domingo, 26 de agosto de 2012

Pausa para reflexão

Estou há quatro anos postando aqui no blog Soco no Figo. Inicialmente as postagens se davam em dias alternados, até que progressivamente caminharam para um ritmo menos regular e mais lento. Por fim, tentei manter ao menos duas postagens mensais. Na blogosfera, se você não atualizar o conteúdo com certa frequência, seu blog acaba caindo no esquecimento. O objetivo inicial era ter uma vitrine para alguns textos, de modo a divulgar meus livros. Depois abriu-se a possibilidade de dialogar com leitores e conhecer pessoas com interesses semelhantes. Agora é hora de parar para refletir se o blog fica do jeito que está  para leituras retrospectivas, se continuarei atualizando ou se sofrerá modificações. Atualmente, além de outras obrigações profissionais, estou pesquisando para escrever um romance. No único mês que passou sem postagens (coincidentemente o de Agosto) um leitor ficou preocupado, com receio de que eu estivesse em outro plano cósmico. Então fica dito que estou vivo, apenas em uma pausa.  Divirtam-se com as postagens antigas, enquanto isso. Abraços.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

O leão diário


É preciso ter muita coragem para representar o Brasil no esporte. Tirando o futebol, que paga aos atletas de elite verdadeiras fortunas, a realidade costuma ser muito diferente: vidas sacrificadas, dificuldades em obter patrocínio, pouco intercâmbio, difícil acesso a treinamento de ponta. Quando o camarada leva um tombo, perde um jogo ou não se classifica, ainda tem que suportar desaforos dos jornalistas e da torcida, manchetes com termos ofensivos (fiasco, fracasso, vexame), como se algum de nós tivesse de algum modo patrocinado aquelas pessoas. Já disse aqui antes: perder é a regra, ganhar é a exceção. Essa mentalidade egocêntrica, que nega ao outro o direito de vencer de vez em quando, só se justifica em crianças pequenas, ainda incapazes de se colocar no lugar do outro. Queria ver só se os judocas ficassem assistindo aos vendedores e dizendo: “Josimar deu vexame nas vendas desse mês e não atingiu as metas!” Ou os ginastas acompanhando os advogados e declarando: “fiasco da Dra. Ronivalda na ação de alimentos”. Você pode argumentar que os outros profissionais não estão representando o Brasil. Pois eu digo que é pior: eles são o Brasil.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Cadernos de viagem – o Porto dos ancestrais


Faz tempo que não menciono minha viagem a Portugal e Espanha, mas arrumar as malas traz este registros à memória. Continuando a postagem de 30 de abril de 2011, cidade do Porto. Tomei um pequeno almoço (café-da-manhã) saboroso, porém sem extravagâncias no Hotel Malaposta. Parti em busca da estação rodoviária para garantir meu bilhete para Mogadouro, de modo a não perder a cerimônia de premiação. Para variar um pouco, perdi-me na cidade, mas por fim encontrei o terminal da Rodonorte. Bilhete comprado, fui para o tour no autocarro (ônibus) turístico. O joelho começou a incomodar e eu suspeitei que estava macumbado, mas foi temporário. A manhã era chuvosa e o mar estava de ressaca, mas achei bela a cidade, com suas igrejas e azulejos. Passei pela torre do Clérigos, pela Igreja das Carmelitas e outras edificações de valor histórico e arquitetônico, ouvindo uma bela música que achei equivocadamente que fosse Madredeus, depois quis reencontrar e não pude. Desci perto da Igreja de São Francisco, que achei muito bonita, e fiquei pensando no nosso ouro, que passou de Portugal à Inglaterra. Desci às catacumbas em busca de algum ancestral perdido, mas aparentemente não eram tão abastados. Dali fui ao Grémio dos Leitões, onde comi feito um rei (um rei gordo, evidentemente): uma entrada de pequenas porções de polvo, tripas e orelhas de porco, acompanhadas de pão. Como prato principal, uma porção de leitão acompanhada de meia garrafa de vinho Sarmentinho tinto. Encontrei brasileiros pela cidade e me recomendaram que experimentasse uma “francesinha”, sanduíche típico da cidade. Fiz novamente o tour no autocarro, parei perto da estação ferroviária e tentei mandar um e-mail para os familiares, mas Portugal está cheia de imigrantes que mal falam o idioma e prestam serviços de péssima qualidade. Tá certo, os caras precisam sobreviver, mas é uma complicação para quem precisa ser cliente. A tal da lan house era simplesmente inoperante, uma vez que a banda não cobria o número de usuários. Paguei o tempo mínimo e fui embora dali, caminhando em direção à Igreja de Santa Clara, que estava fechada antes do horário previsto. Sim, os hábitos brasileiros não se formaram do nada. Não cheguei a parar nas vinícolas em Vila Nova de Gaia, tampouco a beber um vinho do Porto (aquele enriquecido, afinal todos de lá seriam teoricamente do Porto, embora fabricados na cidade vizinha). Como a igreja estava fechada, aproveitei que estava perto e fiz uma visita à Universidade Lusófona do Porto, identificando-me como Professor de Psicologia. Fui muito bem tratado e saí de lá com alguns prospectos da Universidade. No fim da tarde, o joelho voltou a reclamar e as longas caminhadas provocaram assaduras. Comprei uma pomada que, segundo a bula, era especial para “o rabinho do bebê”. Aparentemente, também era adequada às partes internas das coxas dos adultos e curou-me rapidamente. Descobri uns sebos nas cercanias do hotel e aproveitei para adquirir um livro de Trindade Coelho e outro sobre o Algarve. Fui abençoado com um estômago de aço e o leitão não me causou nenhum revertério. Porém, à noite eu comprei umas frutas e suco abstendo-me de orgias gastronômicas – pelo menos até o dia seguinte.

