sábado, 29 de janeiro de 2011

Personagens inesquecíveis: Lisbeth Salander

É difícil falar dessa mulher sem estragar as surpresas da Trilogia Millennium, de Stieg Larsson. É uma pena que o autor tenha falecido tão cedo e a vida da personagem dependa de um sucessor, o que certamente acarretaria mudanças de enfoque. Voltando a Lisbeth, temos uma mulher de menos de trinta anos, porém julgada incapaz para os atos da vida civil, mantida sob tutela (deveria ser curatela) de um advogado mau-caráter. Porém, sua interdição, bem como a avaliação psiquiátrica que a produziu, está cercada de fraudes e intrigas que dão sentido à trama. De incapaz Lisbeth não tem praticamente nada, o que também não a coloca no rol das pessoas ditas normais: é superdotada, tem uma memória espantosa e é uma hacker, tendo porém uma dificuldade espantosa no que se refere aos relacionamentos sociais. Esta combinação de características dá a tentação de classificá-la como portadora da síndrome de Asperger, porém o próprio autor esclarece que nem todas as características são preenchidas. De fato, a falta de habilidades sociais no caso de Lisbeth se deve mais a maus-tratos do que a algum tipo de transtorno invasivo do desenvolvimento. Em virtude de sua mirrada constituição física, suas tatuagens e piercings e do modo peculiar de se trajar, tem o destino de todos os desviantes sociais: tornar-se alvo de violência e preconceitos. Tudo o que ela quer é ser deixada em paz e cedo descobre que o único jeito de conter os malvados é reagindo de modo que passem a temê-la, já que não a respeitam. Entre golpes de boxe, sprays de pimenta, pistolas elétricas e cavalos de tróia, Lisbeth está preparada para enfrentar quase tudo. O que ela não consegue administrar, você vai descobrir lendo a trilogia ou indo ao cinema.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Livros eletrônicos e de papel

Em um futuro não muito distante, espaço físico, tempo livre, água potável, ar puro e silêncio serão luxos. Hoje em dia já é complicado estacionar de graça, circular por aí ou não morar em um cubículo. Por isso, a possibilidade de guardar músicas, filmes e livros em meio eletrônico é muito sedutora. Eu precisaria de um quarto a menos no apartamento, não fosse meu hábito/ vício da leitura. Por isso, comecei a substituir meu acervo de livros de papel e os meus CD. Não que eu ache isso uma maravilha, porque uma traça leva muito mais tempo para corromper um livro do que um vírus para acabar com um ebook. Além disso, o livro de papel é melhor para calçar mesas, matar baratas e inclusive prevenir ataques de quero-quero (já me aconteceu isso). Tenho um leitor de ebook da foxit e estou muito feliz com ele, mesmo com as limitações que oferece. Quanto aos tablets, o problema é o mesmo dos netbooks: a bateria dura pouco. Isso não ocorre com a tecnologia e-ink, então a leitura mais prolongada pode ocorrer nos leitores de ebook, embora com a desvantagem da falta de cores. O chato é recarregar a bateria: para 2000 viradas de página, oito horas de recarga.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Cadernos de viagem: Mr. Bean em Lisboa

