária do Sofitel não sai por menos de 800 dólares e, segundo a imprensa, a política de hotéis de grande porte é de que as camareiras andem em duplas para evitar encrenca (acusações de furto, etc). A do DSK estava sozinha.

- A camareira é uma imigrante da Guiné, negra, muçulmana, na faixa de uns 30 anos, com uma filha de quinze. Provavelmente prefere uma passagem para o inferno a ter que voltar para o seu país de origem. Lá eles praticam excisão de clitóris e as demais barbaridades que a Ayaan Hirsi Ali já denunciou no livro "Infiel" (que se refere à Somália, mas que não é tão diferente nesse ponto). Vocês sabem como é fácil a vida de imigrante nos EUA, não sabem?

- O Sarkozy e o Obama se entendem muito bem. Depois da morte do Bin Laden, Obama será reeleito. Sarkozy estava atrás do DSK nas pesquisas para as próximas eleições presidenciais.

- DSK era uma peça fundamental na negociação de auxílio do FMI à Grécia e Portugal e, consequentemente, para a estabilidade econômica dos países do sul da Europa, do Euro, etc.

Minha teoria conspiratória: EUA querem desestabilizar DSK, sabem que ele é mulherengo, conhecem seus hábitos. Uma das agências governamentais pega uma imigrante, vulnerável, ameaça mandá-la de volta à Guiné com uma mão na frente e outra atrás, paga para que ela faça sexo oral consentido com ele e o denuncie por estupro. Cria-se um escândalo sexual que derruba a candidatura presidencial de DSK e o tira da cabeça do FMI. Como o suposto estupro seria tomado como um ícone na luta das minorias oprimidas contra as maiorias que abusam de seu poder impunemente, haveria no mínimo uma parcela da opinião pública convencida de sua culpa antes do julgamento. 

domingo, 15 de maio de 2011

Comentários tardios para notícias ultrapassadas

Faz tempo que eu não posto, paradoxalmente por estar escrevendo muita coisa para concursos literários. Muitos deles exigem que os textos sejam inéditos, então só serão postados após o resultado. Nesse meio tempo, tive muitas ideias para textos que acabaram datadas, uma vez que se referiam às manchetes recentes. Assim sendo, aí vão os comentários tardios para notícias ultrapassadas.

Bin Laden: é muita coincidência matarem o Osama justamente quando o Obama estava em baixa nas pesquisas de opinião. O corpo dele foi enterrado ao lado de Elisa Samudio, pelo visto. Esse papo de "aconteceu, tenho as provas, mas não posso mostrar" é a mesma coisa que aquele papinho de "minha webcam quebrou" ou "professora, meu cachorro comeu meu dever de casa". Quer dizer, esse último exemplo, no caso do Bola, até pode ser verdade. Cá para nós, eu acho que o Osama estava bem mortinho há anos, mas como ele era um ícone, nem os EUA nem a Al Qaeda tinham interesse em divulgar.

Casamento real: eu não assisti, mas já tem um bom tempo que os casamentos da realeza perderam sua função política. Esse aspecto de aliança entre reinos ou de junção entre a realeza e as igrejas já foi muito importante, mas hoje em dia essas coisas só servem para vender revista. Tanto é assim que o grande aspecto a se analisar na mídia foi quem tinha o chapéu mais ridículo. É por isso que a única realeza que me interessa hoje em dia é a do baralho. "God shave the queen!"

Eliminações de Palmeiras, Flamengo e São Paulo: já faz tempo que a nata do futebol brasileiro vai para o exterior e que camisa não ganha mais jogo. Tirando o Valdívia, o Thiago Neves e o Lucas, não há nestas equipes jogadores significativamente superiores aos que jogam em equipes de médio porte. Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Marcão nos deram uma copa do mundo quando tinham boas condições físicas, mas o tempo é cruel e existe hora para pendurar as chuteiras. Esse papo de que o Rivaldo foi humilhado por ficar no banco nada mais é do que tapar o sol com a peneira, quem foi humilhado foi o Marcos, que entrou em um jogo importante sem ter ritmo e levou seis gols. O bom da Copa do Brasil é justamente isso: por ser na forma de mata-mata, a garra conta mais do que a empáfia.