sábado, 16 de junho de 2012

Os prós e contras da Eurocopa


Aqui estão dois grupos de mulheres se manifestando acerca da Eurocopa. O grupo de cima é contra porque aumenta o índice de exploração sexual das mulheres. O grupo de baixo é a favor porque aumenta a renda da exploração econômica dos homens. Pela marcante diferença de conduta entre os dois grupos, acho que fica um recado bem claro: quando tem futebol na jogada, é preciso apelar para que os homens lhe deem atenção.

sábado, 2 de junho de 2012

Rotos e esfarrapados

No Brasil, não vale muito a sua conduta, mas sim o seu carisma e a sua cara-de-pau. Vejam o exemplo dos Ronaldos: o fenômeno fez de conta que ia pro Flamengo, deu uma guinada de mercenário e foi para o Corinthians, virando corintiano desde criancinha. O gaúcho fez a mesma coisa em relação a Grêmio e Flamengo. O fenômeno não conseguiu entrar em forma ou jogar bem em função de hábitos incompatíveis com vida de atleta. Idem para o gaúcho. O fenômeno ganhou um estadual jogando parado em campo, depois foi eliminado de uma Libertadores. Idem para o gaúcho. Só que o fenômeno é amigo do Ricardo Teixeira, agencia jogadores, chora na TV depois que faz alguma besteira (como a dos travecos), alega problemas endocrinológicos para não conseguir entrar em forma, enquanto o gaúcho fica quieto, levando sua vida de baladeiro e processando o Flamengo por ser um clube que finge que paga, conforme já disse o Vampeta. Aí você olha o Demóstenes, o Jefferson, o Calheiros, o Collor, todos se alternando no papel de mocinhos e bandidos, todos com o rabo preso e o telhado de vidro, todas as CPI até hoje já vistas terminando em pizza ou em renúncia aos 44 do segundo tempo e fica claro que o Brasil é um grande circo onde os palhaços somos nós, que ficamos passivos na plateia.

sábado, 12 de maio de 2012

Do amor à camisa

Domingo será dia de clássico em Florianópolis. Ou seja, dia de ficar em casa, porque os torcedores estarão meio enlouquecidos, dada a paixão pelos clubes da ilha e do continente. Estive examinando os elencos e descobri que dos jogadores listados nos sites oficiais dos clubes, nenhum é natural de Florianópolis. O que chega mais perto é o jogador Jackson, de São José/SC, que faz parte da Grande Florianópolis, mas é município independente. Este, talvez, tenha algum sentimento pelo clube que não o profissional-oportunismo. Por outro lado, foi essa profissionalização do tipo legião estrangeira que permitiu que o futebol se equilibrasse Brasil afora. Lembro-me que antes os torcedores florianopolitanos torciam sempre para um time do Rio ou de São Paulo além de seu time local porque os daqui não tinham chance de fazer uma campanha digna no Brasileiro. Os patrocínios nas camisetas empurraram o amor à camisa do campo para as arquibancadas. E dá-lhe neguinho comprando os abadás modelos novos. 