Assim que o táxi me deixou no Residencial Monumental, que era uma pensão simples, mas honesta, senti que ia adoecer. Pensei: "Que inferno, todo mundo aproveita suas viagens, agora vou ficar com febre e desfrutando apenas dos quartos de hotel". Porém, tomei um paracetamol e não me deixei abater. Era preciso tomar o metrô e ir até a Gare do Oriente, uma estação bastante ampla, para meus padrões florianopolitanos.  Fui caminhando da altura do Hard Rock Café até a estação do Rossio, onde tomei uma surra da máquina de vender tickets. Se você demora a digitar os comandos em um menu não muito evidente para os iniciantes, a máquina simplesmente troca o dinheiro para você em moedinhas. Na Europa, centavos realmente são dinheiro, ao contrário do Brasil, onde você não se abaixa para catar do chão uma moedinha menor que um real. Fiquei abarrotado de moedinhas e resolvi pedir ajuda. Felizmente fui bem orientado a tratar as pessoas por senhor e senhora e não por "moço" / "moça", pois lá a expressão tem sentido pejorativo, como sendo referente a um servo, enquanto no Brasil é um tratamento informal e carinhoso, como quem diz "jovem senhor" ou "senhorita". Ao chegar na Gare do Oriente, fui até a loja da Rodonorte para comprar a passagem de ônibus (autocarro) Porto-Mogadouro, para garantir, uma vez que o único compromisso sem possibilidade de remanejar seria a entrega do prêmio. Eu não tinha a menor noção de quanta gente viaja para a região transmontana, então a prudência mandava priorizar a compra do bilhete. Quando o pedi, minha surpresa só não foi maior do que a da atendente: "Ora, pois! Se o senhor quer ir do Porto a Mogadouro, deve comprar o bilhete na cidade do Porto!" Dado o espanto, em lugar de dizer que uma empresa daquele porte supostamente deveria ter um sistema interligado, agradeci e fui comprar o bilhete de trem (comboio) para Porto. Felizmente era possível comprar o bilhete para outra estação e escolhi partir de Santa Apolónia para reduzir os custos. Na volta, quis saber onde poderia tomar o autocarro turístico ali nas imediações da Gare do Oriente, porém não havia quem soubesse como fazê-lo. Em parte era justificável, pois eu próprio nunca fiz o passeio turístico em Florianópolis, então os lisboetas provavelmente não estão motivados a fazer o passeio equivalente. Descobri que tinha que voltar de metrô e ir até a Praça do Comércio. No caminho de volta, a alça de minha bolsa arrebentou, o que me deixou apenas com uma das mãos livre. No caminho para o Hotel, já no final da tarde, resolvi deixar o passeio turístico para o dia seguinte. Avistei um daqueles galinhos em uma loja e fui comprá-lo para trazer de recordação. Como reconhecimento pelas dicas dadas por uma amiga que havia passado uns meses em Portugal, resolvi trazer um para ela também. Caí na besteira de perguntar sobre o autocarro turístico enquanto recebia o troco (incontáveis moedinhas) e o simpático vendedor rapidamente parou o turístico que se aproximava. Com o pacote em uma mão, a bolsa presa entre o queixo e o peito e tentando guardar as moedinhas, subi no autocarro e comprei o bilhete. Após o relativo sucesso da missão, fui para os lugares no topo do turístico e comecei a tentar tirar fotografias, mas não deu muito certo, pois ou eu prestava atenção nas explicações, ou não saberia o que estava fotografando. Tentei tirar as fotos com o ônibus em movimento, mas também não deu certo. Bateu um vento e meu boné voou, felizmente caindo dentro do autocarro. Resolvi descer em Belém e, para minha surpresa, o bilhete não estava mais comigo. Explicando aos que nunca fizeram estes passeios, de posse do bilhete você pode descer nos pontos turísticos e, depois de explorá-los, pegar outro autocarro e seguir passeando sem pagar mais nada, desde que seja no mesmo dia. Pensei: "Puta que pariu, agora sou obrigado a ficar no busão até chegar perto do hotel e não vou poder descer em lugar nenhum. Eu sou um fodido! Todo mundo vem à Europa e se diverte, eu estou aqui bancando o Mr. Bean!" Ao descer, encontrei meu bilhete no chão, perto de onde tinha organizado as coisas na bolsa. Aproveitei para andar mais um pouco pela cidade e não pude comer os pastéis de Belém, ver a torre homônima e o Padrão dos Descobrimentos de perto, ou ainda visitar o Mosteiro dos Jerónimos. Pensei com meus botões: não conhecerei Lisboa desta vez, fica para uma próxima. Chegando ao Residencial, pedi sugestões para ir a uma casa de fado na Alfama. O funcionário disse que seria seguro ir a pé, inclusive, mas com a sorte que eu andava, achei melhor não arriscar.  Ele me sugeriu fazer um passeio "Lisboa by Night", que incluía um espetáculo de fado. O preço era salgado e eu precisava adiantar a comissão dele, o que me fez pensar por uns momentos, mas resolvi aceitar. Ele estava sem os bilhetes e rubricou um cartão, o que me deu um tremendo medo de calote, somado ao preconceito decorrente dele ser imigrante. Fui até o local onde me buscariam e, quando o micro-ônibus começou a se atrasar, pensei: "Pronto, vou voltar e o cara já terá ido embora. Tomei o maior 171". Porém, o momento Mr. Bean já havia passado: em alguns minutos o pessoal da Dianatours estava ali e minhas suspeitas se mostraram infundadas. O passeio foi ótimo, o jantar melhor ainda, com um grupo misto formado por brasileiros, espanhóis, italianos, todos muito dispostos a conversar e fazer amizade. A desvantagem do tour à noite é de que só se pode conhecer os monumentos por fora, a vantagem é a possibilidade de conhecer pessoas de outros cantos do mundo, também dispostas a fazer amizade. Fui dormir feliz. Há quatro roteiros possíveis para o passeio turístico (dois de ônibus e dois de bonde) e eu fiz o Tagus Tour, que privilegia os aspectos históricos e arquitetônicos da cidade. Há outra rota que privilegia os museus e a arquitetura de vanguarda. O passeio Lisboa by Night pega um pouco de cada uma destas rotas. No dia seguinte, ainda um pouco febril, achei preferível tomar o café-da-manhã (pequeno almoço) e dar uma caminhada pelas redondezas para evitar atrasos. Em Santa Apolónia, comi um pastel de Belém, mas dizem os especialistas que  não é a mesma coisa. No trem, rumo à cidade do Porto, pensei em visitar Lisboa com mais tempo em uma nova oportunidade. Porém, eu já era um outro homem: Mr. Bean ficou em Lisboa.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Paulo Coelho: o nosso Big-Mac