sábado, 30 de abril de 2011

Cadernos de viagem: chegando ao Porto

Após a frustração do episódio "Mr. Bean em Lisboa", encenado por mim, comi um pastel de Belém na Estação Ferroviária de Santa Apolónia. Porém, segundo os especialistas, o de Belém mesmo é imbatível. Comprei um cartão telefônico e custei a entender a lógica da coisa, com muitas senhas para digitar, até que, após muitas tentativas e erros, consegui ligar para meus familiares. Fiz um lanche rápido para não enjoar no trem (comboio, para eles). Um dos truques para evitar os enjôos foi fixar o olhar na paisagem distante. Olhar para o que estava perto devolveria a sandes de chourição, o sumo de laranja e o pastel de Belém para o solo português - ou pior, para o colo da portuguesa que estava viajando ao meu lado. Achei que, à medida que nos aproximávamos do Porto, as mulheres iam ficando mais bonitas. Os especialistas (outros) dizem que não há diferenças significativas e isso foi obra do acaso ou do dia da semana. Gostei muito da paisagem tranquila, com casinhas de dois andares, quase todas com a bandeira portuguesa em razão da Euro 2008. A estação ferroviária em que desci (São Bento) era belíssima, com pinturas em azulejo, e o motorista de táxi que me conduziu ao hotel foi extremamente antipático. Isso é engraçado, em Portugal os extremos de simpatia e antipatia são mais comuns do que os casos intermediários. Para ilustrar as diferenças de comunicação, quando perguntei ao motorista se era fácil encontrar um moedeiro como o dele, a resposta foi "Não." Bateu a porta do táxi e saiu. Talvez seja culpa desse jeito brasileiro de perguntar indiretamente. Da próxima vez eu perguntarei com todas as letras "Onde se pode comprar um moedeiro equivalente ao seu?", porque se perguntar "Onde posso comprar esse moedeiro?", ele responderá "Em lugar nenhum, pois não estou a vender". Cheguei ao Hotel Malaposta ao final da tarde, peguei os mapas e informações, assisti ao jogo de Portugal na TV e saí para jantar ali perto. Recebi então o outro extremo, um tratamento bastante cordial do dono do pequeno restaurante onde comi "Tripas à moda do Porto" com meia garrafa de vinho do Alentejo. As tripas estavam ótimas, o que eu não sabia é que já tinha provado esse prato no Brasil com outro nome. O vinho estava mediano e o ponto alto mesmo foi a sobremesa: Neve do Céu. Uma coisa deve ser dita: os portugueses sabem fazer doces gostosos! Voltei para o hotel e na TV aberta as opções eram noticiários portugueses, novelas brasileiras ou enlatados americanos. O Antônio Fagundes que me perdoe, mas fiquei com o noticiário. O plano para o dia seguinte foi traçado: um passeio no autocarro turístico, com todo o cuidado do mundo para não perder o bilhete novamente, com paradas nas Igrejas de São Francisco e Santa Clara e, se possível, uma passada em uma das vinícolas em Vila Nova de Gaia, onde é fabricado o vinho que leva o nome da cidade vizinha. A febre passou e no dia seguinte a dor de garganta desceria para o joelho, mas isso já é uma outra narrativa.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Pegaram Tiradentes para Cristo

Tiradentes e Jesus, nas versões míticas que a eles sobreviveram, têm muito em comum. Isso se deve ao fato de certos grupos institucionalizados gostarem de nos fazer de bobos. Tiradentes foi um pobre coitado que se meteu com uma turminha da oligarquia mineira, cansada de pagar impostos à coroa portuguesa. Como militar, não devia usar barba ou cabelos compridos. Mesmo se usasse, provavelmente os teria raspados ao ser preso. Peixe pequeno, foi quem serviu de exemplo para quem ousasse fazer o mesmo, sofrendo uma morte indigna e tendo seu cadáver profanado pelo ultraje de um esquartejamento. A maioria dos outros conspiradores, mais bem nascidos, sofreu apenas o exílio. O Jesus histórico, por sua vez, era provavelmente um profeta judeu que encheu muito a paciência dos manda-chuvas do templo, sendo entregue aos romanos como um agitador político. Duvido muito que tenha sido loiro de olhos azuis e certamente não foi pregado na cruz pelas palmas das mãos, mas sim pelos pulsos, do contrário a carne se rasgaria e ele despencaria lá do alto. Morreu uma morte banal, comum aos criminosos da época e, não fora o fato da versão dos Padres da Igreja prevalecer sobre as versões gnósticas, seria apenas mais um exemplo da crueldade humana. Porém, matar um deus - e ainda por cima o Deus único - é muito mais grave e serviu de pretexto para que judeus fossem perseguidos durante muito tempo. Curiosamente, esperava-se de Jesus que fosse um líder político (nos estudos sobre o tema há variações entre ter sido um rebelde zelote ou um terapeuta essênio), como supostamente Tiradentes haveria sido. Até a versão do nascimento em Belém e da fuga para o Egito tenta dar um jeitinho no inconveniente de ter provavelmente nascido em Nazaré, uma vez que o Messias, pelo que diziam os profetas, deveria vir de Belém. Tiradentes e Jesus morreram porque é isso que ocorre aos que criam inconvenientes aos poderosos. Mesmo não acreditando em um décimo das mentiras inventadas a respeito de ambos, simpatizo com os ideais cristãos e republicanos. Isso sem falar nos feriados...