sábado, 28 de abril de 2012

Maior o tombo



Basta deixar de ler os jornais por um mês e, ao voltar, tem-se certeza de estar maluco. O Barcelona era o time do milênio e Messi era melhor do que Pelé há menos de duas semanas. De repente, com a perda do Espanhol e a eliminação da Copa dos Campeões, Barcelona é um time acabado e Messi é um fracasso. Depois eu digo que ser comentarista esportivo não é um trabalho sério e é capaz de me processarem. Foram dois ou três jogos sem a equipe vencer e o castelo de cartas que eles (os jornalistas) construíram desmoronou. Estava na cara que cedo ou tarde os times grandes encontrariam um meio de vencer o Barcelona, mesmo que em oportunidades isoladas. O jeito de jogar passa a ser estudado e testam-se formas de marcação. Mas não adianta, esporte é fábrica de deuses e heróis e é preciso matar um leão por dia, como diz o clichê. Aí a garotada começa a perceber quem foi Pelé. Eu, que acompanho futebol desde 1979, tenho a convicção de que, não fosse pela contusão em 98 e pelo Felipão em 2002, Romário seria considerado pela imprensa o segundo melhor da história, à frente de Maradona. Porque não basta jogar bonito e vencer em clubes, como Zico, Falcão e Platini, tem que ter copas do mundo pra mostrar. Vencer tudo, vencer sempre e dando show. Menos do que isso não serve à volúvel crônica esportiva. Eu já disse: no esporte a regra é perder, o campeão é exceção. Na reta final vale mais a sorte do que a competência, porque é tudo muito parelho. Mas não adianta, é preciso encontrar um bode expiatório e fazer a dança das cadeiras. Não duvido do Flamengo se endividar e contratar o Guardiola, em vez de corrigir aquele miolo de zaga fraquinho. Pelo menos uma coisa ficou boa: futebol com monopólio de vitórias perde toda a graça.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Respostas tardias para buscas perdidas - VIII

Embora os pinguços pobres ainda venham atrás receitas de ice caseira, os portugueses de pinto pequeno procurem os efeitos do leite de figo e os estudantes da turma do fundão confundam Marilena Chauí com Marilene Shaolin, ainda há quem inove e chegue ao Soco no Figo em busca de outras respostas. Por vezes, como na vida, elas chegam tarde demais. É para estes inquietos questionadores que trago uma nova rodada de “respostas tardias para buscas perdidas”.

Feto vascaínos
Não existem fetos vascaínos, pois já foi provado cientificamente que esta é uma característica adquirida (aprendida) e não herdada. A prova: caso fosse uma característica presente nos genes, levando-se em conta que a maioria das mulheres odeia futebol, ser vascaíno estaria ligado aos genes do pai, portanto presente em seus espermatozoides masculinos, no cromossomo Y. Na corrida rumo ao óvulo, um espermatozoide vascaíno chegaria invariavelmente em segundo lugar, perdendo para um espermatozoide feminino,  não sendo portanto o responsável pela fecundação. Isto faria com que os vascaínos só tivessem filhas, o que não é verdadeiro, invalidando a hipótese de transmissão genética.

hóspedes indesejáveis, baratas assassinas
A arte ninja de treinamento de baratas para assassinar hóspedes indesejáveis se perdeu com as bombas de Hiroshima e Nagasaki. As baratas sobreviveram, os treinadores não.

marco nanini logaritmo
Você encontra entre “Ney Latorraca inequação” e “Diogo Vilela trigonometria”

qual o nome desse filme?
Acabei de dizer.

Quero usar caneta comestível com o meu namorado
Os seus pais trabalham no Google?! E então, eles deixaram?

