domingo, 27 de fevereiro de 2011

Amor e Roma

Este título é um palíndromo, como devem ter reparado: lido de trás para frente, fica igualzinho. Assim, fica fácil memorizar que Roma pode ser o avesso do amor. Porém, vamos por partes. Um amigo meu, lá pelo início dos anos 90, apresentou-me uma teoria bastante interessante, que denominei "Teoria do fracasso amoroso auto-induzido". Simplificando: o Zé se apaixona pela Maria, que chama a atenção dele por ser sorridente, bonita, alegre e por vestir-se de modo provocante. Começam a namorar e, movido pelo receio de que outros homens também a considerem interessante e a assediem, começa a reclamar do modo dela sorrir, enfeitar-se, vestir-se e agir. Maria, embora a contragosto, passa a rir baixinho, alonga as saias, prende os cabelos e as ações. Depois de um tempo, para ficar menos interessante aos olhos dos outros, Maria não é mais aquela que atraiu o Zé. O interesse diminui, Maria fica ressentida, agora fazendo o mesmo tipo de cobrança: "Se eu não posso sair pra dançar, você não pode ir jogar sinuca!" O namoro vai pro brejo e o culpado é o próprio Zé, que não aprendeu a lição sobre o Império Romano: não adianta conquistar o que não se tem recursos pra manter. 

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Você conhece o português? II

Das palavras da listagem abaixo, há ____ com a grafia errada.

orário - sinema - sima - sicose - sílabo - senhoril

a) três
b) quatro
c) cinco
d) seis
e) nenhuma

A resposta é... "e".

Orário é um tipo de lenço romano; sinema é uma parte das orquídeas; sima é uma camada da crosta terrestre; sicose é uma pereba que dá na barba; sílabo é uma lista de erros que o Papa condenou; senhoril é relativo a senhor/ senhora.

Esse é o problema típico de questões de concurso, afinal o objetivo é eliminar candidatos e isso se faz apelando para irrelevâncias. O risco é que ele pode ser acertado mais facilmente por um "analfa" que não saiba escrever horário, cinema, cima, psicose, sílaba e senhorio do que por alguém razoavelmente letrado. 

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Longe demais

Hoje fui fazer algo que acho muito chato: comprar roupas. Por achar desagradável, geralmente compro tudo de uma vez só e na quantidade que preciso. Fui atendido por uma vendedora muito simpática, mas ela tinha um defeito: não sabia a hora de parar. Existem distinções entre o sinal da dúvida e o sinal da certeza. No caso de dúvida, você insiste; no caso de certeza, você tenta instigar a dúvida. Na resistência à instigação, você deve parar. Ir longe demais é um problema. Jogadores de futebol perdem gols pelo drible desnecessário, são expulsos pela reclamação acintosa ou pela entrada violenta. A diferença entre o alcoolista e o bebedor social está em conseguir parar antes de ir longe demais. Saber onde fica esse ponto é que é a arte. 

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Em busca da verdade, caso exista

Pessoas normais não se preocupam muito com epistemologia ou ontologia, mas creio que o fato de ter sido professor já é prova suficiente de minha anormalidade (estatística, não necessariamente funcional). Era para eu ser filósofo ou artista, mas não levei muita fé em conseguir sobreviver disso. Porém, do meu breve interlúdio no estudo de Engenharia à  minha situação de Psicólogo Judicial,  as questões filosóficas nunca me abandonaram. Recentemente, tenho me ocupado da questão da verdade, até porque ouço muitas mentiras, meias-verdades, enganos e preciso tentar separar aquilo de que as pessoas estão de fato convencidas daquilo que apenas pretendem me convencer, embora saibam (ou suponham) falso. Como devem ter percebido, isso de fato é um pepino, pois gira em torno de indicadores comportamentais e da verossimilhança do que é dito. Por este motivo, tal prática requer tempo e o confronto dos vários discursos das pessoas envolvidas. Uma divisão que considero útil para esta reflexão é a que se pode estabelecer entre realidade natural e social.

Realidade natural: quando chove, por mais que você tente convencer a si mesmo ou aos outros que não está chovendo, isso não fará a menor diferença; as divergências acabam recaindo em alterações na sensopercepção, como a cegueira, a surdez, o daltonismo, as alucinações.

Realidade social: o estabelecimento de uma "verdade" depende das pessoas estarem convencidas de alguma coisa, como por exemplo da (i)legitimidade do presidente do Egito ou de Fidel Castro para estar no poder; as divergências podem ser consideradas equívocos, má-fé ou loucura, desde que haja suficiente respaldo na opinião pública ou nos saberes hegemônicos.

Há quem creia que esta divisão não procede, mas cada vez estou mais convencido de que, pelo menos no campo das ciências sociais (com suas aplicações), a verdade nada mais é do que o triunfo de um discurso sobre os demais.   

 
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