segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Maomé e as múmias

Assim como há grávidas que acordam com desejo de comer pão de milho com geleia de jenipapo, uma noite dessas me bateu desejo de ver egípcias peladas - sabe-se lá por que. Fui no Google imagens e descobri a moça que causou furor no Egito (e no mundo afora), desafiando a cultura local e protestando contra a repressão. Isso é pra gente ver que contexto é tudo, porque aqui no mundo "pós-medieval" os significados de se expor nua em blog passam muito longe do desafio às autoridades. É por isso que eu tenho alguma tolerância com o péssimo cinema brasileiro dos anos de ditadura, com suas pornochanchadas de gosto para lá de duvidoso. O fato é que a tal moça, Aliaa Magda Elmahdy, desagradou até a oposição, que é apenas um tiquinho mais liberal do que a situação. Cá pra nós, se o criador - a considerar que exista um, para respeitar a premissa dos incomodados - se ofendesse com nudez, todo mundo nasceria vestido. Na verdade, desconfio que a esfinge se matou diante de Édipo porque ela própria não conseguiu decifrar esse bicho que de manhã tem quatro patas, ao meio dia tem duas e à tarde tem três.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A voz da mulher

Um grande desafio para qualquer escritor é dar voz ao outro, ou seja, àquilo com o que não se identifica. Pode ser um verdugo, um fanático religioso, um político desonesto, um romântico incorrigível, um santo ou um poeta. O risco não é o de não saber o que dizer, até porque nossa identidade também é construída com base no que não somos ou não queremos ser, mas o de perder o ponto, errar nas tintas e cair no caricato. Por isso acho interessante quando homens tentam criar personagens femininas em primeira pessoa, desafio ao qual irei me propor em breve. João Ubaldo Ribeiro foi muito feliz neste exercício em  "A casa dos Budas ditosos", falando com a voz de uma despudorada e deliciosa senhora que conta suas memórias eróticas. Foi com o desejo de reencontrá-la que comprei "O diabo guardião", de Xavier Velasco, que alterna capítulos sobre Pig e Violetta, um jovem escritor e uma putinha - como ela própria se define, antes que o patrulhamento ideológico venha me perturbar nos comentários. Eu estava sem paciência para ler sobre o escritor e fui pulando capítulos, atendo-me à personagem feminina. Achei Velasco afetado, com um jeito meio histriônico e fútil, até que me caiu a ficha: "Espere aí, isso é o Velasco ou a adolescente Violetta?" Aí voltei aos capítulos sobre Pig e percebi que a afetação era intencional, característica da personagem, o que resgatou as qualidades do autor perante minha acidez crítica. Porém, para o meu gosto, o João Ubaldo dá de goleada no Velasco, tanto no quesito escrita quanto na adolescente que carrega em si.

 
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