sábado, 25 de fevereiro de 2012

Muvuca

Texto postado em janeiro de 2009 no blog www.desfavor.com , na qualidade de "desfavor convidado". Imagem de Drigo Bueno .

A evolução, em nossos tempos de savanas africanas, preparou-nos para vivermos em bandos de doze a quarenta pessoas. Alguns se adaptaram melhor do que outros à civilização e à vida urbana, outros desenvolveram sintomas de pânico, fobia social, agorafobia ou outros sintomas mais brandos, como algum desconforto na presença de estranhos ou em multidões. Eu acho aglomeração de gente um desfavor, mesmo não apresentando sintomas clinicamente significativos. Vamos a alguns exemplos, pra ilustrar:

Você vai ao Shopping Center em uma terça à tarde, fora do período de festividades: há lugar no estacionamento, as lojas estão vazias, há vendedores disponíveis, mesas livres na praça de alimentação. Tente ir perto do Natal ou mesmo em um sábado de chuva. Ano passado eu rodei todos os Shopping Centers da cidade em um dia chuvoso de verão porque tinha que comprar algo – moro em uma cidade turística em que triplica o movimento no verão – e não tinha lugar para estacionar. Inclusive, circular pela cidade estava complicado. Em outras ocasiões, cansei de ficar “sobrevoando” as mesas da praça de alimentação como uma ave de rapina, à espreita de alguém terminando sua refeição para liberar o lugar. Chega um momento em que é preciso ficar postado ao lado de alguém, encarando com um olhar de “vamos, tem mais gente querendo comer, deixe de conversa fiada!” Fora que os restaurantes e fast-foods mais encaráveis ficam demoradíssimos para atender, aí resta comer algo que você não queria no que tiver a menor fila. Você vai comprar alguma bobagem em uma loja de departamentos qualquer, aí a fila para pagar é quilométrica. Provavelmente a linha para pagar com cartão de débito estará congestionada, então você terá que passá-lo várias vezes, ou então pagar com dinheiro e fazer uma nova visita ao caixa eletrônico – que também tem fila. Fora o ruído… Fica um zumbido estranho que obriga todo mundo a falar mais alto, aumentando o maldito. Aí você resolve ir ao cinema, mesmo sabendo que a programação geralmente não é grandes coisas. Mais filas e só sobram ingressos para você ver “Besteirol Americano VIII” ou “O retorno dos tomates assassinos”, ambos dublados. Aí você fica revoltado, acha que atingiu seu limite e resolve ir embora. Passa no guichê para validar o ticket do estacionamento e constata que por cinco minutos as suas notas fiscais não bastarão para validar a conta, então você percebe que passou dez minutos na fila para validar a porcaria do ticket. Com ele validado e uns reais a menos no bolso, você tem poucos minutos para deixar o estacionamento, mas percebe que muita gente teve a mesma idéia. Poderia ser pior? Sempre, por definição. Tudo isso pode ser somado a discussões em família, brigas de casal ou choro de crianças que ficaram chateadas por não assistirem ao filme “O retorno dos tomates assassinos” pela terceira vez.