Nos últimos meses, tenho lido sobre o cenário musical e literário do Brasil (mais especificamente do Rio de Janeiro) entre as décadas de 30 e 70. Entre outras leituras, passei pelas histórias da Bossa-nova e da Tropicália, pelas biografias de Tim Maia e de Paulo Coelho. Embora limitadíssimo em seus recursos literários, o Mago é um gênio como produtor e criou apenas uma grande personagem: ele próprio, um ícone pop familiarizado com os caminhos que conduzem ao sucesso. Diz sua biografia autorizada que ele já plagiou, assinou livro que não escreveu, mentiu descaradamente sobre os mais variados assuntos. No livro O Zahir, com forte aspecto autobiográfico, descreve eufemisticamente como "banco de favores" o famoso jeitinho brasileiro (que não é tão brasileiro assim) em que uma mão lava a outra, sinalizando que de fato não há muita diferença entre os caminhos para ser um sucesso pop, entrar para o Senado Federal ou para a Academia Brasileira de Letras. Porém, se fosse fácil alguém virar ícone pop e milionário, esse panteão contemporâneo seria ainda maior. Terminada a leitura de "O Mago", de Fernando Morais, caiu-me a ficha: Paulo Coelho é o Big-Mac das letras. O que faz a cultura pop e o fast food se assemelharem é a acessibilidade, que se dá em dois níveis:

a) simplicidade: se você consegue atingir o gosto das crianças/adolescentes (fotos de bebês fofinhos, sabores adocicados, batatas fritas, letras fáceis e ritmos dançantes), acertará também o gosto da maioria das pessoas. Claro que haverá uma minoria que aprecia a complexidade, mas como o objetivo é a popularidade, melhor descartá-la.

b) disponibilidade: é preciso que o produto esteja ao alcance dos olhos, ouvidos e mãos do consumidor. Além do pesado investimento na propaganda, uma rede de distribuição de grande alcance é fundamental.

Tendo estes ingredientes, há que se investir na imagem, criando uma marca forte. Nesse sentido, Coelho está mais próximo de Michael Jackson, Madonna e Lady Gaga do que de Sidney Sheldon, Dan Brown e J. K. Rowling. Possivelmente esta semelhança venha de seu currículo como produtor musical.

Parafraseando o Mago, realmente ele foi bem sucedido em buscar sua lenda pessoal, que era ser rico e famoso. Quando ele quis algo do fundo de seu coração, o Universo conspirou em seu favor - cobrando o devido jabaculê, como é costume deste universo dinheirista em que vivemos. Quanto à briga de Coelho com a crítica, acho que poderá terminar no dia em que o McDonalds ganhar três estrelas no guia Michelin.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Dos reducionismos

É interessante e benéfico que o mundo já esteja suficientemente aberto para que certas características individuais (etnia/raça, credo/ideologia, gênero/sexo) deixem de ser empecilhos para que se assumam posições de poder e responsabilidade. Porém, quando se vê as mesmas características empunhadas como bandeira ou representantes de um diferencial, fica a impressão de que o reducionismo se mantém: quem assumiu o cargo foi uma mulher, um negro, um operário, como se estas características singulares os definissem plenamente e aqueles indivíduos fossem perfeitamente intercambiáveis por outros também portadores daquela característica, parecendo indiferente a presidente ser Dilma, Marlene Mattos ou Ana Maria Braga. Corre-se o risco de não poder ser oposição sem ser tomado por misógino. É isso o que a política do correto tem feito: em lugar de acabar com o preconceito, apenas virá-lo do avesso.

 
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