Como big macky engrossar o pau
Tarzan, parece que o Ronald McDonald mentiu para você...

proibido dar o cu
Bolsonaro, você por aqui?!

ser tratada como cachorra no sexo com um português
Você pode pedir para ele comprar ração Royal Canin e uma coleira anti-parasitária preventex, que são vendidas por lá.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Cosmogonia apócrifa

No continente perdido de Mu havia o seguinte mito cosmogônico: Chiuautlua, o deus único, sentiu uma forte cólica. De suas fezes, surgiram a terra e tudo o que é sólido; de sua urina, os mares, rios e tudo o que é líquido; de seus flatos, o vento e tudo o que é gasoso; de seus vermes, criaram-se todas as formas de vida. Para ver sua obra, Chiuautlua acendeu o Sol, criando assim o fogo e tudo o que é luminoso. Por esta razão, os sacerdotes de Mu sacrificavam os inimigos e infiéis ao deus único mediante caros ritos de purificação, sendo obrigação de todos destinar à classe sacerdotal parte substancial de suas riquezas. Caso contrário, na falta de alimento purificado, Chiuautlua poderia ter outra cólica e criar um novo universo, precipitando o atual em colapso. Tecalteplan, um nobre e livre pensador, questionou o rei-sacerdote, dizendo que um deus tão grande a ponto de criar o universo a partir de seus dejetos forçosamente deveria ser visível, tal o seu tamanho. Além disso, se nada havia antes da cólica de Chiuautlua senão ele próprio, de onde teria o deus obtido o alimento que deu origem ao universo? O rei-sacerdote respondeu que um deus tão sábio quanto Chiuautlua saberia se esconder de seus inimigos para não ser atingido por suas flechas, por isso não era visto. Quanto ao alimento, o deus único comeu o sexto dedo de cada uma de suas mãos, razão pela qual até hoje os homens nascem com cinco dedos. Ato contínuo, mandou sacrificarem Tecalteplan, observando rigorosamente o ritual.

quinta-feira, 22 de março de 2012

O fim do humor 3

Em tempos politicamente corretos e de histeria punitiva, a chamada “censura do bem” deu as mãos à indústria das indenizações também aqui no Brasil. Este mau costume norte-americano de exagerar na vitimização para encher os bolsos não demorou a vingar aqui, onde o sonho do dinheiro fácil já estava presente para deixar a terra bem fértil. A discussão que deveria estar na mesa é “qual o papel do humor na sociedade?”. Nesse sentido, os bobos da corte já davam o tom: o humor serve para a relativização do poder. Alguém deve ter condições de apontar o ridículo do rei sem ser decapitado por isso. O politicamente correto, em uma espécie de guerra santa, vem criando grupos de intocáveis, sob pena de ataques ao bolso e à liberdade. Quem conhece a natureza humana e tem irmãos mais novos sabe que o tiranizado, ao receber poder, geralmente vira tirano e não um justo. Isto posto, vamos ao caso mais recente de “humoricídio”. Alguns humoristas, movidos pela nova onda de intocabilidade e correção política, resolveram criar um espetáculo politicamente incorreto, exagerando nas tintas do mau-gosto, porém deixando claro do que se tratava e fazendo o público assinar que não se ofendia com esse tipo de coisa, dado o caráter absurdo que o espetáculo assumiria em seu exagero proposital. Mesmo não tendo valor legal, o documento ajudava a mapear o estado de espírito de supostos ofendidos. Teve uma brecha: os músicos do espetáculo não assinaram o documento. Resultado: a caça às bruxas vai atrás do demônio em cada cantinho, por mais recôndito que seja. Ora, se você fosse a uma casa de swing, denunciaria alguém lá de dentro por atentado ao pudor? As portas estão fechadas, entra quem quer e todos sabem o que acontece lá dentro. Se você fosse assistir a um torneio de boxe, denunciaria os lutadores por lesões corporais graves? Você sabe do que se trata ao entrar lá, comprou ingresso para isso. Aí eu pergunto: e se a garçonete do swing afirmasse estar chocada com a promiscuidade, você levaria a sério uma denúncia de atentado ao pudor? Se o faxineiro que carrega o balde de cuspe no boxe ficasse indignado com as agressões físicas e denunciasse o nocauteador por lesões corporais graves, você diria que ele realmente não esperava encontrar aquilo por ali? Se você fosse um jogador de futebol e estivesse na concentração, caso fosse impedido de sair para a farra, denunciaria o técnico por cárcere privado? Com o oba-oba das denúncias e indenizações, logo isso vai começar a acontecer, em uma cruzada contra a promiscuidade, a violência e outra destas bandeiras que tanto enchem de orgulho os paladinos no combate aos malvados do mundo. É com essa mentalidade que surgiram as cruzadas, a jihad, o fascismo, o nazismo, o comunismo e tantos “ismos” que, em regimes totalitários, prometem livrar o mundo do mal às custas de políticas de intolerância (que é mais bonito chamar de tolerância zero). Daqui a pouco o Rafinha Bastos seguirá o exemplo do Tiririca e se elegerá deputado para... (nem vou concluir, para não indenizar ninguém).

