sábado, 15 de janeiro de 2011

Cadernos de viagem: Mr. Bean em Lisboa

Assim que o táxi me deixou no Residencial Monumental, que era uma pensão simples, mas honesta, senti que ia adoecer. Pensei: "Que inferno, todo mundo aproveita suas viagens, agora vou ficar com febre e desfrutando apenas dos quartos de hotel". Porém, tomei um paracetamol e não me deixei abater. Era preciso tomar o metrô e ir até a Gare do Oriente, uma estação bastante ampla, para meus padrões florianopolitanos.  Fui caminhando da altura do Hard Rock Café até a estação do Rossio, onde tomei uma surra da máquina de vender tickets. Se você demora a digitar os comandos em um menu não muito evidente para os iniciantes, a máquina simplesmente troca o dinheiro para você em moedinhas. Na Europa, centavos realmente são dinheiro, ao contrário do Brasil, onde você não se abaixa para catar do chão uma moedinha menor que um real. Fiquei abarrotado de moedinhas e resolvi pedir ajuda. Felizmente fui bem orientado a tratar as pessoas por senhor e senhora e não por "moço" / "moça", pois lá a expressão tem sentido pejorativo, como sendo referente a um servo, enquanto no Brasil é um tratamento informal e carinhoso, como quem diz "jovem senhor" ou "senhorita". Ao chegar na Gare do Oriente, fui até a loja da Rodonorte para comprar a passagem de ônibus (autocarro) Porto-Mogadouro, para garantir, uma vez que o único compromisso sem possibilidade de remanejar seria a entrega do prêmio. Eu não tinha a menor noção de quanta gente viaja para a região transmontana, então a prudência mandava priorizar a compra do bilhete. Quando o pedi, minha surpresa só não foi maior do que a da atendente: "Ora, pois! Se o senhor quer ir do Porto a Mogadouro, deve comprar o bilhete na cidade do Porto!" Dado o espanto, em lugar de dizer que uma empresa daquele porte supostamente deveria ter um sistema interligado, agradeci e fui comprar o bilhete de trem (comboio) para Porto. Felizmente era possível comprar o bilhete para outra estação e escolhi partir de Santa Apolónia para reduzir os custos. Na volta, quis saber onde poderia tomar o autocarro turístico ali nas imediações da Gare do Oriente, porém não havia quem soubesse como fazê-lo. Em parte era justificável, pois eu próprio nunca fiz o passeio turístico em Florianópolis, então os lisboetas provavelmente não estão motivados a fazer o passeio equivalente. Descobri que tinha que voltar de metrô e ir até a Praça do Comércio. No caminho de volta, a alça de minha bolsa arrebentou, o que me deixou apenas com uma das mãos livre. No caminho para o Hotel, já no final da tarde, resolvi deixar o passeio turístico para o dia seguinte. Avistei um daqueles galinhos em uma loja e fui comprá-lo para trazer de recordação. Como reconhecimento pelas dicas dadas por uma amiga que havia passado uns meses em Portugal, resolvi trazer um para ela também. Caí na besteira de perguntar sobre o autocarro turístico enquanto recebia o troco (incontáveis moedinhas) e o simpático vendedor rapidamente parou o turístico que se aproximava. Com o pacote em uma mão, a bolsa presa entre o queixo e o peito e tentando guardar as moedinhas, subi no autocarro e comprei o bilhete. Após o relativo sucesso da missão, fui para os lugares no topo do turístico e comecei a tentar tirar fotografias, mas não deu muito certo, pois ou eu prestava atenção nas explicações, ou não saberia o que estava fotografando. Tentei tirar as fotos com o ônibus em movimento, mas também não deu certo. Bateu um vento e meu boné voou, felizmente caindo dentro do autocarro. Resolvi descer em Belém e, para