segunda-feira, 25 de julho de 2011

Os seres subterrâneos de Floripa - parte 2

 Ao final da década de 70, já havia duas pontes ligando a ilha ao continente. Havia TV pública com apenas duas opções: TV Coligadas, que, com um mínimo de programação local, retransmitia a programação da Rede Globo; TV Eldorado, que retransmitia a programação da TV Bandeirantes. Em 1979, chegou ao estado o grupo RBS, substituindo a TV Coligadas e rapidamente se expandindo pelo estado. O comércio estava concentrado no bairro Centro e – se não me falha a memória - fechava no horário de almoço. Havia dois ou três cinemas na cidade (lembro do Cine São José e do Cine Ritz), o campo do Avaí ficava onde hoje está o Beiramar Shopping. Algumas mudanças haviam ocorrido recentemente, como o aterramento da Baía Norte e da Baía Sul e a inauguração do calçadão da Felipe Schmidt. No futebol, além da divisão entre Avaí e Figueirense, muitos ilhéus torciam também para times de centros maiores, principalmente Vasco e Flamengo, uma vez que os times catarinenses não iam longe no campeonato nacional - descontando-se uma razoável participação do Figueirense de Balduíno em 1975 (21o lugar). Como pré-adolescente, não circulava pela noite da cidade, nem prestava atenção em questões econômicas, políticas ou sociais. Percebia, no entanto, que era necessário torcer por um time local e aprender “Manezês” para não ser discriminado na escola. A relação dos ilhéus com os forasteiros sempre foi ambivalente: amor, devido à admiração que sentiam/sentem pelo lado mais cosmopolita dos que vêm de centros maiores; ódio pela ameaça que representam aos seus empregos e costumes. Apesar disso, tanto a cordialidade típica do povo daqui (excluindo-se a pretensa “elite”), quanto os interesses nas atividades comerciais e no turismo, fazem com que prevaleça o lado amoroso. Isso, claro, desde que não se tratem os ilhéus com desrespeito e desdém, quando estão certíssimos em dizer: “se não gosta, vá embora!” De underground, lembro apenas dos Hippies na Praça XV - dos legítimos, com direito a viver de artesanato, a roupas furadas, pouco banho e amor livre.
A década de 80, marcada pela abertura política e redemocratização do país, abriu novamente espaço para os artistas brasileiros no cenário cultural da nação. Ainda tínhamos (ou temos) uma grande importação de enlatados americanos para TV e as rádios continuavam a tocar música estrangeira em sua programação, mas havia uma revitalização da produção, com surgimento de bandas como Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial, Legião Urbana, entre outras. A MPB também voltou à cena, com o surgimento/ressurgimento de artistas e conjuntos como Guilherme Arantes, Osvaldo Montenegro, Boca Livre, 14 Bis, A Cor do Som, entre outros. A fundação do Centro Integrado de Cultura (CIC), em 1982, possibilitou a criação/ampliação de possibilidades de desenvolvimento artístico-cultural, com oficinas de artes, museu, teatro e uma sala de cinema com programação diferenciada. Ampliava-se o acesso à produção cinematográfica européia e asiática, bem como aos espetáculos musicais e teatrais brasileiros. Embora houvesse a queixa de que muitos espetáculos “sobrevoavam” Floripa, indo direto de Curitiba a Porto Alegre, assisti a muita coisa boa naqueles tempos. A presença da RBS, assim como a criação da Rede Barriga Verde e do Sistema Brasileiro de Telecomunicações (SBT) trouxe mais profissionalismo para as comunicações. A concorrência, assim como uma pequena ampliação da programação local, facilitou o acesso à informação, embora a programação não fosse lá uma maravilha. Embora os aparelhos de videocassete já existissem no exterior, foi na década de 80 que se popularizaram no Brasil, o que implicou no surgimento de locadoras de vídeo e na possibilidade de escolher os filmes a assistir em casa, muitos dos quais não eram exibidos nos cinemas da cidade ou nos canais de televisão. A cidade apresentava um perfil de pólo administrativo e educacional do estado, além de sua natural vocação turística. Também eram dados os primeiros passos para o desenvolvimento de empresas ligadas à tecnologia, com a criação do Centro para Laboração de Tecnologias Avançadas (CELTA), uma incubadora tecnológica mantida peal Fundação CERTI. Chamava-me a atenção a enorme procura dos cursos de Administração e Direito pelos florianopolitanos de classe média e classe média-alta, visando o ingresso no serviço público ou a continuidade dos escritórios dos pais (herdados dos avós). Já a “classe” alta (de seis a doze pessoas, pelas minhas contas) ficava onde sempre esteve, herdando e administrando negócios de família. Na falta de uma classe com poder aquisitivo efetivamente alto, uma parte da classe média-alta tentava mimetizar a classe alta de outros lugares. Isso, claro, a custa de sacrifícios em nome das aparências cultivadas nas colunas sociais. Já a classe média-baixa era constituída basicamente de comerciários simpáticos, afáveis e ainda bastante amadores. A classe de baixo poder aquisitivo era formada principalmente por filhos mal-sucedidos de pescadores e migrantes do oeste do estado, estes últimos vindo ao final da década de 80 em busca de empregos na construção civil. Devido a aspectos cambiais, os turistas argentinos tomaram conta da ilha nos verões do início da década, forçando os comerciários a aprenderem espanhol – ou no mínimo um portunhol. Empresários locais e de fora, percebendo as possibilidades econômicas do turismo, ampliaram os investimentos na cidade, destacando-se Jurerê Internacional e o Shopping Itaguaçu. As mudanças na situação econômica argentina obrigaram os empresários a tentar atrair turistas de outros locais, os quais acabavam se fixando na cidade em busca de qualidade de vida. Da metade da década de 80 em diante, aumentou também a procura por vagas na UFSC por parte de pessoas de outros estados. Destacavam-se os temíveis “CDF japoneses” (vindos de São Paulo e do Paraná), que além de conquistarem as vagas do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, passavam a “atacar” também os cursos de Medicina, Odontologia, Engenharia, Agronomia e Ciências da Computação. O mercado para cursinhos pré-vestibulares se ampliou, levando a cisões nos cursinhos Barddal e Barriga Verde, formando-se então os cursinhos Geração e Energia, os quais se expandiram rapidamente e passaram a disputar o mercado do ensino médio com as escolas mais tradicionais de Florianópolis. Até a metade da década de 80 a vida noturna da cidade tinha como pólo principal a Av. Beira-mar Norte, com grande concentração de bares e casas noturnas (Chaplin, Yellows, Chico’s, Vagão, Shampoo, Baturité, Dizzy, etc.). Progressivamente, este pólo foi se deslocando para os bares da Lagoa da Conceição e arredores (Jungle, Ponto de Vista, Bar do Érico, etc.). Além disso, havia os bailes nos clubes sociais e estabelecimentos mais do povão (Clube Avante, Sociedade Amigos da Lagoa, Bailão do Albino, etc.). Underground nos anos 80 poderia significar ser alternativo e morar na Lagoa, ser um estudante ou professor de esquerda, ser GLS ou, como no meu caso, não pertencer a nenhum destes grupos e estar insatisfeito com as tendências majoritárias da cidade.

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