quinta-feira, 22 de março de 2012

O fim do humor 3

Em tempos politicamente corretos e de histeria punitiva, a chamada “censura do bem” deu as mãos à indústria das indenizações também aqui no Brasil. Este mau costume norte-americano de exagerar na vitimização para encher os bolsos não demorou a vingar aqui, onde o sonho do dinheiro fácil já estava presente para deixar a terra bem fértil. A discussão que deveria estar na mesa é “qual o papel do humor na sociedade?”. Nesse sentido, os bobos da corte já davam o tom: o humor serve para a relativização do poder. Alguém deve ter condições de apontar o ridículo do rei sem ser decapitado por isso. O politicamente correto, em uma espécie de guerra santa, vem criando grupos de intocáveis, sob pena de ataques ao bolso e à liberdade. Quem conhece a natureza humana e tem irmãos mais novos sabe que o tiranizado, ao receber poder, geralmente vira tirano e não um justo. Isto posto, vamos ao caso mais recente de “humoricídio”. Alguns humoristas, movidos pela nova onda de intocabilidade e correção política, resolveram criar um espetáculo politicamente incorreto, exagerando nas tintas do mau-gosto, porém deixando claro do que se tratava e fazendo o público assinar que não se ofendia com esse tipo de coisa, dado o caráter absurdo que o espetáculo assumiria em seu exagero proposital. Mesmo não tendo valor legal, o documento ajudava a mapear o estado de espírito de supostos ofendidos. Teve uma brecha: os músicos do espetáculo não assinaram o documento. Resultado: a caça às bruxas vai atrás do demônio em cada cantinho, por mais recôndito que seja. Ora, se você fosse a uma casa de swing, denunciaria alguém lá de dentro por atentado ao pudor? As portas estão fechadas, entra quem quer e todos sabem o que acontece lá dentro. Se você fosse assistir a um torneio de boxe, denunciaria os lutadores por lesões corporais graves? Você sabe do que se trata ao entrar lá, comprou ingresso para isso. Aí eu pergunto: e se a garçonete do swing afirmasse estar chocada com a promiscuidade, você levaria a sério uma denúncia de atentado ao pudor? Se o faxineiro que carrega o balde de cuspe no boxe ficasse indignado com as agressões físicas e denunciasse o nocauteador por lesões corporais graves, você diria que ele realmente não esperava encontrar aquilo por ali? Se você fosse um jogador de futebol e estivesse na concentração, caso fosse impedido de sair para a farra, denunciaria o técnico por cárcere privado? Com o oba-oba das denúncias e indenizações, logo isso vai começar a acontecer, em uma cruzada contra a promiscuidade, a violência e outra destas bandeiras que tanto enchem de orgulho os paladinos no combate aos malvados do mundo. É com essa mentalidade que surgiram as cruzadas, a jihad, o fascismo, o nazismo, o comunismo e tantos “ismos” que, em regimes totalitários, prometem livrar o mundo do mal às custas de políticas de intolerância (que é mais bonito chamar de tolerância zero). Daqui a pouco o Rafinha Bastos seguirá o exemplo do Tiririca e se elegerá deputado para... (nem vou concluir, para não indenizar ninguém).

Preconceito é uma nojeira, mas censura é outra. O mais curioso, lembrando do processo de abertura política no Brasil, é que logo depois do final da censura o humor brotou de forma iconoclasta, não respeitando a nada e a ninguém, mas depois disso se pasteurizou. Os mesmos cassetas, planetas e afins, que estampavam manchetes como “candidatos epiléticos se debatem na TV” ou diziam coisas como “em minha mulher, bato eu!”, tornaram-se bastante comedidos quando a liberdade de expressão passou a ser algo cotidiano. O que temo é que o ressurgimento da censura, ainda que de forma camuflada, acabe por gerar uma força contrária e dê munição para os grupos extremistas, fortalecendo a doença que pretendeu exterminar. O melhor remédio contra o humor tosco é não rir dele, mas perguntar “onde está a graça dessa piada besta?”

sábado, 17 de março de 2012

Da relatividade do nojo


O cauim é uma bebida alcoólica preparada pelos índios. Para que os açúcares da mandioca ou do milho sejam liberados para a fermentação, são empregadas as enzimas da saliva humana. O preparo é feito pelas mulheres da aldeia, que mastigam e ensalivam a mandioca (sem trocadilho) cozida, cuspindo-a depois em um pote. Depois disso, a pasta resultante é levada ao fogo e novamente cozida, sendo deixada para fermentar após sua retirada. O cozimento mata a maioria das bactérias, a fermentação libera álcool para matar as que resistiram. Depois disso, a bebida é servida aos homens da tribo, que devem bebê-la aos goles enquanto dançam, e às mulheres, que bebericam, saboreando-a.

A micareta é uma festividade em que pessoas ingerem álcool, os homens geralmente em grandes goles, as mulheres bebericando (nem sempre), enquanto dançam. Cada pessoa beija várias outras na boca, ensalivando-as sem cuspir, levar ao fogo ou fermentar. O álcool ingerido entre os beijos mata parte das bactérias, mas muitas restam vivas e passam para os próximos alvos. Supondo que cada pessoa beije em média umas cinco  - uma estimativa bem moderada, já que tem gente que beija umas vinte -, que por sua vez beijaram outras quatro, ao final da micareta é como se todo mundo tivesse beijado todos os participantes.

Você, micareteiro(a), beberia cauim para se animar na festa?

 
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