minha surpresa, o bilhete não estava mais comigo. Explicando aos que nunca fizeram estes passeios, de posse do bilhete você pode descer nos pontos turísticos e, depois de explorá-los, pegar outro autocarro e seguir passeando sem pagar mais nada, desde que seja no mesmo dia. Pensei: "Puta que pariu, agora sou obrigado a ficar no busão até chegar perto do hotel e não vou poder descer em lugar nenhum. Eu sou um fodido! Todo mundo vem à Europa e se diverte, eu estou aqui bancando o Mr. Bean!" Ao descer, encontrei meu bilhete no chão, perto de onde tinha organizado as coisas na bolsa. Aproveitei para andar mais um pouco pela cidade e não pude comer os pastéis de Belém, ver a torre homônima e o Padrão dos Descobrimentos de perto, ou ainda visitar o Mosteiro dos Jerónimos. Pensei com meus botões: não conhecerei Lisboa desta vez, fica para uma próxima. Chegando ao Residencial, pedi sugestões para ir a uma casa de fado na Alfama. O funcionário disse que seria seguro ir a pé, inclusive, mas com a sorte que eu andava, achei melhor não arriscar.  Ele me sugeriu fazer um passeio "Lisboa by Night", que incluía um espetáculo de fado. O preço era salgado e eu precisava adiantar a comissão dele, o que me fez pensar por uns momentos, mas resolvi aceitar. Ele estava sem os bilhetes e rubricou um cartão, o que me deu um tremendo medo de calote, somado ao preconceito decorrente dele ser imigrante. Fui até o local onde me buscariam e, quando o micro-ônibus começou a se atrasar, pensei: "Pronto, vou voltar e o cara já terá ido embora. Tomei o maior 171". Porém, o momento Mr. Bean já havia passado: em alguns minutos o pessoal da Dianatours estava ali e minhas suspeitas se mostraram infundadas. O passeio foi ótimo, o jantar melhor ainda, com um grupo misto formado por brasileiros, espanhóis, italianos, todos muito dispostos a conversar e fazer amizade. A desvantagem do tour à noite é de que só se pode conhecer os monumentos por fora, a vantagem é a possibilidade de conhecer pessoas de outros cantos do mundo, também dispostas a fazer amizade. Fui dormir feliz. Há quatro roteiros possíveis para o passeio turístico (dois de ônibus e dois de bonde) e eu fiz o Tagus Tour, que privilegia os aspectos históricos e arquitetônicos da cidade. Há outra rota que privilegia os museus e a arquitetura de vanguarda. O passeio Lisboa by Night pega um pouco de cada uma destas rotas. No dia seguinte, ainda um pouco febril, achei preferível tomar o café-da-manhã (pequeno almoço) e dar uma caminhada pelas redondezas para evitar atrasos. Em Santa Apolónia, comi um pastel de Belém, mas dizem os especialistas que  não é a mesma coisa. No trem, rumo à cidade do Porto, pensei em visitar Lisboa com mais tempo em uma nova oportunidade. Porém, eu já era um outro homem: Mr. Bean ficou em Lisboa.

3 comentários:

Luana disse...

Estou ausente... Eu sei... É excesso de trabalho... Mas estou acompanhando! Juro que estou! Na internet do celular, escondida... Só não tenho tido tempo para comentar!

Beijos :*

João M. Brandão N. disse...

Realmente, o pastel de Belém é muito bom. Mas lá em Portugal, os pastéis são doces. Nem me lembro se tem pastelaria, mas não se acha pastel do tipo que conhecemos aqui.

Paulo César Nascimento disse...

Luana: é difícil não lhe perdoar... bjs

Dr. Brandão: pastel dos nossos, só aqui. Eles derivam dos rolinhos primavera, segundo o pessoal dos 10 pastéis. É verdade, na península Ibérica o nome "pastel" se refere a doces com algum tipo de massa, como nossas Carolinas e bombas, mas nem sempre tão açucarados. Abs

 
design by suckmylolly.com