terça-feira, 12 de abril de 2011

De volta ao Universo Paralelo II

Banheiros públicos são famosos pelas inscrições nas portas dos reservados: de quadrinhas bem humoradas a telefones para programas, passando por desenhos fálicos, o impulso milenar de deixar inscrições encontra formas de expressão típicas. Porém, o inusitado nos acompanha até na casinha. Em certo restaurante de beira de estrada, em lugar das habituais inscrições, um sujeito não identificado deixou inscritas blasfêmias utilizando diversos nomes (atributos) da divindade em hebraico, as quais encontrei em uma incursão por motivo de força maior.  Pensando bem, pode ser a prova da existência do Judeu Errante, da lenda: Ahasverus passou por Biguaçu. 

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Ambiguidades

Machado de Assis teve uma grande sacada ao deixar em aberto a situação entre Capitu e Bentinho. Entre hipóteses de traição e paranóia ainda despontou uma terceira vertente, a de que os reais ciúmes de Bentinho se referiam ao amigo Escobar, mais do que à esposa, sugerindo outras tonalidades para o triângulo amoroso. O interessante destas situações abertas é que cada um as interpreta conforme sua visão de mundo, identificações, crenças e valores. Há uma lenda sobre as origens da Alquimia que refere que um anjo de uma dimensão elevada, encantado pela beleza da deusa Ísis, deu-lhe uma cantada e ela impôs a seguinte condição: ensine-me os segredos da Alquimia, que eu topo. Porém, a historinha deixa em aberto se Ísis deu ou não ao anjo aquilo que ele desejava. O que você acha que aconteceu?

a) Ísis enrolou o anjo, aprendeu os segredos da Alquimia e desconversou depois, fazendo-se de desentendida;
b) Ísis cumpriu o combinado, afinal de contas já tinha empenhado sua palavra.
c) Ísis já pretendia mesmo dar para o anjo, aproveitou e levou de lambuja os segredos da Alquimia.
d) O anjo enrolou Ísis, contou qualquer coisa como se fossem os segredos da Alquimia e se deu bem.

Pois é, o que você acha tem muito a dizer sobre quem você é e com quem se relacionou.

terça-feira, 29 de março de 2011

O monstro matador de monstros

Fiz uma triste constatação sobre nossa espécie: não conseguimos destruir um mal sem colocar outro no lugar. O preconceito e a discriminação vêm sendo substituídos por outra praga - o politicamente correto. Não dá mais para falar nada sem a impressão de que uma freirinha professora primária vai surgir do nada e lançar uma repreensão. As crianças já aprendem uma versão ridícula de "atirei o pau no gato", como se fosse a cantiga original e não a luta por atenção/ amor/ poder/ comida/ lugar ao sol que fizesse desde cedo as crianças se estapearem na escola. Daqui a pouco, escrevam, elas já não poderão mais dizer que o amiguinho é "porco" ou "burro", não só para não ofenderem os coleguinhas, mas porque "não se deve associar características desagradáveis aos inocentes animaizinhos". O problema que vejo neste mascaramento por eufemismos é que ele não modifica a coisa em si, não desenvolve um olhar questionador sobre afirmações preconceituosas ou estimula uma postura crítica, apenas lança um patrulhamento ideológico fruto de uma visão maniqueísta do mundo. Mas a coisa não para no palavreado. Infelizmente, quando você lança uma medida de proteção extrema ao mais fraco, via de regra ele se torna o mais forte devido ao caráter extremo da medida e passa a espezinhar o anteriormente mais forte. Em outras palavras, o mais fraco não é essencialmente melhor do que o mais forte, apenas está circunstancialmente em desvantagem. Reverta-a e você verá a relação de dominação também se inverter, o fraco de outrora dominando o antigo dominador. Nós somos isto, e até hoje o único caminho para a paz é o equilíbrio entre as forças contrárias, quando cooperar se mostra mais vantajoso do que competir. Sou também contrário a leis politiqueiras que se proponham a erradicar algum problema a partir da tolerância zero, que, mesmo contra a coisa mais vil, não deixa de ser apenas Intolerância Absoluta. Por isso, quando me apresentam alguém que vai derrotar o monstro, eu me pergunto: e quem vai nos proteger de algo tão terrível como o monstro matador de monstros? O monstro matador de monstros matadores de monstros?

domingo, 20 de março de 2011

Entrevista: lançamento do livro "Enganos, meias-verdades e um final quase feliz"

terça-feira, 15 de março de 2011

Mais trechos do livro "Enganos, meias-verdades e um final quase feliz"