Preconceito é uma nojeira, mas censura é outra. O mais curioso, lembrando do processo de abertura política no Brasil, é que logo depois do final da censura o humor brotou de forma iconoclasta, não respeitando a nada e a ninguém, mas depois disso se pasteurizou. Os mesmos cassetas, planetas e afins, que estampavam manchetes como “candidatos epiléticos se debatem na TV” ou diziam coisas como “em minha mulher, bato eu!”, tornaram-se bastante comedidos quando a liberdade de expressão passou a ser algo cotidiano. O que temo é que o ressurgimento da censura, ainda que de forma camuflada, acabe por gerar uma força contrária e dê munição para os grupos extremistas, fortalecendo a doença que pretendeu exterminar. O melhor remédio contra o humor tosco é não rir dele, mas perguntar “onde está a graça dessa piada besta?”

sábado, 17 de março de 2012

Da relatividade do nojo


O cauim é uma bebida alcoólica preparada pelos índios. Para que os açúcares da mandioca ou do milho sejam liberados para a fermentação, são empregadas as enzimas da saliva humana. O preparo é feito pelas mulheres da aldeia, que mastigam e ensalivam a mandioca (sem trocadilho) cozida, cuspindo-a depois em um pote. Depois disso, a pasta resultante é levada ao fogo e novamente cozida, sendo deixada para fermentar após sua retirada. O cozimento mata a maioria das bactérias, a fermentação libera álcool para matar as que resistiram. Depois disso, a bebida é servida aos homens da tribo, que devem bebê-la aos goles enquanto dançam, e às mulheres, que bebericam, saboreando-a.

A micareta é uma festividade em que pessoas ingerem álcool, os homens geralmente em grandes goles, as mulheres bebericando (nem sempre), enquanto dançam. Cada pessoa beija várias outras na boca, ensalivando-as sem cuspir, levar ao fogo ou fermentar. O álcool ingerido entre os beijos mata parte das bactérias, mas muitas restam vivas e passam para os próximos alvos. Supondo que cada pessoa beije em média umas cinco  - uma estimativa bem moderada, já que tem gente que beija umas vinte -, que por sua vez beijaram outras quatro, ao final da micareta é como se todo mundo tivesse beijado todos os participantes.

Você, micareteiro(a), beberia cauim para se animar na festa?

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Muvuca

Texto postado em janeiro de 2009 no blog www.desfavor.com , na qualidade de "desfavor convidado". Imagem de Drigo Bueno .

A evolução, em nossos tempos de savanas africanas, preparou-nos para vivermos em bandos de doze a quarenta pessoas. Alguns se adaptaram melhor do que outros à civilização e à vida urbana, outros desenvolveram sintomas de pânico, fobia social, agorafobia ou outros sintomas mais brandos, como algum desconforto na presença de estranhos ou em multidões. Eu acho aglomeração de gente um desfavor, mesmo não apresentando sintomas clinicamente significativos. Vamos a alguns exemplos, pra ilustrar:

Você vai ao Shopping Center em uma terça à tarde, fora do período de festividades: há lugar no estacionamento, as lojas estão vazias, há vendedores disponíveis, mesas livres na praça de alimentação. Tente ir perto do Natal ou mesmo em um sábado de chuva. Ano passado eu rodei todos os Shopping Centers da cidade em um dia chuvoso de verão porque tinha que comprar algo – moro em uma cidade turística em que triplica o movimento no verão – e não tinha lugar para estacionar. Inclusive, circular pela cidade estava complicado. Em outras ocasiões, cansei de ficar “sobrevoando” as mesas da praça de alimentação como uma ave de rapina, à espreita de alguém terminando sua refeição para liberar o lugar. Chega um momento em que é preciso ficar postado ao lado de alguém, encarando com um olhar de “vamos, tem mais gente querendo comer, deixe de conversa fiada!” Fora que os restaurantes e fast-foods mais encaráveis ficam demoradíssimos para atender, aí resta comer algo que você não queria no que tiver a menor fila. Você vai comprar alguma bobagem em uma loja de departamentos qualquer, aí a fila para pagar é quilométrica. Provavelmente a linha para pagar com cartão de débito estará congestionada, então você terá que passá-lo várias vezes, ou então pagar com dinheiro e fazer uma nova visita ao caixa eletrônico – que também tem fila. Fora o ruído… Fica um zumbido estranho que obriga todo mundo a falar mais alto, aumentando o maldito. Aí você resolve ir ao cinema, mesmo sabendo que a programação geralmente não é grandes coisas. Mais filas e só sobram ingressos para você ver “Besteirol Americano VIII” ou “O retorno dos tomates assassinos”, ambos dublados. Aí você fica revoltado, acha que atingiu seu limite e resolve ir embora. Passa no guichê para validar o ticket do estacionamento e constata que por cinco minutos as suas notas fiscais não bastarão para validar a conta, então você percebe que passou dez minutos na fila para validar a porcaria do ticket. Com ele validado e uns reais a menos no bolso, você tem poucos minutos para deixar o estacionamento, mas percebe que muita gente teve a mesma idéia. Poderia ser pior? Sempre, por definição. Tudo isso pode ser somado a discussões em família, brigas de casal ou choro de crianças que ficaram chateadas por não assistirem ao filme “O retorno dos tomates assassinos” pela terceira vez.

