domingo, 24 de julho de 2011

Os seres subterrâneos de Floripa - parte 1

Este texto foi publicado no site Under Floripa no início do século, mas conserva um valor de memória. Por sugestão de amigos, torno a publicá-lo.

 Você sabe o que é ser “under” em Floripa? Eu não sei ao certo, mas tenho uma leve desconfiança de que o sou. Por que isso acontece? É que ser underground em Florianópolis não é o mesmo que em outros lugares do mundo, ou mesmo do nosso país. Este texto parte de um passeio por minhas lembranças e reflexões sobre estar à margem de Florianópolis - a sensação de estar dentro da cidade, mas a recíproca não ser assim tão verdadeira. Está longe de ser um ensaio histórico, sociológico, antropológico ou psicológico, apesar de algumas breves incursões nestas áreas.
O termo underground (subterrâneo) já foi empregado de diferentes formas ao longo dos tempos. Na União Soviética pós-stalinista, a literatura samizdat (auto-publicada) – crítica com relação ao governo – foi um movimento underground. O mesmo se pode dizer das diversas formas de resistência política, sejam a sul-africana ao Apartheid, a polonesa ao Nazismo ou o coreano Movimento 1o de Março. Os grupos terroristas da Irlanda, basco e os islâmicos, haja vista sua ação clandestina, também podem ser considerados movimentos subterrâneos. Da mesma forma, a classificação vale para o crime organizado: Máfia, Yakuza, Tríades chinesas e tantas outras organizações. Além da resistência política, a resistência cultural – seja ela à tradição, à cultura pop, aos padrões estéticos e à moralidade dominante, ou ainda ao consumismo – também se enquadra no conceito de underground. Servem como exemplos o movimento beat, a contracultura, punks, góticos, vegans, emos, todos os herdeiros da contestação e também os rebeldes sem causa. Em síntese, tudo o que foge à ordem estabelecida, à cultura hegemônica, ao que transcorre às claras, pode ser dito subterrâneo.
Para conhecer os subterrâneos de Floripa, no entanto, é preciso estar familiarizado com a superfície. O desenvolvimento de Florianópolis – ao meu ver - deu-se através de saltos associados ao fluxo de correntes migratórias, da tensão entre os costumes vigentes e os hábitos trazidos pelos recém-chegados, assim como dos fenômenos sócio-econômicos envolvidos. Ao contrário do que pensam os entusiastas do movimento “Fora, Haole!”, os únicos nativos de fato em Floripa eram os índios tupi-guaranis. Assim sendo, a menos que você use pinturas corporais, more em uma oca e atire flechas, um ancestral seu veio de São Paulo, do Rio Grande do Sul, do Paraná, da Argentina... E os ancestrais de seus ancestrais vieram da Ilha dos Açores, da Espanha, da Itália, da Alemanha, do Japão ou de qualquer outro ponto do planeta. Vou falar sobre a história da cidade para assinalar alguns marcos na urbanização, pois a tensão entre aspectos provincianos e cosmopolitas me parece fundamental para se entender o que é under em Floripa. A povoação de Nossa Senhora do Desterro – primeiro nome da cidade - iniciou-se com a vinda de Francisco Dias Velho por volta de 1675, seguido de paulistas e vicentistas. A partir de 1739, quando foram erigidas as fortalezas, deu-se a ocupação mais efetiva da ilha, com a vinda de Açorianos e Madeirenses. Em 1823, ao ser declarada capital da Província de Santa Catarina, a cidade recebeu investimentos federais e passou por um período de desenvolvimento e prosperidade. Com a proclamação da República, o Marechal Floriano Peixoto veio esmagar as resistências ao novo governo, torturando e matando muitos na chamada Chacina de Anhatomirim. Após este lamentável acontecimento, o nome da cidade foi modificado para Florianópolis, homenageando o referido militar. Já se tentou modificar o nome da cidade, voltando a “Desterro”, mas os comerciantes não simpatizaram muito com a idéia: a “marca” já estava criada e quem entende de marketing sabe o quanto custa recuperar os clientes – no caso, turistas. No entanto, pelos motivos já apontados, o nome não é muito simpático aos manezinhos. Saltando um pouco no tempo, em 1979, quando resolveu homenagear o Marechal Floriano com uma placa, o presidente Figueiredo enfrentou manifestações de estudantes, que apedrejaram o palácio do governo, arrancaram a placa e a queimaram em praça pública. Homem de temperamento forte, o presidente resolveu enfrentar pessoalmente os estudantes... E apanhou! Teria sido a “Novembrada” um momento underground de Floripa (ou de Desterro)? Retornando no tempo, temos um ponto importante na vida cultural da cidade: a fundação do Teatro Santa Isabel em 1875, que teria seu nome trocado para Teatro Álvaro de Carvalho (TAC) em 1894 em homenagem ao primeiro dramaturgo catarinense. O século XX marcou as transformações mais profundas em Florianópolis associadas à construção civil, com progressos na rede elétrica, no saneamento e outros aspectos da infra-estrutura da cidade. A construção da. Ponte Hercílio Luz, em 1926, facilitou o acesso à ilha, liberando os moradores do precário serviço de balsas. A vocação de cidade universitária deu seus primeiros passos em 1932, com a criação da faculdade de Direito, prosseguindo com a criação da Universidade Federal de Santa Catarina em 1960 e culminando hoje em uma grande quantidade de instituições de ensino superior, entre universidades, centros de ensino superior e faculdades. Este processo trouxe professores de outros estados, principalmente do Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, que aqui se instalaram com suas famílias, contribuindo para a descentralização da cidade e o desenvolvimento de bairros como a Trindade e o Pantanal. Quanto ao serviço público, além de manter a administração pública estadual, em meados da década de 70 a vinda das Centrais Elétricas do Sul do Brasil (ELETROSUL) trouxe outros grupos de migrantes: cariocas, mineiros, gaúchos, cearenses, entre outros, acostumados à vida na antiga sede – Rio de Janeiro. Até aqui me vali de dados históricos obtidos na internet em fontes como IPUF, Wikipedia, Guia Floripa; passo a seguir a me valer principalmente das minhas memórias – falhas, parciais, às vezes preconceituosas, tipicamente de classe média, porém minhas.

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