 "Há quem colecione todo tipo de coisas. Selos, latinhas de cerveja, borboletas, papéis de carta, cartões telefônicos, carros em miniatura, moedas. Eu coleciono seios. Tenho centenas deles catalogados em minha memória. Embora os puristas e os anatomistas afirmem que a mulher possui um seio e duas mamas, prefiro denominá-los seios. Tetas me soam como úberes; imagino uma vaca sendo ordenhada. Mamas me parecem muito maternais, sempre na iminência de jorrar leite. Peitos me sugerem frango com salada de alface e as dietas não me agradam. Seios, simplesmente. Há quem discorra sobre seu papel cultural, sobre a importância da queima dos sutiãs para o feminismo. Há também quem disserte sobre seu papel no desenvolvimento psicológico, falando de seio bom e seio mau. Há estilistas que os revelam e escondem ao sabor da moda que ditam. Eu não, apenas admiro suas formas, texturas, aromas e temperaturas, classificando-os e registrando no arquivo da memória. A necessidade de catalogá-los surgiu da mesma forma que para os outros colecionadores: abundância de material e necessidade de ordem." (O colecionador)

domingo, 13 de março de 2011

Trechos do livro: "Enganos, meias-verdades e um final quase feliz"

Aproveitando o embalo da noite de autógrafos, mais um trecho do livro. Esta é parte de uma brincadeira final: um apêndice com finais felizes opcionais.

"Certos leitores, com o forte argumento de que a vida já traz contrariedades suficientes para se buscar realismo também no cinema ou na literatura, reclamaram por finais mais felizes para minhas histórias. De certa forma, a indústria cinematográfica hollywoodiana, com seus lucros astronômicos, também serve de indicativo de que se tem buscado na ficção um bálsamo contra a realidade e não um espelho de seus aspectos mais pungentes. Talvez o mesmo aconteça com o mercado literário, embora o público-alvo seja um pouco diferente. Para não entristecer as almas mais sensíveis, desarrumar convicções confortáveis ou dar prejuízos financeiros aos envolvidos na publicação desta obra – sobretudo a mim mesmo –, em um momento de bom humor, tomo a iniciativa de oferecer ao leitor finais felizes opcionais, ao estilo do cinema norte-americano. Quem sabe não estarei inaugurando a literatura self-service, tão apropriada a um tempo em que o freguês tem sempre razão? Seguem então os finais opcionais neste apêndice, de modo a não prejudicar aqueles leitores que, como eu, são mais afeitos à acidez na ficção"; (apêndice: finais felizes opcionais)

quarta-feira, 9 de março de 2011

Lançamento do livro "Enganos, meias-verdades e um final quase feliz"

Pessoal, a noite de autógrafos do meu segundo livro de contos, "Enganos, meias-verdades e um final quase feliz", ocorrerá no dia 18 de março de 2011, às 19:30, na Livraria Catarinense do Beiramar Shopping. Os que moram perto estão convidados; os que moram longe e querem comprar um exemplar autografado podem deixar comentário no blog com seu e-mail para contato (o comentário será excluído e seu e-mail não será divulgado). Aí vai um trecho do conto "O diabo e o filósofo", premiado em Portugal:

«- Fausto, geralmente esse tipo de explicação não é dado, mas como você não seguiu o contrato padrão, acho que posso abrir uma exceção. Afinal de contas, o sentido da vida também passa por estas questões. Há muito tempo, Deus chamou seu anjo favorito, Lúcifer, e expôs a ele Seus planos para a grande empresa da Criação, uma holding que envolve as marcas Terra, Inferno, Céu e Purgatório.

- Mas e o resto do universo?

- É virtual. Em parte há hologramas, mas também são utilizados recursos de sugestão hipnótica, mensagens subliminares, montagens cinematográficas, etc.

- Mas o homem na lua?

- Montagem, chegou até a vazar a notícia. Mas foi tudo contornado pelo agente infiltrado na Casa Branca.

- Agente na Casa Branca?

- É, temos agentes espalhados pelo mundo todo.

- Do Inferno?

- Do Inferno, que são os diabos, e do purgatório, que são os anjos, ou mentores, ou devas... O Inferno e o Purgatório são divididos em departamentos em conformidade às crenças dos sujeitos. No Céu o pessoal já superou essas mesquinharias e intolerância. Mas continuando a história, quando concebeu a Criação, Deus o fez para se livrar do tédio da eternidade. Pensou em um grande reality show para a diversão das almas que estão no Céu. Criou então a Terra, que é o tabuleiro de um grande jogo. Para ter mais graça, fez com que todos os participantes esquecessem tudo o que soubessem sobre o além e a eternidade. Além disso, nenhum dos que chegam à Terra sabe exatamente quais são as regras e os objetivos do jogo. Aos poucos, cada um vai-se informando com os que são mais experientes, muitas vezes seguindo pistas falsas. Agora o toque de mestre: foram criados diferentes manuais, concordando em boa parte no que se refere a alguns princípios, mas trazendo contradições, pistas falsas e mensagens segregacionistas, para que se formassem equipes concorrentes. Cada um desses manuais dá explicações diferentes para as questões mais intrigantes do jogo: a verdade, a injustiça, o sofrimento e a morte. Evidentemente, nenhuma delas é totalmente correta, senão o jogo estaria arruinado e o tédio voltaria à eternidade. Além disso, os manuais trazem histórias de traição, guerra, genocídio, idolatria, preconceito, amor, ódio, paixão, ciúme... Tudo para instigar os participantes. Ah!, o elevador chegou. Bem vindo ao Inferno!»

