sábado, 18 de fevereiro de 2012

Sanduíche de reputação

Certa noite dessas, ao navegar por blogs e ler postagens antigas, esbarrei em mais um fenômeno de linchamento por twitter. Como já discorri na postagem sobre sexting e cyberbullying, hoje em dia é preciso tomar cuidado com as tolices que se faz próximo de uma câmera. As imagens acabam vazando para a internet e a conta a pagar é alta. Julgar a vida dos outros e destruir reputações é a coisa mais fácil do mundo e praticamente um esporte nacional (quiçá mundial). Voltando ao caso em questão, uma mocinha resolveu fazer uma paródia dos programas culinários em um vídeo de pornografia caseira escatológica: preparou um sanduíche que foi apelidado depois de “sanduceta”, para os bons entendedores. Evidentemente que, a menos que seu estômago seja fraco, a curiosidade impõe que o vídeo seja visto. Gostei da moça e fiquei com pena de seu linchamento. A artista é bonitinha, carismática e, no sentimento de onipotência que a juventude dá, achou que o mundo perdoaria seu vídeo, ao ponto de mostrar o rosto e o interior de sua casa. Certamente a pessoa que postou o vídeo na internet não foi a autora, embora faltem dados a respeito disso. O filme, ainda que tenha pitadas de falta de higiene acima do recomendável, tem senso de humor e um texto engraçado. Eu até teria coragem de publicá-lo como miniconto, assim como escrevi “aumente seu pênis” e “sexo olímpico”, fazendo paródias que põem em cheque certos valores e preconceitos. Porém, como na tragédia grega, entrou em cena a “hamartia”: quando a flecha erra o alvo. Não se filma um sketch desses, nem por diversão. Pena, ela provavelmente nunca estudou Sociologia ou Psicologia Social. Um pouco de Foucault a teria salvado do assassinato (alguns dirão suicídio) de reputação. Imediatamente a história do “sanduceta” ganhou o twitter e uma legião de stalkers dispostos a identificar a atriz. Dito e feito, chegaram aos seus dados, passaram a atormentar sua família e ela precisará dar uma guinada em sua vida, se quiser ter paz de espírito. Em vez de ser considerada um ser humano que cometeu um erro de julgamento - achar que a sociedade está pronta para que uma jovem desafie impunemente seus padrões de moral sexual e de conduta social -, ela passou a ser tratada como uma “puta, porca, sem noção”, que é a rotulação mais fácil. Quem desafia a moralidade sexual vigente com a veiculação de nudez e atos sexuais normalmente precisa de um salvo-conduto (ser celebridade) ou da firme decisão em se tornar profissional do sexo, com os custos correspondentes. Quanto ao nojo, este não se restringe ao que é consensual como falta de higiene, mas obedece a padrões culturais, como salienta Steven Pinker em “Como a mente funciona”. Um sujeito que pratique sexo oral em mulheres e goste de sanduíches pode sentir repulsa pelo “sanduceta” pelo mesmo motivo que alguém que goste de chocolate e de anchovas pode sentir nojo de um bombom de peixe, já que o todo é maior do que a soma das partes. Outros podem achar besteira e, de fato, há muita gente que gosta de misturar sexo e comida, como demonstram o sushi erótico e a festa do leite condensado. Porém, ela foi mais longe e desafiou noções de higiene ao usar a maionese de forma comprometedora. Acho difícil a mocinha seguir com sua vida normalmente sem precisar tomar uma atitude radical, da mudança de aparência à mudança de nome. Sempre haverá alguém com boa memória e más intenções. Eu, particularmente, tenho mais admiração por ela do que pelos delatores que apontaram seu nome, cidade e curso.

P.S.: a foto é do Foucault. Ou vocês esperavam outra coisa?

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