terça-feira, 29 de março de 2011

O monstro matador de monstros

Fiz uma triste constatação sobre nossa espécie: não conseguimos destruir um mal sem colocar outro no lugar. O preconceito e a discriminação vêm sendo substituídos por outra praga - o politicamente correto. Não dá mais para falar nada sem a impressão de que uma freirinha professora primária vai surgir do nada e lançar uma repreensão. As crianças já aprendem uma versão ridícula de "atirei o pau no gato", como se fosse a cantiga original e não a luta por atenção/ amor/ poder/ comida/ lugar ao sol que fizesse desde cedo as crianças se estapearem na escola. Daqui a pouco, escrevam, elas já não poderão mais dizer que o amiguinho é "porco" ou "burro", não só para não ofenderem os coleguinhas, mas porque "não se deve associar características desagradáveis aos inocentes animaizinhos". O problema que vejo neste mascaramento por eufemismos é que ele não modifica a coisa em si, não desenvolve um olhar questionador sobre afirmações preconceituosas ou estimula uma postura crítica, apenas lança um patrulhamento ideológico fruto de uma visão maniqueísta do mundo. Mas a coisa não para no palavreado. Infelizmente, quando você lança uma medida de proteção extrema ao mais fraco, via de regra ele se torna o mais forte devido ao caráter extremo da medida e passa a espezinhar o anteriormente mais forte. Em outras palavras, o mais fraco não é essencialmente melhor do que o mais forte, apenas está circunstancialmente em desvantagem. Reverta-a e você verá a relação de dominação também se inverter, o fraco de outrora dominando o antigo dominador. Nós somos isto, e até hoje o único caminho para a paz é o equilíbrio entre as forças contrárias, quando cooperar se mostra mais vantajoso do que competir. Sou também contrário a leis politiqueiras que se proponham a erradicar algum problema a partir da tolerância zero, que, mesmo contra a coisa mais vil, não deixa de ser apenas Intolerância Absoluta. Por isso, quando me apresentam alguém que vai derrotar o monstro, eu me pergunto: e quem vai nos proteger de algo tão terrível como o monstro matador de monstros? O monstro matador de monstros matadores de monstros?

domingo, 20 de março de 2011

Entrevista: lançamento do livro "Enganos, meias-verdades e um final quase feliz"

terça-feira, 15 de março de 2011

Mais trechos do livro "Enganos, meias-verdades e um final quase feliz"

 "Há quem colecione todo tipo de coisas. Selos, latinhas de cerveja, borboletas, papéis de carta, cartões telefônicos, carros em miniatura, moedas. Eu coleciono seios. Tenho centenas deles catalogados em minha memória. Embora os puristas e os anatomistas afirmem que a mulher possui um seio e duas mamas, prefiro denominá-los seios. Tetas me soam como úberes; imagino uma vaca sendo ordenhada. Mamas me parecem muito maternais, sempre na iminência de jorrar leite. Peitos me sugerem frango com salada de alface e as dietas não me agradam. Seios, simplesmente. Há quem discorra sobre seu papel cultural, sobre a importância da queima dos sutiãs para o feminismo. Há também quem disserte sobre seu papel no desenvolvimento psicológico, falando de seio bom e seio mau. Há estilistas que os revelam e escondem ao sabor da moda que ditam. Eu não, apenas admiro suas formas, texturas, aromas e temperaturas, classificando-os e registrando no arquivo da memória. A necessidade de catalogá-los surgiu da mesma forma que para os outros colecionadores: abundância de material e necessidade de ordem." (O colecionador)

domingo, 13 de março de 2011

Trechos do livro: "Enganos, meias-verdades e um final quase feliz"

Aproveitando o embalo da noite de autógrafos, mais um trecho do livro. Esta é parte de uma brincadeira final: um apêndice com finais felizes opcionais.