«O Diabo e o Filósofo», 2.º lugar do Prémio Nacional Trindade Coelho (Município de Mogadouro).

segunda-feira, 7 de março de 2011

A migração das bundas

Estava buscando uma programação alternativa à exibição dos bailes e desfiles carnavalescos. Caí em um documentário sobre a bunda. Isso mesmo, o legítimo do(cu)mentário, chamado "Preferência nacional", tentou antropologizar, sociologizar e dar tratamento jornalístico ao tema. No desfile, abundavam as lantejoulas; no documentário, as bundas cintilavam. Até tentei assistir, mas não houve tratamento que salvasse a bunda de seu destino inexorável de lugar-comum. Intelectualizar os glúteos é tão despropositado quanto erotizar a Academia. Aliás, a academia que dá melhor tratamento à bunda continua sendo a de ginástica.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Amor e Roma

Este título é um palíndromo, como devem ter reparado: lido de trás para frente, fica igualzinho. Assim, fica fácil memorizar que Roma pode ser o avesso do amor. Porém, vamos por partes. Um amigo meu, lá pelo início dos anos 90, apresentou-me uma teoria bastante interessante, que denominei "Teoria do fracasso amoroso auto-induzido". Simplificando: o Zé se apaixona pela Maria, que chama a atenção dele por ser sorridente, bonita, alegre e por vestir-se de modo provocante. Começam a namorar e, movido pelo receio de que outros homens também a considerem interessante e a assediem, começa a reclamar do modo dela sorrir, enfeitar-se, vestir-se e agir. Maria, embora a contragosto, passa a rir baixinho, alonga as saias, prende os cabelos e as ações. Depois de um tempo, para ficar menos interessante aos olhos dos outros, Maria não é mais aquela que atraiu o Zé. O interesse diminui, Maria fica ressentida, agora fazendo o mesmo tipo de cobrança: "Se eu não posso sair pra dançar, você não pode ir jogar sinuca!" O namoro vai pro brejo e o culpado é o próprio Zé, que não aprendeu a lição sobre o Império Romano: não adianta conquistar o que não se tem recursos pra manter. 

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Você conhece o português? II

Das palavras da listagem abaixo, há ____ com a grafia errada.

orário - sinema - sima - sicose - sílabo - senhoril

a) três
b) quatro
c) cinco
d) seis
e) nenhuma

A resposta é... "e".

Orário é um tipo de lenço romano; sinema é uma parte das orquídeas; sima é uma camada da crosta terrestre; sicose é uma pereba que dá na barba; sílabo é uma lista de erros que o Papa condenou; senhoril é relativo a senhor/ senhora.

Esse é o problema típico de questões de concurso, afinal o objetivo é eliminar candidatos e isso se faz apelando para irrelevâncias. O risco é que ele pode ser acertado mais facilmente por um "analfa" que não saiba escrever horário, cinema, cima, psicose, sílaba e senhorio do que por alguém razoavelmente letrado. 

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Longe demais

Hoje fui fazer algo que acho muito chato: comprar roupas. Por achar desagradável, geralmente compro tudo de uma vez só e na quantidade que preciso. Fui atendido por uma vendedora muito simpática, mas ela tinha um defeito: não sabia a hora de parar. Existem distinções entre o sinal da dúvida e o sinal da certeza. No caso de dúvida, você insiste; no caso de certeza, você tenta instigar a dúvida. Na resistência à instigação, você deve parar. Ir longe demais é um problema. Jogadores de futebol perdem gols pelo drible desnecessário, são expulsos pela reclamação acintosa ou pela entrada violenta. A diferença entre o alcoolista e o bebedor social está em conseguir parar antes de ir longe demais. Saber onde fica esse ponto é que é a arte. 