Você vai à praia em um domingo. Já sugeriu à sua namorada que é melhor ir cedo pra escapar do engarrafamento, ela jurou que no máximo às 9:00 vocês estarão a caminho. Você chega na casa dela às 8:30 e a sogra está servindo o café. Ela lhe convida para comer com eles, porque sua amadinha acabou de acordar e resolveu tomar um banho antes de ir à praia. Você fica pensando: claro, é preciso estar bem limpinha para não sujar a areia, a canga ou o mar. Meia hora depois ela chega, bela e faceira, e inicia o café. Você não pode dar uma bronca nela na frente da família, pois ainda conserva algum juízo, então o seu estômago capricha no ácido clorídrico e o seu fígado começa a fazer sua magia. Aí eles ficam em um bate-papo interminável sobre alguma fofoca familiar, ou pior do que isso, discutindo na sua frente e querendo que você se posicione. Você imagina se conseguirá realizar um truque mental ninja: fechar os olhos, desmaterializar-se e rematerializar-se em outro lugar, ao abrir os olhos. Não funciona. Às 10:30 ela vai reunir o equipamento: cadeira de praia, guarda-sol, quatro tipos de protetor solar, roupa para o caso de ventar, outra para o caso de chover, de nevar… Aí vai perguntar se o biquini novo, que ela levou horas escolhendo na loja, a deixa gorda. Você reprime o pensamento maligno “não, amor, o que te deixa gorda é o chocolate” e responde baixinho pro sogro não ouvir “não, amor, ele te deixa muito gostosa”. O irmãozinho caçula escuta e sai repetindo em altos brados. Às onze da manhã você está na estrada, junto com todo o pessoal que farreou na noite de sábado. Uma fila miserável, um calor dos diabos, o carro andando três metros, parando, sucessivamente. Você descobre que inventaram a p#@@% de um triatlo no mesmo dia e agora aqueles m&*%@$ desocupados estão andando de bicicleta, por isso uma das pistas foi interditada e a polícia rodoviária está circulando pelo acostamento. Depois de duas horas, vocês chegam à praia e não tem um p#%@ lugar para estacionar, então você tem que parar a quase 500 metros da praia e carregar toda aquela tralha, suando e bufando. Ela generosamente carrega as raquetes de frescobol. A areia está tão quente que daria para preparar seu almoço nela. Mais uma longa caminhada até encontrar um lugar para colocar o guarda-sol, longe dos quiosques que vendem coco, milho, cerveja e água mineral. Quando o acampamento está pronto, são duas da tarde e a fome retornou. Você come um milho-verde e umas castanhas de caju pra enganar o estômago, aí aparecem trinta vendedores de redes, um a cada cinco minutos: “e aí, meu rei?”

Abriu um bar novo na cidade. Florianópolis é a terra dos modismos, então a cidade inteira estará lá por no mínimo umas três semanas. Eu, que detesto muvuca, quando perguntam “Já foi ao bar novo?”, respondo “Não, estou esperando o bar ficar velho pra ir”. Mas não adianta, naquele período os outros bares da cidade estarão praticamente vazios (que maravilha) e o pessoal (amigos, amigas e agregados) resolverá marcar o encontro no bar novo. Eu adoro bares e vida noturna, não é pretexto para ficar em casa vendo filme. É que já conheço inauguração de bar de outros carnavais. Não há lugar para estacionar em um raio de 500 metros, há uma legião de flanelinhas para lhe extorquir na entrada, não haverá mesas disponíveis, os garçons estarão estressados e assoberbados, a cozinha não dará conta dos pedidos e a cerveja não terá tempo de gelar, tal a demanda.