Você vai à praia em um domingo. Já sugeriu à sua namorada que é melhor ir cedo pra escapar do engarrafamento, ela jurou que no máximo às 9:00 vocês estarão a caminho. Você chega na casa dela às 8:30 e a sogra está servindo o café. Ela lhe convida para comer com eles, porque sua amadinha acabou de acordar e resolveu tomar um banho antes de ir à praia. Você fica pensando: claro, é preciso estar bem limpinha para não sujar a areia, a canga ou o mar. Meia hora depois ela chega, bela e faceira, e inicia o café. Você não pode dar uma bronca nela na frente da família, pois ainda conserva algum juízo, então o seu estômago capricha no ácido clorídrico e o seu fígado começa a fazer sua magia. Aí eles ficam em um bate-papo interminável sobre alguma fofoca familiar, ou pior do que isso, discutindo na sua frente e querendo que você se posicione. Você imagina se conseguirá realizar um truque mental ninja: fechar os olhos, desmaterializar-se e rematerializar-se em outro lugar, ao abrir os olhos. Não funciona. Às 10:30 ela vai reunir o equipamento: cadeira de praia, guarda-sol, quatro tipos de protetor solar, roupa para o caso de ventar, outra para o caso de chover, de nevar… Aí vai perguntar se o biquini novo, que ela levou horas escolhendo na loja, a deixa gorda. Você reprime o pensamento maligno “não, amor, o que te deixa gorda é o chocolate” e responde baixinho pro sogro não ouvir “não, amor, ele te deixa muito gostosa”. O irmãozinho caçula escuta e sai repetindo em altos brados. Às onze da manhã você está na estrada, junto com todo o pessoal que farreou na noite de sábado. Uma fila miserável, um calor dos diabos, o carro andando três metros, parando, sucessivamente. Você descobre que inventaram a p#@@% de um triatlo no mesmo dia e agora aqueles m&*%@$ desocupados estão andando de bicicleta, por isso uma das pistas foi interditada e a polícia rodoviária está circulando pelo acostamento. Depois de duas horas, vocês chegam à praia e não tem um p#%@ lugar para estacionar, então você tem que parar a quase 500 metros da praia e carregar toda aquela tralha, suando e bufando. Ela generosamente carrega as raquetes de frescobol. A areia está tão quente que daria para preparar seu almoço nela. Mais uma longa caminhada até encontrar um lugar para colocar o guarda-sol, longe dos quiosques que vendem coco, milho, cerveja e água mineral. Quando o acampamento está pronto, são duas da tarde e a fome retornou. Você come um milho-verde e umas castanhas de caju pra enganar o estômago, aí aparecem trinta vendedores de redes, um a cada cinco minutos: “e aí, meu rei?”

Abriu um bar novo na cidade. Florianópolis é a terra dos modismos, então a cidade inteira estará lá por no mínimo umas três semanas. Eu, que detesto muvuca, quando perguntam “Já foi ao bar novo?”, respondo “Não, estou esperando o bar ficar velho pra ir”. Mas não adianta, naquele período os outros bares da cidade estarão praticamente vazios (que maravilha) e o pessoal (amigos, amigas e agregados) resolverá marcar o encontro no bar novo. Eu adoro bares e vida noturna, não é pretexto para ficar em casa vendo filme. É que já conheço inauguração de bar de outros carnavais. Não há lugar para estacionar em um raio de 500 metros, há uma legião de flanelinhas para lhe extorquir na entrada, não haverá mesas disponíveis, os garçons estarão estressados e assoberbados, a cozinha não dará conta dos pedidos e a cerveja não terá tempo de gelar, tal a demanda.

Show da Madonna? Oktoberfest? Folianópolis? Show do dia do trabalhador? Carnaval de rua? Fogos na Avenida Beira-Mar na virada de ano? Tô fora! Muvuca é um desfavor.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Sanduíche de reputação

