sábado, 30 de abril de 2011

Cadernos de viagem: chegando ao Porto

Após a frustração do episódio "Mr. Bean em Lisboa", encenado por mim, comi um pastel de Belém na Estação Ferroviária de Santa Apolónia. Porém, segundo os especialistas, o de Belém mesmo é imbatível. Comprei um cartão telefônico e custei a entender a lógica da coisa, com muitas senhas para digitar, até que, após muitas tentativas e erros, consegui ligar para meus familiares. Fiz um lanche rápido para não enjoar no trem (comboio, para eles). Um dos truques para evitar os enjôos foi fixar o olhar na paisagem distante. Olhar para o que estava perto devolveria a sandes de chourição, o sumo de laranja e o pastel de Belém para o solo português - ou pior, para o colo da portuguesa que estava viajando ao meu lado. Achei que, à medida que nos aproximávamos do Porto, as mulheres iam ficando mais bonitas. Os especialistas (outros) dizem que não há diferenças significativas e isso foi obra do acaso ou do dia da semana. Gostei muito da paisagem tranquila, com casinhas de dois andares, quase todas com a bandeira portuguesa em razão da Euro 2008. A estação ferroviária em que desci (São Bento) era belíssima, com pinturas em azulejo, e o motorista de táxi que me conduziu ao hotel foi extremamente antipático. Isso é engraçado, em Portugal os extremos de simpatia e antipatia são mais comuns do que os casos intermediários. Para ilustrar as diferenças de comunicação, quando perguntei ao motorista se era fácil encontrar um moedeiro como o dele, a resposta foi "Não." Bateu a porta do táxi e saiu. Talvez seja culpa desse jeito brasileiro de perguntar indiretamente. Da próxima vez eu perguntarei com todas as letras "Onde se pode comprar um moedeiro equivalente ao seu?", porque se perguntar "Onde posso comprar esse moedeiro?", ele responderá "Em lugar nenhum, pois não estou a vender". Cheguei ao Hotel Malaposta ao final da tarde, peguei os mapas e informações, assisti ao jogo de Portugal na TV e saí para jantar ali perto. Recebi então o outro extremo, um tratamento bastante cordial do dono do pequeno restaurante onde comi "Tripas à moda do Porto" com meia garrafa de vinho do Alentejo. As tripas estavam ótimas, o que eu não sabia é que já tinha provado esse prato no Brasil com outro nome. O vinho estava mediano e o ponto alto mesmo foi a sobremesa: Neve do Céu. Uma coisa deve ser dita: os portugueses sabem fazer doces gostosos! Voltei para o hotel e na TV aberta as opções eram noticiários portugueses, novelas brasileiras ou enlatados americanos. O Antônio Fagundes que me perdoe, mas fiquei com o noticiário. O plano para o dia seguinte foi traçado: um passeio no autocarro turístico, com todo o cuidado do mundo para não perder o bilhete novamente, com paradas nas Igrejas de São Francisco e Santa Clara e, se possível, uma passada em uma das vinícolas em Vila Nova de Gaia, onde é fabricado o vinho que leva o nome da cidade vizinha. A febre passou e no dia seguinte a dor de garganta desceria para o joelho, mas isso já é uma outra narrativa.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Pegaram Tiradentes para Cristo

Tiradentes e Jesus, nas versões míticas que a eles sobreviveram, têm muito em comum. Isso se deve ao fato de certos grupos institucionalizados gostarem de nos fazer de bobos. Tiradentes foi um pobre coitado que se meteu com uma turminha da oligarquia mineira, cansada de pagar impostos à coroa portuguesa. Como militar, não devia usar barba ou cabelos compridos. Mesmo se usasse, provavelmente os teria raspados ao ser preso. Peixe pequeno, foi quem serviu de exemplo para quem ousasse fazer o mesmo, sofrendo uma morte indigna e tendo seu cadáver profanado pelo ultraje de um esquartejamento. A maioria dos outros conspiradores, mais bem nascidos, sofreu apenas o exílio. O Jesus histórico, por sua vez, era provavelmente um profeta judeu que encheu muito a paciência dos manda-chuvas do templo, sendo entregue aos romanos como um agitador político. Duvido muito que tenha sido loiro de olhos azuis e certamente não foi pregado na cruz pelas palmas das mãos, mas sim pelos pulsos, do contrário a carne se rasgaria e ele despencaria lá do alto. Morreu uma morte banal, comum aos criminosos da época e, não fora o fato da versão dos Padres da Igreja prevalecer sobre as versões gnósticas, seria apenas mais um exemplo da crueldade humana. Porém, matar um deus - e ainda por cima o Deus único - é muito mais grave e serviu de pretexto para que judeus fossem perseguidos durante muito tempo. Curiosamente, esperava-se de Jesus que fosse um líder político (nos estudos sobre o tema há variações entre ter sido um rebelde zelote ou um terapeuta essênio), como supostamente Tiradentes haveria sido. Até a versão do nascimento em Belém e da fuga para o Egito tenta dar um jeitinho no inconveniente de ter provavelmente nascido em Nazaré, uma vez que o Messias, pelo que diziam os profetas, deveria vir de Belém. Tiradentes e Jesus morreram porque é isso que ocorre aos que criam inconvenientes aos poderosos. Mesmo não acreditando em um décimo das mentiras inventadas a respeito de ambos, simpatizo com os ideais cristãos e republicanos. Isso sem falar nos feriados...

terça-feira, 12 de abril de 2011

De volta ao Universo Paralelo II

Banheiros públicos são famosos pelas inscrições nas portas dos reservados: de quadrinhas bem humoradas a telefones para programas, passando por desenhos fálicos, o impulso milenar de deixar inscrições encontra formas de expressão típicas. Porém, o inusitado nos acompanha até na casinha. Em certo restaurante de beira de estrada, em lugar das habituais inscrições, um sujeito não identificado deixou inscritas blasfêmias utilizando diversos nomes (atributos) da divindade em hebraico, as quais encontrei em uma incursão por motivo de força maior.  Pensando bem, pode ser a prova da existência do Judeu Errante, da lenda: Ahasverus passou por Biguaçu. 

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Ambiguidades

Machado de Assis teve uma grande sacada ao deixar em aberto a situação entre Capitu e Bentinho. Entre hipóteses de traição e paranóia ainda despontou uma terceira vertente, a de que os reais ciúmes de Bentinho se referiam ao amigo Escobar, mais do que à esposa, sugerindo outras tonalidades para o triângulo amoroso. O interessante destas situações abertas é que cada um as interpreta conforme sua visão de mundo, identificações, crenças e valores. Há uma lenda sobre as origens da Alquimia que refere que um anjo de uma dimensão elevada, encantado pela beleza da deusa Ísis, deu-lhe uma cantada e ela impôs a seguinte condição: ensine-me os segredos da Alquimia, que eu topo. Porém, a historinha deixa em aberto se Ísis deu ou não ao anjo aquilo que ele desejava. O que você acha que aconteceu?

a) Ísis enrolou o anjo, aprendeu os segredos da Alquimia e desconversou depois, fazendo-se de desentendida;
b) Ísis cumpriu o combinado, afinal de contas já tinha empenhado sua palavra.
c) Ísis já pretendia mesmo dar para o anjo, aproveitou e levou de lambuja os segredos da Alquimia.
d) O anjo enrolou Ísis, contou qualquer coisa como se fossem os segredos da Alquimia e se deu bem.

Pois é, o que você acha tem muito a dizer sobre quem você é e com quem se relacionou.

 
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