Show da Madonna? Oktoberfest? Folianópolis? Show do dia do trabalhador? Carnaval de rua? Fogos na Avenida Beira-Mar na virada de ano? Tô fora! Muvuca é um desfavor.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Sanduíche de reputação

Certa noite dessas, ao navegar por blogs e ler postagens antigas, esbarrei em mais um fenômeno de linchamento por twitter. Como já discorri na postagem sobre sexting e cyberbullying, hoje em dia é preciso tomar cuidado com as tolices que se faz próximo de uma câmera. As imagens acabam vazando para a internet e a conta a pagar é alta. Julgar a vida dos outros e destruir reputações é a coisa mais fácil do mundo e praticamente um esporte nacional (quiçá mundial). Voltando ao caso em questão, uma mocinha resolveu fazer uma paródia dos programas culinários em um vídeo de pornografia caseira escatológica: preparou um sanduíche que foi apelidado depois de “sanduceta”, para os bons entendedores. Evidentemente que, a menos que seu estômago seja fraco, a curiosidade impõe que o vídeo seja visto. Gostei da moça e fiquei com pena de seu linchamento. A artista é bonitinha, carismática e, no sentimento de onipotência que a juventude dá, achou que o mundo perdoaria seu vídeo, ao ponto de mostrar o rosto e o interior de sua casa. Certamente a pessoa que postou o vídeo na internet não foi a autora, embora faltem dados a respeito disso. O filme, ainda que tenha pitadas de falta de higiene acima do recomendável, tem senso de humor e um texto engraçado. Eu até teria coragem de publicá-lo como miniconto, assim como escrevi “aumente seu pênis” e “sexo olímpico”, fazendo paródias que põem em cheque certos valores e preconceitos. Porém, como na tragédia grega, entrou em cena a “hamartia”: quando a flecha erra o alvo. Não se filma um sketch desses, nem por diversão. Pena, ela provavelmente nunca estudou Sociologia ou Psicologia Social. Um pouco de Foucault a teria salvado do assassinato (alguns dirão suicídio) de reputação. Imediatamente a história do “sanduceta” ganhou o twitter e uma legião de stalkers dispostos a identificar a atriz. Dito e feito, chegaram aos seus dados, passaram a atormentar sua família e ela precisará dar uma guinada em sua vida, se quiser ter paz de espírito. Em vez de ser considerada um ser humano que cometeu um erro de julgamento - achar que a sociedade está pronta para que uma jovem desafie impunemente seus padrões de moral sexual e de conduta social -, ela passou a ser tratada como uma “puta, porca, sem noção”, que é a rotulação mais fácil. Quem desafia a moralidade sexual vigente com a veiculação de nudez e atos sexuais normalmente precisa de um salvo-conduto (ser celebridade) ou da firme decisão em se tornar profissional do sexo, com os custos correspondentes. Quanto ao nojo, este não se restringe ao que é consensual como falta de higiene, mas obedece a padrões culturais, como salienta Steven Pinker em “Como a mente funciona”. Um sujeito que pratique sexo oral em mulheres e goste de sanduíches pode sentir repulsa pelo “sanduceta” pelo mesmo motivo que alguém que goste de chocolate e de anchovas pode sentir nojo de um bombom de peixe, já que o todo é maior do que a soma das partes. Outros podem achar besteira e, de fato, há muita gente que gosta de misturar sexo e comida, como demonstram o sushi erótico e a festa do leite condensado. Porém, ela foi mais longe e desafiou noções de higiene ao usar a maionese de forma comprometedora. Acho difícil a mocinha seguir com sua vida normalmente sem precisar tomar uma atitude radical, da mudança de aparência à mudança de nome. Sempre haverá alguém com boa memória e más intenções. Eu, particularmente, tenho mais admiração por ela do que pelos delatores que apontaram seu nome, cidade e curso.

P.S.: a foto é do Foucault. Ou vocês esperavam outra coisa?