"Certos leitores, com o forte argumento de que a vida já traz contrariedades suficientes para se buscar realismo também no cinema ou na literatura, reclamaram por finais mais felizes para minhas histórias. De certa forma, a indústria cinematográfica hollywoodiana, com seus lucros astronômicos, também serve de indicativo de que se tem buscado na ficção um bálsamo contra a realidade e não um espelho de seus aspectos mais pungentes. Talvez o mesmo aconteça com o mercado literário, embora o público-alvo seja um pouco diferente. Para não entristecer as almas mais sensíveis, desarrumar convicções confortáveis ou dar prejuízos financeiros aos envolvidos na publicação desta obra – sobretudo a mim mesmo –, em um momento de bom humor, tomo a iniciativa de oferecer ao leitor finais felizes opcionais, ao estilo do cinema norte-americano. Quem sabe não estarei inaugurando a literatura self-service, tão apropriada a um tempo em que o freguês tem sempre razão? Seguem então os finais opcionais neste apêndice, de modo a não prejudicar aqueles leitores que, como eu, são mais afeitos à acidez na ficção"; (apêndice: finais felizes opcionais)

quarta-feira, 9 de março de 2011

Lançamento do livro "Enganos, meias-verdades e um final quase feliz"

Pessoal, a noite de autógrafos do meu segundo livro de contos, "Enganos, meias-verdades e um final quase feliz", ocorrerá no dia 18 de março de 2011, às 19:30, na Livraria Catarinense do Beiramar Shopping. Os que moram perto estão convidados; os que moram longe e querem comprar um exemplar autografado podem deixar comentário no blog com seu e-mail para contato (o comentário será excluído e seu e-mail não será divulgado). Aí vai um trecho do conto "O diabo e o filósofo", premiado em Portugal:

«- Fausto, geralmente esse tipo de explicação não é dado, mas como você não seguiu o contrato padrão, acho que posso abrir uma exceção. Afinal de contas, o sentido da vida também passa por estas questões. Há muito tempo, Deus chamou seu anjo favorito, Lúcifer, e expôs a ele Seus planos para a grande empresa da Criação, uma holding que envolve as marcas Terra, Inferno, Céu e Purgatório.

- Mas e o resto do universo?

- É virtual. Em parte há hologramas, mas também são utilizados recursos de sugestão hipnótica, mensagens subliminares, montagens cinematográficas, etc.

- Mas o homem na lua?

- Montagem, chegou até a vazar a notícia. Mas foi tudo contornado pelo agente infiltrado na Casa Branca.

- Agente na Casa Branca?

- É, temos agentes espalhados pelo mundo todo.

- Do Inferno?

- Do Inferno, que são os diabos, e do purgatório, que são os anjos, ou mentores, ou devas... O Inferno e o Purgatório são divididos em departamentos em conformidade às crenças dos sujeitos. No Céu o pessoal já superou essas mesquinharias e intolerância. Mas continuando a história, quando concebeu a Criação, Deus o fez para se livrar do tédio da eternidade. Pensou em um grande reality show para a diversão das almas que estão no Céu. Criou então a Terra, que é o tabuleiro de um grande jogo. Para ter mais graça, fez com que todos os participantes esquecessem tudo o que soubessem sobre o além e a eternidade. Além disso, nenhum dos que chegam à Terra sabe exatamente quais são as regras e os objetivos do jogo. Aos poucos, cada um vai-se informando com os que são mais experientes, muitas vezes seguindo pistas falsas. Agora o toque de mestre: foram criados diferentes manuais, concordando em boa parte no que se refere a alguns princípios, mas trazendo contradições, pistas falsas e mensagens segregacionistas, para que se formassem equipes concorrentes. Cada um desses manuais dá explicações diferentes para as questões mais intrigantes do jogo: a verdade, a injustiça, o sofrimento e a morte. Evidentemente, nenhuma delas é totalmente correta, senão o jogo estaria arruinado e o tédio voltaria à eternidade. Além disso, os manuais trazem histórias de traição, guerra, genocídio, idolatria, preconceito, amor, ódio, paixão, ciúme... Tudo para instigar os participantes. Ah!, o elevador chegou. Bem vindo ao Inferno!»

«O Diabo e o Filósofo», 2.º lugar do Prémio Nacional Trindade Coelho (Município de Mogadouro).

segunda-feira, 7 de março de 2011

A migração das bundas

Estava buscando uma programação alternativa à exibição dos bailes e desfiles carnavalescos. Caí em um documentário sobre a bunda. Isso mesmo, o legítimo do(cu)mentário, chamado "Preferência nacional", tentou antropologizar, sociologizar e dar tratamento jornalístico ao tema. No desfile, abundavam as lantejoulas; no documentário, as bundas cintilavam. Até tentei assistir, mas não houve tratamento que salvasse a bunda de seu destino inexorável de lugar-comum. Intelectualizar os glúteos é tão despropositado quanto erotizar a Academia. Aliás, a academia que dá melhor tratamento à bunda continua sendo a de ginástica.

 
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