segunda-feira, 30 de julho de 2012

O leão diário


É preciso ter muita coragem para representar o Brasil no esporte. Tirando o futebol, que paga aos atletas de elite verdadeiras fortunas, a realidade costuma ser muito diferente: vidas sacrificadas, dificuldades em obter patrocínio, pouco intercâmbio, difícil acesso a treinamento de ponta. Quando o camarada leva um tombo, perde um jogo ou não se classifica, ainda tem que suportar desaforos dos jornalistas e da torcida, manchetes com termos ofensivos (fiasco, fracasso, vexame), como se algum de nós tivesse de algum modo patrocinado aquelas pessoas. Já disse aqui antes: perder é a regra, ganhar é a exceção. Essa mentalidade egocêntrica, que nega ao outro o direito de vencer de vez em quando, só se justifica em crianças pequenas, ainda incapazes de se colocar no lugar do outro. Queria ver só se os judocas ficassem assistindo aos vendedores e dizendo: “Josimar deu vexame nas vendas desse mês e não atingiu as metas!” Ou os ginastas acompanhando os advogados e declarando: “fiasco da Dra. Ronivalda na ação de alimentos”. Você pode argumentar que os outros profissionais não estão representando o Brasil. Pois eu digo que é pior: eles são o Brasil.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Cadernos de viagem – o Porto dos ancestrais


Faz tempo que não menciono minha viagem a Portugal e Espanha, mas arrumar as malas traz este registros à memória. Continuando a postagem de 30 de abril de 2011, cidade do Porto. Tomei um pequeno almoço (café-da-manhã) saboroso, porém sem extravagâncias no Hotel Malaposta. Parti em busca da estação rodoviária para garantir meu bilhete para Mogadouro, de modo a não perder a cerimônia de premiação. Para variar um pouco, perdi-me na cidade, mas por fim encontrei o terminal da Rodonorte. Bilhete comprado, fui para o tour no autocarro (ônibus) turístico. O joelho começou a incomodar e eu suspeitei que estava macumbado, mas foi temporário. A manhã era chuvosa e o mar estava de ressaca, mas achei bela a cidade, com suas igrejas e azulejos. Passei pela torre do Clérigos, pela Igreja das Carmelitas e outras edificações de valor histórico e arquitetônico, ouvindo uma bela música que achei equivocadamente que fosse Madredeus, depois quis reencontrar e não pude. Desci perto da Igreja de São Francisco, que achei muito bonita, e fiquei pensando no nosso ouro, que passou de Portugal à Inglaterra. Desci às catacumbas em busca de algum ancestral perdido, mas aparentemente não eram tão abastados. Dali fui ao Grémio dos Leitões, onde comi feito um rei (um rei gordo, evidentemente): uma entrada de pequenas porções de polvo, tripas e orelhas de porco, acompanhadas de pão. Como prato principal, uma porção de leitão acompanhada de meia garrafa de vinho Sarmentinho tinto. Encontrei brasileiros pela cidade e me recomendaram que experimentasse uma “francesinha”, sanduíche típico da cidade. Fiz novamente o tour no autocarro, parei perto da estação ferroviária e tentei mandar um e-mail para os familiares, mas Portugal está cheia de imigrantes que mal falam o idioma e prestam serviços de péssima qualidade. Tá certo, os caras precisam sobreviver, mas é uma complicação para quem precisa ser cliente. A tal da lan house era simplesmente inoperante, uma vez que a banda não cobria o número de usuários. Paguei o tempo mínimo e fui embora dali, caminhando em direção à Igreja de Santa Clara, que estava fechada antes do horário previsto. Sim, os hábitos brasileiros não se formaram do nada. Não cheguei a parar nas vinícolas em Vila Nova de Gaia, tampouco a beber um vinho do Porto (aquele enriquecido, afinal todos de lá seriam teoricamente do Porto, embora fabricados na cidade vizinha). Como a igreja estava fechada, aproveitei que estava perto e fiz uma visita à Universidade Lusófona do Porto, identificando-me como Professor de Psicologia. Fui muito bem tratado e saí de lá com alguns prospectos da Universidade. No fim da tarde, o joelho voltou a reclamar e as longas caminhadas provocaram assaduras. Comprei uma pomada que, segundo a bula, era especial para “o rabinho do bebê”. Aparentemente, também era adequada às partes internas das coxas dos adultos e curou-me rapidamente. Descobri uns sebos nas cercanias do hotel e aproveitei para adquirir um livro de Trindade Coelho e outro sobre o Algarve. Fui abençoado com um estômago de aço e o leitão não me causou nenhum revertério. Porém, à noite eu comprei umas frutas e suco abstendo-me de orgias gastronômicas – pelo menos até o dia seguinte.

 
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