Certa noite dessas, ao navegar por blogs e ler postagens antigas, esbarrei em mais um fenômeno de linchamento por twitter. Como já discorri na postagem sobre sexting e cyberbullying, hoje em dia é preciso tomar cuidado com as tolices que se faz próximo de uma câmera. As imagens acabam vazando para a internet e a conta a pagar é alta. Julgar a vida dos outros e destruir reputações é a coisa mais fácil do mundo e praticamente um esporte nacional (quiçá mundial). Voltando ao caso em questão, uma mocinha resolveu fazer uma paródia dos programas culinários em um vídeo de pornografia caseira escatológica: preparou um sanduíche que foi apelidado depois de “sanduceta”, para os bons entendedores. Evidentemente que, a menos que seu estômago seja fraco, a curiosidade impõe que o vídeo seja visto. Gostei da moça e fiquei com pena de seu linchamento. A artista é bonitinha, carismática e, no sentimento de onipotência que a juventude dá, achou que o mundo perdoaria seu vídeo, ao ponto de mostrar o rosto e o interior de sua casa. Certamente a pessoa que postou o vídeo na internet não foi a autora, embora faltem dados a respeito disso. O filme, ainda que tenha pitadas de falta de higiene acima do recomendável, tem senso de humor e um texto engraçado. Eu até teria coragem de publicá-lo como miniconto, assim como escrevi “aumente seu pênis” e “sexo olímpico”, fazendo paródias que põem em cheque certos valores e preconceitos. Porém, como na tragédia grega, entrou em cena a “hamartia”: quando a flecha erra o alvo. Não se filma um sketch desses, nem por diversão. Pena, ela provavelmente nunca estudou Sociologia ou Psicologia Social. Um pouco de Foucault a teria salvado do assassinato (alguns dirão suicídio) de reputação. Imediatamente a história do “sanduceta” ganhou o twitter e uma legião de stalkers dispostos a identificar a atriz. Dito e feito, chegaram aos seus dados, passaram a atormentar sua família e ela precisará dar uma guinada em sua vida, se quiser ter paz de espírito. Em vez de ser considerada um ser humano que cometeu um erro de julgamento - achar que a sociedade está pronta para que uma jovem desafie impunemente seus padrões de moral sexual e de conduta social -, ela passou a ser tratada como uma “puta, porca, sem noção”, que é a rotulação mais fácil. Quem desafia a moralidade sexual vigente com a veiculação de nudez e atos sexuais normalmente precisa de um salvo-conduto (ser celebridade) ou da firme decisão em se tornar profissional do sexo, com os custos correspondentes. Quanto ao nojo, este não se restringe ao que é consensual como falta de higiene, mas obedece a padrões culturais, como salienta Steven Pinker em “Como a mente funciona”. Um sujeito que pratique sexo oral em mulheres e goste de sanduíches pode sentir repulsa pelo “sanduceta” pelo mesmo motivo que alguém que goste de chocolate e de anchovas pode sentir nojo de um bombom de peixe, já que o todo é maior do que a soma das partes. Outros podem achar besteira e, de fato, há muita gente que gosta de misturar sexo e comida, como demonstram o sushi erótico e a festa do leite condensado. Porém, ela foi mais longe e desafiou noções de higiene ao usar a maionese de forma comprometedora. Acho difícil a mocinha seguir com sua vida normalmente sem precisar tomar uma atitude radical, da mudança de aparência à mudança de nome. Sempre haverá alguém com boa memória e más intenções. Eu, particularmente, tenho mais admiração por ela do que pelos delatores que apontaram seu nome, cidade e curso.

P.S.: a foto é do Foucault. Ou vocês esperavam outra coisa?

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Da coerência na virtualidade


Ou sexo virtual é sexo mesmo, ou ensino à distância não é ensino.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Trotsky, Scheila Carvalho e os anais da história

O livro 1984, de George Orwell, é uma preciosidade. Ainda que o programa Big Brother tenha seu nome e a temática da vigilância derivadas desta obra, o pobre do Orwell não tem a menor culpa disso. Um dos aspectos mais interessantes da crítica que faz à criação do regime totalitário da União Soviética passa pela revisão da história para que fique de acordo com a doutrina do partido. No livro, o Ministério da Verdade se encarrega de excluir registros de fatos que denunciem contradições na política do governo, obrigando o cidadão ao “duplipensar”, que é uma forma de tentar apagar a memória para se adequar à nova versão do fato, criando uma falsa lembrança no seu lugar. No período Stalinista, Trotsky virou persona non grata e “inimigo da revolução”, sendo excluído de registros e fotos oficiais para que prevalecesse a versão stalinista dos acontecimentos. Hoje eu tive um momento de indignação com pessoas que “esquecem seletivamente” de alguns fatos para que suas ações e motivações pareçam mais nobres, removendo-os de sua versão para dar mais credibilidade às auto-justificativas. Estava falando nisso com um colega de trabalho, dizendo: “Porra, parece o que fizeram com o Trotsky, tirando o cara das fotos.” Aí ele me respondeu: “Paulão, se os caras da Playboy deram sumiço no cu da Scheila Carvalho com photoshop, o pessoal tinha mais era que tirar o Trotsky, aquele feio!” Aí eu vi que, assim como certos comunistas e buraquinhos de celebridades, há acontecimentos que não ficam bem na foto e acabam excluídos dos anais (com trocadilho) da história.

 
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