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Em busca da verdade, caso exista

Pessoas normais não se preocupam muito com epistemologia ou ontologia, mas creio que o fato de ter sido professor já é prova suficiente de minha anormalidade (estatística, não necessariamente funcional). Era para eu ser filósofo ou artista, mas não levei muita fé em conseguir sobreviver disso. Porém, do meu breve interlúdio no estudo de Engenharia à  minha situação de Psicólogo Judicial,  as questões filosóficas nunca me abandonaram. Recentemente, tenho me ocupado da questão da verdade, até porque ouço muitas mentiras, meias-verdades, enganos e preciso tentar separar aquilo de que as pessoas estão de fato convencidas daquilo que apenas pretendem me convencer, embora saibam (ou suponham) falso. Como devem ter percebido, isso de fato é um pepino, pois gira em torno de indicadores comportamentais e da verossimilhança do que é dito. Por este motivo, tal prática requer tempo e o confronto dos vários discursos das pessoas envolvidas. Uma divisão que considero útil para esta reflexão é a que se pode estabelecer entre realidade natural e social.

Realidade natural: quando chove, por mais que você tente convencer a si mesmo ou aos outros que não está chovendo, isso não fará a menor diferença; as divergências acabam recaindo em alterações na sensopercepção, como a cegueira, a surdez, o daltonismo, as alucinações.

Realidade social: o estabelecimento de uma "verdade" depende das pessoas estarem convencidas de alguma coisa, como por exemplo da (i)legitimidade do presidente do Egito ou de Fidel Castro para estar no poder; as divergências podem ser consideradas equívocos, má-fé ou loucura, desde que haja suficiente respaldo na opinião pública ou nos saberes hegemônicos.

Há quem creia que esta divisão não procede, mas cada vez estou mais convencido de que, pelo menos no campo das ciências sociais (com suas aplicações), a verdade nada mais é do que o triunfo de um discurso sobre os demais.   

sábado, 29 de janeiro de 2011

Personagens inesquecíveis: Lisbeth Salander

É difícil falar dessa mulher sem estragar as surpresas da Trilogia Millennium, de Stieg Larsson. É uma pena que o autor tenha falecido tão cedo e a vida da personagem dependa de um sucessor, o que certamente acarretaria mudanças de enfoque. Voltando a Lisbeth, temos uma mulher de menos de trinta anos, porém julgada incapaz para os atos da vida civil, mantida sob tutela (deveria ser curatela) de um advogado mau-caráter. Porém, sua interdição, bem como a avaliação psiquiátrica que a produziu, está cercada de fraudes e intrigas que dão sentido à trama. De incapaz Lisbeth não tem praticamente nada, o que também não a coloca no rol das pessoas ditas normais: é superdotada, tem uma memória espantosa e é uma hacker, tendo porém uma dificuldade espantosa no que se refere aos relacionamentos sociais. Esta combinação de características dá a tentação de classificá-la como portadora da síndrome de Asperger, porém o próprio autor esclarece que nem todas as características são preenchidas. De fato, a falta de habilidades sociais no caso de Lisbeth se deve mais a maus-tratos do que a algum tipo de transtorno invasivo do desenvolvimento. Em virtude de sua mirrada constituição física, suas tatuagens e piercings e do modo peculiar de se trajar, tem o destino de todos os desviantes sociais: tornar-se alvo de violência e preconceitos. Tudo o que ela quer é ser deixada em paz e cedo descobre que o único jeito de conter os malvados é reagindo de modo que passem a temê-la, já que não a respeitam. Entre golpes de boxe, sprays de pimenta, pistolas elétricas e cavalos de tróia, Lisbeth está preparada para enfrentar quase tudo. O que ela não consegue administrar, você vai descobrir lendo a trilogia ou indo ao cinema.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Livros eletrônicos e de papel

Em um futuro não muito distante, espaço físico, tempo livre, água potável, ar puro e silêncio serão luxos. Hoje em dia já é complicado estacionar de graça, circular por aí ou não morar em um cubículo. Por isso, a possibilidade de guardar músicas, filmes e livros em meio eletrônico é muito sedutora. Eu precisaria de um quarto a menos no apartamento, não fosse meu hábito/ vício da leitura. Por isso, comecei a substituir meu acervo de livros de papel e os meus CD. Não que eu ache isso uma maravilha, porque uma traça leva muito mais tempo para corromper um livro do que um vírus para acabar com um ebook. Além disso, o livro de papel é melhor para calçar mesas, matar baratas e inclusive prevenir ataques de quero-quero (já me aconteceu isso). Tenho um leitor de ebook da foxit e estou muito feliz com ele, mesmo com as limitações que oferece. Quanto aos tablets, o problema é o mesmo dos netbooks: a bateria dura pouco. Isso não ocorre com a tecnologia e-ink, então a leitura mais prolongada pode ocorrer nos leitores de ebook, embora com a desvantagem da falta de cores. O chato é recarregar a bateria: para 2000 viradas de página, oito horas de recarga.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Cadernos de viagem: Mr. Bean em Lisboa