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Da coerência na virtualidade


Ou sexo virtual é sexo mesmo, ou ensino à distância não é ensino.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Trotsky, Scheila Carvalho e os anais da história

O livro 1984, de George Orwell, é uma preciosidade. Ainda que o programa Big Brother tenha seu nome e a temática da vigilância derivadas desta obra, o pobre do Orwell não tem a menor culpa disso. Um dos aspectos mais interessantes da crítica que faz à criação do regime totalitário da União Soviética passa pela revisão da história para que fique de acordo com a doutrina do partido. No livro, o Ministério da Verdade se encarrega de excluir registros de fatos que denunciem contradições na política do governo, obrigando o cidadão ao “duplipensar”, que é uma forma de tentar apagar a memória para se adequar à nova versão do fato, criando uma falsa lembrança no seu lugar. No período Stalinista, Trotsky virou persona non grata e “inimigo da revolução”, sendo excluído de registros e fotos oficiais para que prevalecesse a versão stalinista dos acontecimentos. Hoje eu tive um momento de indignação com pessoas que “esquecem seletivamente” de alguns fatos para que suas ações e motivações pareçam mais nobres, removendo-os de sua versão para dar mais credibilidade às auto-justificativas. Estava falando nisso com um colega de trabalho, dizendo: “Porra, parece o que fizeram com o Trotsky, tirando o cara das fotos.” Aí ele me respondeu: “Paulão, se os caras da Playboy deram sumiço no cu da Scheila Carvalho com photoshop, o pessoal tinha mais era que tirar o Trotsky, aquele feio!” Aí eu vi que, assim como certos comunistas e buraquinhos de celebridades, há acontecimentos que não ficam bem na foto e acabam excluídos dos anais (com trocadilho) da história.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Maomé e as múmias

Assim como há grávidas que acordam com desejo de comer pão de milho com geleia de jenipapo, uma noite dessas me bateu desejo de ver egípcias peladas - sabe-se lá por que. Fui no Google imagens e descobri a moça que causou furor no Egito (e no mundo afora), desafiando a cultura local e protestando contra a repressão. Isso é pra gente ver que contexto é tudo, porque aqui no mundo "pós-medieval" os significados de se expor nua em blog passam muito longe do desafio às autoridades. É por isso que eu tenho alguma tolerância com o péssimo cinema brasileiro dos anos de ditadura, com suas pornochanchadas de gosto para lá de duvidoso. O fato é que a tal moça, Aliaa Magda Elmahdy, desagradou até a oposição, que é apenas um tiquinho mais liberal do que a situação. Cá pra nós, se o criador - a considerar que exista um, para respeitar a premissa dos incomodados - se ofendesse com nudez, todo mundo nasceria vestido. Na verdade, desconfio que a esfinge se matou diante de Édipo porque ela própria não conseguiu decifrar esse bicho que de manhã tem quatro patas, ao meio dia tem duas e à tarde tem três.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A voz da mulher

Um grande desafio para qualquer escritor é dar voz ao outro, ou seja, àquilo com o que não se identifica. Pode ser um verdugo, um fanático religioso, um político desonesto, um romântico incorrigível, um santo ou um poeta. O risco não é o de não saber o que dizer, até porque nossa identidade também é construída com base no que não somos ou não queremos ser, mas o de perder o ponto, errar nas tintas e cair no caricato. Por isso acho interessante quando homens tentam criar personagens femininas em primeira pessoa, desafio ao qual irei me propor em breve. João Ubaldo Ribeiro foi muito feliz neste exercício em  "A casa dos Budas ditosos", falando com a voz de uma despudorada e deliciosa senhora que conta suas memórias eróticas. Foi com o desejo de reencontrá-la que comprei "O diabo guardião", de Xavier Velasco, que alterna capítulos sobre Pig e Violetta, um jovem escritor e uma putinha - como ela própria se define, antes que o patrulhamento ideológico venha me perturbar nos comentários. Eu estava sem paciência para ler sobre o escritor e fui pulando capítulos, atendo-me à personagem feminina. Achei Velasco afetado, com um jeito meio histriônico e fútil, até que me caiu a ficha: "Espere aí, isso é o Velasco ou a adolescente Violetta?" Aí voltei aos capítulos sobre Pig e percebi que a afetação era intencional, característica da personagem, o que resgatou as qualidades do autor perante minha acidez crítica. Porém, para o meu gosto, o João Ubaldo dá de goleada no Velasco, tanto no quesito escrita quanto na adolescente que carrega em si.

 
design by suckmylolly.com