Assim que o táxi me deixou no Residencial Monumental, que era uma pensão simples, mas honesta, senti que ia adoecer. Pensei: "Que inferno, todo mundo aproveita suas viagens, agora vou ficar com febre e desfrutando apenas dos quartos de hotel". Porém, tomei um paracetamol e não me deixei abater. Era preciso tomar o metrô e ir até a Gare do Oriente, uma estação bastante ampla, para meus padrões florianopolitanos.  Fui caminhando da altura do Hard Rock Café até a estação do Rossio, onde tomei uma surra da máquina de vender tickets. Se você demora a digitar os comandos em um menu não muito evidente para os iniciantes, a máquina simplesmente troca o dinheiro para você em moedinhas. Na Europa, centavos realmente são dinheiro, ao contrário do Brasil, onde você não se abaixa para catar do chão uma moedinha menor que um real. Fiquei abarrotado de moedinhas e resolvi pedir ajuda. Felizmente fui bem orientado a tratar as pessoas por senhor e senhora e não por "moço" / "moça", pois lá a expressão tem sentido pejorativo, como sendo referente a um servo, enquanto no Brasil é um tratamento informal e carinhoso, como quem diz "jovem senhor" ou "senhorita". Ao chegar na Gare do Oriente, fui até a loja da Rodonorte para comprar a passagem de ônibus (autocarro) Porto-Mogadouro, para garantir, uma vez que o único compromisso sem possibilidade de remanejar seria a entrega do prêmio. Eu não tinha a menor noção de quanta gente viaja para a região transmontana, então a prudência mandava priorizar a compra do bilhete. Quando o pedi, minha surpresa só não foi maior do que a da atendente: "Ora, pois! Se o senhor quer ir do Porto a Mogadouro, deve comprar o bilhete na cidade do Porto!" Dado o espanto, em lugar de dizer que uma empresa daquele porte supostamente deveria ter um sistema interligado, agradeci e fui comprar o bilhete de trem (comboio) para Porto. Felizmente era possível comprar o bilhete para outra estação e escolhi partir de Santa Apolónia para reduzir os custos. Na volta, quis saber onde poderia tomar o autocarro turístico ali nas imediações da Gare do Oriente, porém não havia quem soubesse como fazê-lo. Em parte era justificável, pois eu próprio nunca fiz o passeio turístico em Florianópolis, então os lisboetas provavelmente não estão motivados a fazer o passeio equivalente. Descobri que tinha que voltar de metrô e ir até a Praça do Comércio. No caminho de volta, a alça de minha bolsa arrebentou, o que me deixou apenas com uma das mãos livre. No caminho para o Hotel, já no final da tarde, resolvi deixar o passeio turístico para o dia seguinte. Avistei um daqueles galinhos em uma loja e fui comprá-lo para trazer de recordação. Como reconhecimento pelas dicas dadas por uma amiga que havia passado uns meses em Portugal, resolvi trazer um para ela também. Caí na besteira de perguntar sobre o autocarro turístico enquanto recebia o troco (incontáveis moedinhas) e o simpático vendedor rapidamente parou o turístico que se aproximava. Com o pacote em uma mão, a bolsa presa entre o queixo e o peito e tentando guardar as moedinhas, subi no autocarro e comprei o bilhete. Após o relativo sucesso da missão, fui para os lugares no topo do turístico e comecei a tentar tirar fotografias, mas não deu muito certo, pois ou eu prestava atenção nas explicações, ou não saberia o que estava fotografando. Tentei tirar as fotos com o ônibus em movimento, mas também não deu certo. Bateu um vento e meu boné voou, felizmente caindo dentro do autocarro. Resolvi descer em Belém e, para minha surpresa, o bilhete não estava mais comigo. Explicando aos que nunca fizeram estes passeios, de posse do bilhete você pode descer nos pontos turísticos e, depois de explorá-los, pegar outro autocarro e seguir passeando sem pagar mais nada, desde que seja no mesmo dia. Pensei: "Puta que pariu, agora sou obrigado a ficar no busão até chegar perto do hotel e não vou poder descer em lugar nenhum. Eu sou um fodido! Todo mundo vem à Europa e se diverte, eu estou aqui bancando o Mr. Bean!" Ao descer, encontrei meu bilhete no chão, perto de onde tinha organizado as coisas na bolsa. Aproveitei para andar mais um pouco pela cidade e não pude comer os pastéis de Belém, ver a torre homônima e o Padrão dos Descobrimentos de perto, ou ainda visitar o Mosteiro dos Jerónimos. Pensei com meus botões: não conhecerei Lisboa desta vez, fica para uma próxima. Chegando ao Residencial, pedi sugestões para ir a uma casa de fado na Alfama. O funcionário disse que seria seguro ir a pé, inclusive, mas com a sorte que eu andava, achei melhor não arriscar.  Ele me sugeriu fazer um passeio "Lisboa by Night", que incluía um espetáculo de fado. O preço era salgado e eu precisava adiantar a comissão dele, o que me fez pensar por uns momentos, mas resolvi aceitar. Ele estava sem os bilhetes e rubricou um cartão, o que me deu um tremendo medo de calote, somado ao preconceito decorrente dele ser imigrante. Fui até o local onde me buscariam e, quando o micro-ônibus começou a se atrasar, pensei: "Pronto, vou voltar e o cara já terá ido embora. Tomei o maior 171". Porém, o momento Mr. Bean já havia passado: em alguns minutos o pessoal da Dianatours estava ali e minhas suspeitas se mostraram infundadas. O passeio foi ótimo, o jantar melhor ainda, com um grupo misto formado por brasileiros, espanhóis, italianos, todos muito dispostos a conversar e fazer amizade. A desvantagem do tour à noite é de que só se pode conhecer os monumentos por fora, a vantagem é a possibilidade de conhecer pessoas de outros cantos do mundo, também dispostas a fazer amizade. Fui dormir feliz. Há quatro roteiros possíveis para o passeio turístico (dois de ônibus e dois de bonde) e eu fiz o Tagus Tour, que privilegia os aspectos históricos e arquitetônicos da cidade. Há outra rota que privilegia os museus e a arquitetura de vanguarda. O passeio Lisboa by Night pega um pouco de cada uma destas rotas. No dia seguinte, ainda um pouco febril, achei preferível tomar o café-da-manhã (pequeno almoço) e dar uma caminhada pelas redondezas para evitar atrasos. Em Santa Apolónia, comi um pastel de Belém, mas dizem os especialistas que  não é a mesma coisa. No trem, rumo à cidade do Porto, pensei em visitar Lisboa com mais tempo em uma nova oportunidade. Porém, eu já era um outro homem: Mr. Bean ficou em Lisboa.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Paulo Coelho: o nosso Big-Mac

Nos últimos meses, tenho lido sobre o cenário musical e literário do Brasil (mais especificamente do Rio de Janeiro) entre as décadas de 30 e 70. Entre outras leituras, passei pelas histórias da Bossa-nova e da Tropicália, pelas biografias de Tim Maia e de Paulo Coelho. Embora limitadíssimo em seus recursos literários, o Mago é um gênio como produtor e criou apenas uma grande personagem: ele próprio, um ícone pop familiarizado com os caminhos que conduzem ao sucesso. Diz sua biografia autorizada que ele já plagiou, assinou livro que não escreveu, mentiu descaradamente sobre os mais variados assuntos. No livro O Zahir, com forte aspecto autobiográfico, descreve eufemisticamente como "banco de favores" o famoso jeitinho brasileiro (que não é tão brasileiro assim) em que uma mão lava a outra, sinalizando que de fato não há muita diferença entre os caminhos para ser um sucesso pop, entrar para o Senado Federal ou para a Academia Brasileira de Letras. Porém, se fosse fácil alguém virar ícone pop e milionário, esse panteão contemporâneo seria ainda maior. Terminada a leitura de "O Mago", de Fernando Morais, caiu-me a ficha: Paulo Coelho é o Big-Mac das letras. O que faz a cultura pop e o fast food se assemelharem é a acessibilidade, que se dá em dois níveis:

a) simplicidade: se você consegue atingir o gosto das crianças/adolescentes (fotos de bebês fofinhos, sabores adocicados, batatas fritas, letras fáceis e ritmos dançantes), acertará também o gosto da maioria das pessoas. Claro que haverá uma minoria que aprecia a complexidade, mas como o objetivo é a popularidade, melhor descartá-la.

b) disponibilidade: é preciso que o produto esteja ao alcance dos olhos, ouvidos e mãos do consumidor. Além do pesado investimento na propaganda, uma rede de distribuição de grande alcance é fundamental.

Tendo estes ingredientes, há que se investir na imagem, criando uma marca forte. Nesse sentido, Coelho está mais próximo de Michael Jackson, Madonna e Lady Gaga do que de Sidney Sheldon, Dan Brown e J. K. Rowling. Possivelmente esta semelhança venha de seu currículo como produtor musical.

Parafraseando o Mago, realmente ele foi bem sucedido em buscar sua lenda pessoal, que era ser rico e famoso. Quando ele quis algo do fundo de seu coração, o Universo conspirou em seu favor - cobrando o devido jabaculê, como é costume deste universo dinheirista em que vivemos. Quanto à briga de Coelho com a crítica, acho que poderá terminar no dia em que o McDonalds ganhar três estrelas no guia Michelin.

 
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